Sacrifícios
Por Fernando Fontoura 19/08/2006
 

A idéia do sacrifício como algo que dignifica a ação humana há muito nos foi incutida através de teorias para justificar atos imorais e tiranias governamentais. Ainda hoje há resquícios dessa propaganda subliminar que nos foi vendida nas igrejas, nas escolas e na mídia de uma maneira geral.

Culturalmente, sempre nos disseram que a dor e a privação eram purificadoras. Que através da dor viria a cura, que através do amargo viria o doce, que através do mal viria o bem. Inverteram-se os valores e hoje qualquer um que chega ao topo perguntam a ele quais sacrifícios teve que fazer para alcançar seus objetivos, como se a resposta a essa pergunta fosse dignificar ainda mais suas ações.

Sacrifício não dignifica ninguém. O que dignifica é a busca de seus resultados e o que a pessoa se torna ao consegui-los. Não há sacrifício envolvido quando a troca de valores é do menor para o maior. Quando se troca dez centavos por cem reais, não há sacrifício; mas quando se troca cem reais por dez centavos, há. Sacrifício tem tudo a ver com valor.

A história está cheia de heróis que morreram por uma conquista, seja de um país ou de um ideal. Eles não se sacrificaram por seus objetivos, sacrifício seria se eles tivessem vivido em um mundo em que não acreditavam. Sacrifício seria abrir mão de seus ideais e aceitar uma posição ou ideal que não era o melhor para eles.

Uma mãe que diz se sacrificar por seu filho, dá mais valor ao filho ou ao que está deixando de fazer? O atleta que diz se sacrificar para alcançar um resultado dá mais valor ao que está abrindo mão ou ao resultado? Lutar por algo que se quer não é sacrifício. Suar, treinar, abrir mão de certas coisas (ou de muitas coisas), acordar cedo, dormir tarde, viver em cima de uma quadra ou longe dos amigos não é sacrifício se o que se busca tem mais valor. Não vamos transformar nossas melhores atitudes em sacrifício.

Guga não se sacrificou para ser número um do tênis. Trabalhou duro, suou muito, teve momentos difíceis, mas não houve sacrifício. Sacrifício seria se ele tivesse abandonado seus ideais por momentos de bem-estar que não o levariam aonde queria chegar. O resultado que conseguiu foi fruto de seu trabalho, de seu esforço, mas não de seu sacrifício.

Pessoas pagam suas promessas com sacrifícios. Sobem milhares de degraus de joelhos para pagar por uma benção. Por que não pagar a promessa com coisas boas? Com uma boa saída com os amigos em uma noite de alegria ou comprando algo que há tempos gostaria de ter ou indo a uma praia e tomando um maravilhoso banho de mar?

A dor como purificação da alma é um slogan comum, mas tremendamente falso. A felicidade e a alegria são purificadoras e energizam a alma e o espírito. A idéia do sacrifício cria vítimas, não heróis. E vítimas não alcançam seus objetivos, não lutam por eles, não são ativos. São passivos, reclamões e esperam sempre por alguma ajuda de fora. Não são essas características que vemos no Guga, no Federer, na Daiane dos Santos, no Ronaldinho Gaúcho ou em qualquer outro campeão de qualquer outra atividade da vida.

Vamos lutar pelo que acreditamos, vamos viver sob nossas melhores convicções e vamos treinar, jogar, perder e ganhar sem sacrifícios para poder, além do resultado, dignificar nossa condição de seres humanos.

 

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com