| Competitividade |
| Por Fernando Fontoura |
02/09/2006 |
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A
competitividade pode ser uma prisão. Há várias histórias
de pessoas que depois de competirem por vários anos, em nível médio
ou profissional, não conseguiram se desvencilhar da competitividade dentro
da quadra. Eu fui uma dessas pessoas. Após mais de dez anos competindo,
chegou um dia que larguei a caminhada rumo ao profissional e fui viver uma vida
"normal".
Não deixei de jogar, mas diminuí muito
a freqüência. O que acontecia é que cada vez que entrava na
quadra queria ter o mesmo desempenho que tinha quando treinava horas a fio, seis
a sete dias por semana. Logicamente que não conseguia. A frustração
começou a tomar conta cada vez que entrava na quadra. Se um dia conseguia
manter um certo nível, duas ou três semanas depois, que era a freqüência
em que conseguia jogar, já não apresentava o mesmo desempenho. Como
jogador, sabia o valor de um treino, mas a parceria, geralmente professores como
eu que passavam a maior parte do dia "empurrando" bola, não queria
mais treinar, queriam jogar, correr, bater na bola.
Sem treino, o jogo
caía cada vez mais de nível e o desempenho que tinha ficava cada
vez mais longe daquele que sabia que poderia ter. Concluindo: em um dia particularmente
difícil nos negócios, fui jogar tênis para desestressar, joguei
particularmente mal naquele dia (como não poderia ser diferente), fiquei
extremamente irritado e quebrei a raquete dizendo para mim mesmo: "Agora,
sem raquete, não vou mais poder jogar e não me irrito mais".
Era como querer colocar um bandeide em um furo de bala.
Como não
conseguia ficar sem jogar, pois o corpo estava acostumado com a adrenalina da
movimentação física, comecei a praticar outros esportes.
Aí eu conseguia relaxar. Comecei a jogar golfe, squash, pádel. Como
não tinha passado nesses esportes, poderia praticá-los sem ter referências
e tudo era, como diria Caetano Veloso, lindo. Para relaxar precisava praticar
outro esporte e não o qual eu já sabia jogar. Até que entrei
em um campeonato de squash e ganhei minha categoria. Entrei em outro e fui finalista.
Comecei a ter aulas e... bom o resto é igual. Cobranças, referências,
pressão própria e acabou a diversão.
Demorou
muito tempo para eu me dar conta de que teria que mudar minha visão do
esporte, de qualquer esporte. Competição é muito bom em espaço
e tempo limitado. Fora desses limites, é prisão e transforma o prazer
em obrigação, pressão e frustração.
Estes dias, vi meu pai, de 86 anos, olhando um foto dele quando tinha 40. Um close
de uma esquerda em slice muito bem preparada para o golpe. Ele estava lá,
remoendo um passado que não volta mais e que não tem mais lugar
no presente. Uma vez, disse a ele, que estava triste por não estar jogando
"bem", que tinha muitos outros motivos para ter alegria com o esporte:
86 anos de saúde, sem barriga, jogando de duas a três vezes por semana
no clube com amigos e com a família. Mulher, filhas, filhos e netos jogando
juntos em um dia ensolarado no clube. Depois vão todos para a casa dele
fazer aquele almoço de família enquanto os netos brincam e correm
no pátio. Relacionamentos e viagens por todo o mundo através do
esporte. Conhecimento e testemunha de grandes cidades.
Quando disse isso
a ele, também me dei conta do que fazia comigo e disse a mim mesmo: "Vá
competir para ter uma melhor vida através do trabalho que escolheste e
aprenda a se divertir numa quadra."
Muitas pessoas como eu aprenderam
através de muito treino a fazer algo muito bem na vida: um esporte. Que
se aprenda a usá-lo como lazer, diversão, reunião com amigos,
saúde e bem estar. Dizia um ditado chinês: há duas coisas
a se almejar na vida. Uma é conseguir o que se quer, a outra é saber
desfrutar daquilo que se conseguiu. Só os mais sábios alcançam
o segundo.
Pete
Sampras está nesta prisão quando diz que não sabe o que fazer
da vida depois que parou de jogar. E está voltando a torneios menores,
mas procurando uma forma de competição, pois não sabe sair
disso. É claro que é compreensível o sentimento dele, mas
há também que se entender que tem que sair desse pensamento.
Acontece muito isso com quem fez muito dinheiro na vida. Depois de um certo tempo,
quando o dinheiro já não é mais problema, não consegue
se livrar do trabalho e morre de medo de uma aposentadoria. Tanto a competitividade
quanto a busca pelo dinheiro são meios para um fim, mas não têm
sentido sozinhos. São restritos à sua temporalidade e espaço.
O mal que aprisiona é querer transformar os meios em fins. É fazer
de algo que serve para algo, um fim em si mesmo.
Essa competitividade bem
direcionada e trabalhada poderá trazer muitas virtudes à tona e
fazê-las trabalhar a favor de uma vida mais produtiva no trabalho e nos
negócios. Mas para começar uma nova fase é preciso antes
fechar bem a porta da anterior, para não haver passagem de frustrações
anteriores que contaminem o porvir.
Há de ser aproveitar todas as
virtudes que o esporte trabalha tão explicitamente, mas sempre lembrando
que a virtude é questão de contexto.
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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho
da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos
- "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos",
em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião
de suas principais crônicas.
Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com |
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