Cegueira
Por Fernando Fontoura 13/09/2006
 

Quando ia a um jogo de futebol e via toda aquela população ao redor do estádio, carrocinhas vendendo cachorro-quente, bebidas, bandeiras, bonés e tudo o mais e ainda via que qualquer cubículo era transformado em estacionamento cobrando o espaço "os olhos da cara", ficava pensando em como o clube não havia se dado conta de explorar esse mercado de, digamos, um quilômetro de raio ao redor do estádio. Todos esses "pontos de venda" estavam cheios. O clube ganhava com o ingresso e apenas quando o espectador entrava no estádio para consumir no seu bar e de seus ambulantes. Uma imensa área útil e de consumidores ávidos ficava de fora ou já entrava no estádio com uma parcela bem menor do que tinha levado para gastar. Fora que ainda depois dos jogos, se o time ganhava, os bares ao redor ficavam abertos até tarde da noite. Nada da receita que circundava o estádio nesse raio de mais ou menos um quilômetro convertia um centavo para o clube.

Após alguns anos e alguns gerentes de marketing fazendo apenas o óbvio, hoje há escolinhas espalhadas fora das cercanias do estádio e há alguns pontos de venda de produtos do clube em alguns shoppings. Básico, tudo muito básico, nada além disso. O Internacional de Porto Alegre ainda é um dos que tem um melhor departamento de marketing, ajudado pela boa campanha do clube neste período, e também porque os outros clubes estão à sombra em qualquer ação mais efetiva.

Trazendo isso para o tênis, estava discutindo o mercado com algumas pessoas e percebendo a triste realidade de quadras e academias que estão fechando as portas ou mudando de ramo. Cheguei à conclusão de que os que estão fechando suas portas são aqueles que exploravam apenas o consumidor de tênis como um ser que quer aulas, rankings e alguns torneios no final de semana. Esses estão fadados ao fracasso de seu próprio encurtamento de visão que faz com que o máximo horizonte que enxerguem é aquele a um palmo de distância da janela pela qual olham o mercado.

Tanto faz as verdes paragens delineando um céu azul mais adiante, pois sua cegueira é nebulosa e ao invés de tentarem consertar suas vistas preferem ver com os cotovelos, ou seja, não vão contra o princípio da visão, mas usam de um processo que contradiz esse princípio. Não a cegueira de nascença, mas a recusa de enxergar. Essa contradição eles explicam pelo fator sistêmico: o mercado está em baixa, os patrocinadores não têm cultura, as empresas não têm dinheiro, o governo não ajuda e como fazer algo com essa corrupção no Senado?

Gostaria muito que o leitor, que é um consumidor de tênis ou de qualquer outro esporte, pudesse opinar e me ajudar se estiver errado. O consumidor de tênis, independente de seu nível de freqüência de consumo, gostaria muito de poder obter outros produtos e serviços além da quadra e da academia. Se um jogador, por exemplo, tem uma tendinite ele fica em casa mofando, pois seu único consumo vem de dentro de uma quadra de tênis. Mas e se ele tivesse um livro? Um dvd? Uma palestra esportiva? Um jogo comentado na academia? Um bom site com um bom conteúdo em vídeo e texto? Um convite para assistir um bom jogo de tênis? Uma viagem programada com um grupo para visitar alguns eventos importantes?

Sei lá! O que sei é que o consumidor de tênis muda seu foco quando sai da quadra por absoluta falta de competência do mercado em lhe oferecer algo a mais. Não falo aqui nem em qualidade absoluta, já que a carência é tremenda, mas de alguma coisa que alimente sua avidez por um esporte que pratica por saúde, lazer, paixão, sociabilidade ou competição.

Um profissional do tênis não pode apenas pensar em sua especialização e abrir mão de pensar nas causas que fazem seu trabalho possível ou nas conseqüências de seu ato nos outros campos que se ligam à sua especialização. Não pode pensar: "o resto não é problema meu" ou "não tenho nada a ver com as outras áreas". Há de se fazer um esforço para integrar as causas e efeitos onde se está inserido. Qualquer ato seu que venha da recusa a enxergar, estará fora do contexto e tornará automaticamente inválidos seus conceitos.

Sabemos que há serviços de aulas de tênis desastrosos e farsantes, mas mesmo assim tem quem compre. Geralmente um consumidor de aulas passa dois anos com um professor antes de trocar. Por pior que seja. E só vai ficar sabendo quão ruim era quando comparar. Dois anos de investimento em um programa (ah, quem dera fosse um programa!) que lhe acrescentou um por cento do que poderia acrescentar em um programa de qualidade. Mas onde está esse programa? Onde estão esses serviços e produtos nas academias que freqüentam?

Sim, o tênis está em baixa, mas não por falta de potencial mercadológico, mas por falta de potencial de oferecimento a esse mercado. Como dizia um professor que rebatia o ditado de que os alunos tinham problemas de aprendizagem: na maioria das vezes, é problema de "ensinagem". É fácil jogar o problema para o outro lado da rede, difícil é ter capacidade de se reinventar, rever suas premissas, inovar e tentar fazer melhor. É fácil mamar em um mercado onde não há muitos parâmetros para diferenciar a qualidade. Como dizia a nota inicial do livro O Caráter: "É preciso força e valor para nadar contra a corrente, mas um peixe morto pode segui-la flutuando".

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com