| Virtudes |
| Por Fernando Fontoura |
03/10/2006 |
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Em
palestra que ministrei sobre as virtudes do esporte para toda a vida, dei como
exemplo negativo o caso dos vinte anos da "mão de deus" (neste
caso em minúsculo mesmo). Em uma chuteira de um jogador da Argentina nesta
Copa de 2006 havia um carimbo com louros ao redor reverenciando, promovendo e
comemorando os vinte anos do gol de Maradona com a mão, contra a Inglaterra,
e que deu o bicampeonato mundial ao país. Referi-me a isso como uma desvirtude,
no mínimo, uma anti-virtude, no máximo. E que poderíamos
saber muito de um povo e de uma nação apenas conhecendo seus ídolos.
Nisso se levanta um participante e diz que eu não poderia dizer isso. Que
falava isso porque era da Argentina. Que tinha que respeitar a opinião
de quem achava isso "legal". E que o Túlio também tinha
feito gol com a mão e era brasileiro. Respondi que mesmo sendo o Túlio,
e brasileiro, continuava com a mesma opinião: estava errado.
Aí
entrou uma discussão sobre o futebol e paixão, onde muitos pensam
que no futebol nada pode ser reavaliado pois se trata de uma paixão nacional.
Mais um erro de conceito, pois se tratando de paixão ou não, coisas
são certas ou erradas.
Essa mania de flexibilizar a ética,
de esticar com um "jeitinho brasileiro" a moralidade nos dá como
resultado tudo aquilo que vemos na TV no campo político. Se vejo um assaltante
abrindo um carro e levando o aparelho de cd, devo dizer que não concordo
com ele ou devo dizer que ele está errado? Essa omissão de convicções
é que dá respaldo a toda lama que encontramos em todas as áreas
da vida. Puxar a brasa para o seu assado, porque seu partido político tem
algo a ganhar, ou porque o que o motiva é a paixão, é querer
defender aquilo que é com aquilo que não é.
Aristóteles
certo dia proclamou a fórmula mais exata da humanidade: A é A. E
qualquer tentativa de fazer de um não-A um A é andar na contramão
da moralidade, não interessa qual sentimento esteja envolvido. Uma pedra
não pode ser uma pedra ao mesmo tempo em que é uma folha; um pedaço
de pau não pode ser um pedaço de pau ao mesmo tempo em que é
um vidro; uma parede não pode ser toda verde e vermelha ao mesmo tempo.
A é A.
E para exercer essa fórmula no dia-a-dia é
necessário ter convicções e escolher entre o certo e o errado,
entre o branco e o preto e não ficar em cima do muro cinza. A é
A não garante o acerto. Pode-se escolher com toda convicção
o errado, mas tendo convicção da escolha, tem-se consciência
desta, portanto há a alternativa da correção.
O sistema
"hawk eye" andou na direção da fórmula aristotélica
quando foi implantado. Ou é ou não é. Ponto. Ou repete-se
o ponto. Não fica naquela discussão de que houve intencionalidade
ou mau uso dessa. Trabalha a favor da fórmula A é A.
Antes
de querer alterar qualquer coisa na realidade, temos de perceber aquilo que é.
Tanto no esporte como na vida em geral. Outro filósofo, Francis Bacon,
certa vez disse que para comandar a natureza, primeiro, temos que obedecê-la.
Temos que primeiro descobrir valores (não criá-los) para depois
colocar nossas virtudes em jogo. E o esporte é um campo onde as virtudes
são explícitas e trabalhá-las neste campo dá a chance
de levá-las e exercitá-las para o resto da vida.
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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho
da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos
- "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos",
em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião
de suas principais crônicas.
Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com |
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