| Esporte e desenvolvimento humano |
| Por Fernando Fontoura |
20/11/2006 |
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Penso
que não há muita discussão sobre o fato do esporte ser um
meio para o desenvolvimento humano na área moral. Muito se diz também
que o esporte reflete o caráter de uma pessoa e que se eu não conhecer
meu adversário no dia-a-dia, ao jogar uma partida com ele, posso levar
como prévio julgamento de sua pessoa as atitudes que teve na quadra durante
a contenda.
Mas pouco se fala que o contrário também é
verdadeiro, ou seja, que se pode mudar comportamentos que afetam o dia-a-dia através
do esporte. Estão aí vários projetos socais para ratificar
esta afirmativa. Mas esta relação com o esporte não se restringe
apenas a projetos sociais. Nós, pessoas que sabemos ler, escrever, temos
certo estudo e certa condição econômica, também podemos
nos beneficiar deste aspecto esportivo e engendrar mudanças no nosso caráter
através do esporte que praticamos.
Como todas as virtudes de uma
vida estão presentes no esporte, além de estarem muito mais explicitadas,
é questão de aprender a perceber a relação que há
entre elas e nossas atitudes no dia-a-dia. A coragem que tem que se ter ao enfrentar
alguém melhor tecnicamente; a persistência que tem que se ter ao
implantar uma tática que se julga ser a melhor; a disciplina que tem que
se ter ao manter as metas vivas na mente; a consistência que tem que se
ter para não fugir dos propósitos e sucumbir à primeira dificuldade;
a capacidade racional que tem que se ter para analisar os porquês das derrotas
e vitórias.
Não há como dissociar as virtudes do esporte
das virtudes de levar uma empresa adiante em um mercado competitivo; não
há como dissociar as virtudes necessárias para praticar um esporte,
seja por competição ou lazer, das virtudes necessárias para
ter sucesso profissional na vida.
Porém,
as virtudes em si não são nada se não tiverem um fim para
alcançar. Exatamente pelo ser humano ser um agente automotivacional em
busca de uma meta, em todas as áreas que atua, é que as virtudes
se tornam tão importantes, como as ferramentas certas de um carpinteiro
que o acompanham em cada lugar que for realizar um trabalho. Mas a mesma maleta
de ferramentas, sozinha, sem uma finalidade definida, não terá o
mesmo valor.
Guga está colocando suas virtudes em jogo quando tenta
voltar ao circuito, assim como um empresário as estaria colocando se estivesse
tentando sair do buraco com sua empresa. Mas a pergunta que deveria estar se fazendo
Guga não é apenas o que ele quer com essa volta (isso ele já
respondeu), mas por que o quer.
Para que colocar todas as virtudes em
jogo e desejar o que desejo? É muito bonito ver as pessoas colocando todas
suas forças em jogo, dá uma sensação superação,
de poder, que elas podem tudo. Mas as virtudes não garantem nada e colocá-las
em funcionamento não que dizer que o sucesso esteja garantido. O que determinará
mais o sucesso daquilo que se almeja é saber a real natureza daquilo que
se quer realizar. É por teimosia ou por algo maior?
Andy
Roddick disse certa vez que caiu de produção neste ano porque havia
ficado desapontado com tantas partidas perdidas para Federer no ano passado, então,
focou exageradamente (teimosia) vencê-lo. Além de não conseguir
alcançar sua meta, começou a perder de outros jogadores também.
A teimosia afunila a visão e estreita as ações.
Fico
feliz por ver Guga voltando à ativa e querendo ser novamente top 10, mas
ainda não foi explicitado, pelo menos nas entrevistas dele, o porque de
tanta dedicação, ou seja, qual sua verdadeira motivação.
Mas na verdade, quem tem que saber essa motivação são apenas
duas pessoas: ele mesmo e seu técnico. Como dizia Ayn Rand, filósofa
americana: "Se quiser mover um homem, descubra sua motivação".
As
virtudes são as ferramentas que colocam o que há de melhor em nós
em movimento. Assim como um bom formão será melhor utilizado por
alguém que saiba como usá-lo, elas serão muito melhor utilizadas
por uma mente que sabe pensar.
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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho
da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos
- "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos",
em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião
de suas principais crônicas.
Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com |
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