| Dicotomia forçada |
| Por Fernando Fontoura |
11/12/2006 |
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Como várias dicotomias forçadas na nossa
cultura, tipo corpo ou alma, mente ou espírito, moral
ou prático, sonho ou realidade, dinheiro ou felicidade,
razão ou emoção, espiritual ou racional
e outras formas de forçar uma escolha entre duas
partes indivisíveis, no esporte também há
uma grande dicotomia forçada: resultado ou desempenho.
Em várias rodas de amigos e em todos os clubes e
academias de tênis do Brasil, em qualquer nível
que se jogue, há essa dicotomia sendo questionada
por pais, professores, atletas e treinadores.
Há uma grande diferença entre eles. Desempenho
é um meio de atingir um fim e resultado é
um fim. Portanto, não há como escolher entre
eles, mas ao contrário, como em toda dicotomia forçada,
o objetivo é integrá-las. Não há
como comparar coisas de naturezas diferentes. A cadeira
é mais azul que grande? A janela é mais larga
que pesada? É nesses termos que essas dicotomias
forçadas nos fazem escolher. A confusão é
óbvia e a resposta é tão vasta quanto
as idéias de cada um.
No caso de tentar comparar a cadeira ou a janela instantaneamente,
não vamos além. Paramos no momento em que
percebemos que há uma incoerência na escolha.
Em caso de conceitos saturados de significado e sentimentos,
perdemos a referência de comparação
e pensamos que temos mesmo que fazer uma escolha. Tentamos
dividir o indivisível e temos como resultado apenas
a frustração de não termos a resposta.
O fim dá valor aos meios. Para que fazer algo se
não tenho um objetivo definido? Se sei o que quero
alcançar e o que quero alcançar tem valor
para mim, os meios se enchem de valor e significado. Se
quero algo, mas não quero realizar os meios, ou seja,
em lugar popular, não quero "pagar o preço",
então o que desejo não é tão
importante.
Os fins não justificam os meios, mas os valorizam.
Só posso comparar fins com fins e meios com meios.
Comparo pregos com pregos, parafusos com parafusos, martelo
com martelo e casa com casa. Não posso comparar pregos
(meios) com casas (fins). Esta é a primeira etapa
para sabermos se o que vamos escolher está nos parâmetros
certos. O que é meio e o que é fim tem de
estar bem claro.
E entre os dois há de se ter uma integração,
não uma separação. Meios buscam fins
e fins dão valor aos meios. Na posso escolher um
meio em detrimento de um fim. Ficar com os pregos em detrimento
da casa é não ter nada.
Desempenho serve para se ter um resultado. Resultado sem
desempenho não existe e desempenho sem uma finalidade
não leva a nada. A escolha está em como integrá-los
não em separá-los. Mas quem vem primeiro?
O objetivo. O ser humano é um ser que age em busca
de objetivos, desde sua estrutura celular até sua
estrutura mental e moral. Tudo é em função
de algo. Não há gratuidade.
O resultado é que mede o desempenho e através
do primeiro pode-se definir melhor o segundo. Entre jogar
como se gosta ou vencer não há escolha. Joga-se
como se gosta para vencer, sempre. Até o momento
em que a vitória começa a escapar e o objetivo
não pode ser alterado. A partir daí foca-se
a vitória, mesmo que o desempenho não seja
o esperado ou o desejado. Se até os 4 a 1 está
se jogando como se gosta, ótimo. Se está 1
a 4 jogando como se gosta, é hora de mudar de estratégia
para se alcançar a vitória. O desempenho não
substitui a vitória, pois os dois conceitos não
estão no mesmo nível de comparação.
A frustração de não desempenhar como
se gosta é muito menor do que perder o objetivo proposto.
E com uma vitória pode-se ir para a outra rodada,
com o objetivo renovado, e tentar novamente vencer com o
desempenho desejado.
Aí vem outra dicotomia: só se tem alegria
jogando como se gosta, ou seja, vitória ou alegria.
Mais uma mentira. A alegria vem de alcançar um objetivo
e ter como objetivo um meio é inverter a ordem de
causa e efeito, tal como querer que o dinheiro, um efeito,
traga a felicidade, a causa.
Todo tipo de conhecimento tem dois aspectos que se integram,
o intelectual e o existencial. Saber sem prática
não é saber. Ler um livro sobre natação
e não nadar não é saber nadar. Para
que o conhecimento se solidifique e tenha o real status
de conhecimento, ele tem de ter a integração
do lado intelectual com o existencial. Neste caso, há
muitas pessoas que sem um prévio saber intelectual
fizeram fortunas em seus negócios, pois sabiam realizar,
ou seja, o lado prático que leva ao objetivo é
o mais importante, independente do lado intelectual. O saber
aprimora o que se faz, mas só é válido
para quem realmente pratica e não para o que se esquiva.
Não faça a loucura de escolher entre uma ou
outra parte do indivisível, mas gaste sua energia
no sentido de integrar da forma mais inteligente e produtiva
aquilo que só pode existir junto e garanta uma vida
trabalhosa, mas feliz.
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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho
da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos
- "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos",
em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião
de suas principais crônicas.
Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com |
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