Crítica ao mega-projeto de tênis
Por Fernando Fontoura 20/12/2006
 

Em resposta a um leitor, Fabrizio Sartori, sobre o mega-projeto da Federação Paulista de Tênis, que saiu no blog do José Dalcim, na qual ele perguntava minha opinião, transcrevo aqui ipsis literis a resposta e adiciono algo mais após.

Fabrizio!

Bons projetos nunca faltaram. Faltou foi profissionalismo na apresentação deles e na execução tal qual estava no projeto. Com isso muitas empresas já desconfiam do mercado de tênis. Não é preciso inventar a roda duas vezes. O que está proposto é realidade há muito tempo em países como a Argentina e outros. O nosso diferencial para pior é a execução e a seriedade, ou melhor, a falta dela. Como posso ter certeza de que o Jaiminho será imparcial? Ele foi imparcial quando aceitou em hora totalmente errada ser capitão da Davis. A CBT é imparcial? Na escolha de profissionais para cuidarem da qualidade do ensino do tênis no Brasil, foram escolhidos os verdadeiramente melhores e mais qualificados? Eu digo que não. Por experiência própria, estou vacinado para qualquer mega-projeto de tênis no Brasil. O que mais interessa, em termos de longo prazo, é o tênis-base, de 4 a 9 anos. Quase nada de dinheiro foi direcionado para esse segmento. É muito legal ter futures e challengers no Brasil, mas isso é cuidar de uma pequena porção do esporte, não de sua maioria, maioria que fomentará esses futures no futuro (dá até trocadilho!). Vou esperar para ver, mas de partida, não passa de mais um projeto.

A falta de seriedade se apresenta na continuidade dos projetos. Levam a cabo a primeira fase e logo que obtém um retorno a curto prazo já se dão por satisfeitos e abandonam os propósitos. Em 2000 o Banco do Brasil despejou uma quantia considerável no ‘maior projeto de tênis para crianças do Brasil, que tinha nomes como Patrícia Medrado e outros de peso. Cadê o dinheiro? Onde foi parar o projeto? Cadê os resultados? Tudo virou pó. Mais uma vez. No ano em que Gustavo Kuerten venceu a Master Cup, cogitou-se a possibilidade de trazer o mega evento para São Paulo. Eram 10 milhões de dólares na época. Ainda bem que não aconteceu. Dez milhões para um evento de uma semana. Queria apenas um décimo desse dinheiro para investir no tênis-base desse país, coisa que nenhuma federação, confederação, projeto ou seja lá o que for passa perto nem em pensamento.

Fora que esses mega-projetos não são mais do que realidades construídas aos poucos em países desenvolvidos. Nem digo desenvolvidos economicamente, mas desenvolvidos no sentido de inteligência básica, seriedade e integridade. Aqui querem fazer tudo de uma vez só. Não têm nem as paredes e querem construir castelos.

Não pense que torço para dar errado, mas cá para nós, é só preciso pensar um pouco para saber que é preciso andar antes de correr e que há necessidades e prioridades muito mais urgentes. E mesmo que se realize esse mega-projeto, ele alcança uma parte do sistema, é apenas a parte que leva em conta o profissionalismo e a competição de elite. Todos os outros aspectos desse sistema como tênis-base, tênis social, promoção do esporte através de slogans de saúde, diversão, lazer, virtudes, beleza nas academias e clubes, palestras e seminários abertos a todos, mas todos mesmo, nem sequer são cogitados por esse mega-projeto. É muito legal trabalhar na tecnologia de motores, mas um carro sem pneus não anda.
Estamos numa carência tão grande que achamos maravilhoso apenas ouvir sobre um projeto como esse e nem sequer pensamos na sua viabilidade prática e seu valor dentro de um contexto. Já damos à parte o valor do todo.

 

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com