| Tréplica |
| Por Fernando Fontoura |
16/01/2007 |
| |
O contra-ponto é algo muito interessante pois faz a pessoa pensar porque pensa de tal maneira. Quando o homem pensa porque pensa acontece duas coisas: 1) ele percebe seus limites, ou seja, seu horizonte moral e 2) enxerga mentalmente os elos de pensamentos que o levaram à tal conclusão. Na maioria do tempo agimos por automação, pensando, falando e agindo de forma a não enxergar porque pensamos, falamos ou agimos de tal maneira. Mas quando enfrentamos um debate onde há um contra-ponto temos que nos esforçar para responder várias perguntas internas que faz com que nos demos conta de porque pensamos o que pensamos. Isso fica muito evidente quando nos deparamos com uma cultura diferente. Ao percebermos que ela valoriza coisas que não valorizamos e vice-versa enriquecemos nosso conhecimento de nós mesmos e conseguimos delinear com mais clareza nossos horizontes de pensamentos. Quando percebemos nossos horizontes de pensamento podemos então converter fatos em conhecimento e assim aumentar nossa bagagem. Um professor nada mais é do que uma pessoa que destrincha os processos cotidianos em vários aspectos para poder clareá-los aos seus alunos e assim fazê-los perceber as diferentes nuances de estágios até o produto final, seja um golpe, uma lei, uma cirurgia ou um tratado. Por isso gosto de receber contra-pontos de minhas colunas. Não as escrevo para deleite próprio nem para achar adeptos à maneira de pensar, mas procuro nelas um contra-ponto inteligente que possa me instigar a perceber porque penso o que penso e assim alargar mais e mais meu próprio horizonte.
Na coluna Dicotomia Forçada houve contra-pontos interessantes, alguns um pouco rudes e alguns geraram uma certa confusão. Aí vai minha tréplica.
Quando digo que não pode haver separação entre resultado e desempenho e que deve haver, isso sim, uma integração, muitos contra-pontos já haviam escolhido entre um deles e a maioria decidiu escolher o desempenho como mais importante, já que, disseram eles, eu havia escolhido o resultado.
Eu não escolho o resultado em detrimento do desempenho, até porque, como escrevi naquela coluna, isso é impossível. Não há como escolher entre duas coisas de naturezas diferentes. Todo desempenho leva a algum resultado e não existe resultado que não venha de um desempenho. Tentar dividi-los é escolher a frustração. O que coloco ali, pode ser que não tenha sido claro, é que há hierarquia entre as coisas e é assim que pensamos todos os dias quando resolvemos fazer alguma coisa na frente de outra. E hierarquicamente o resultado é mais importante que o desempenho no sentido de que ele traduz o próprio desempenho. Ou seja, ele é o catalisador entre os dois. Desempenho por desempenho não leva a nada. Outros disseram que isso até era verdade para jogadores veteranos que pensam que não tem mais nada a melhorar, mas que se crianças ouvissem isso seria o caos tenístico, pois jogariam por resultado com bolas altas e seriam devolvedores profissionais ao invés de “jogadores de tênis de verdade”, como se só quem jogasse no ataque fosse tenista. Aí entrou a confusão entre estratégias x resultado/desempenho. Para qualquer estratégia que o tenista escolha, sendo devolver uma bola a mais na quadra (e isso é o fundamento do jogo de tênis, gostem ou não) ou atacar na primeira oportunidade, ele deve procurar o resultado. Não tem nada a ver a ligação forçada que querem colocar entre desempenho/ataque ou resultado/defesa. Novamente são coisas de natureza diferentes que têm que se integrar. Nadal é um jogador de defesa e busca o resultado. Federer é o jogador de ataque que também busca o resultado. Suas estratégias não afetam o que buscam. É exatamente para as crianças e jovens que tem que ser dirigida essa questão. Há momento e lugar para se treinar o desempenho e momento e lugar para se treinar o resultado. Para treinar golpes, use o treino com amigos ou professor. Mas na hora do jogo tem que se treinar ganhar, independente do desempenho. Vencer se treina. Ótimo se conseguir buscar a vitória com o desempenho desejado, mas se não der não se deve escolher aquilo que não leva a lugar nenhum se não estiver atrelado a algo que lhe dê valor, que é o resultado.
Nesta confusão está implícito o conceito de “talento”. O que é um talento? A maioria esmagadora acha que talento é capacidade de executar golpes. Mas isso é apenas uma habilidade. Talento, a meu ver, é um conjunto de habilidades. A habilidade de executar golpes, a habilidade de enfrentar treinos pesados, a habilidade de saber focar no mais importante, a habilidade de gostar de estar em quadra, a habilidade de saber pensar taticamente e a habilidade de jogar para vencer. A execução de golpes se mistura entre as outras habilidades e pergunte para o Larri Passos se é uma das mais importantes. Roger Federer é um ideal, uma das raras exceções. Mas mesmo assim ele já tinha antes a habilidade de executar golpes que tem hoje e o que mudou foi o desenvolvimento de suas outras habilidades, tanto mentais como físicas.
Essa coisa de desempenho é coisa de brasileiro e vem do futebol. Basta fazer um balãozinho ou um drible bonito que o jogador já é chamado de craque, como se jogar futebol fosse apenas execução de malabarismos. Está aí o Sport Club Internacional para desmentir isso. Qual foi a explicação do técnico do Barcelona para a derrota? O Inter estava com mais fome de vitória.
Resultado e desempenho andam juntos, porém a resultado é a cenoura do burro. Sem essa valorização viramos fantasmas do esporte onde há uma essência que não tem corpo.
Clique
aqui para ver outras colunas
 |
Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos
e filho
da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros
técnicos
- "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos",
em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião
de suas principais crônicas.
Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com |
|