Educação de Terceiro Mundo
Por Fernando Fontoura 23/05/2007
 

Ao ler a notícia de que o governo federal dará dinheiro para as crianças que passarem de ano, da 5ª a 8ª série, percebi que a diretriz educativa do Brasil está falida. Fora todas as formas de clientelismo, trapaças e formas de burlar a lei para ganhar o dinheiro, essa lei incentiva de forma absurda que os jovens entendam que fazer algo que é sua obrigação como pessoa, uma auto-obrigação, é motivo de recompensa.

Toda ação de responsabilidade própria é digna de elogio, mas jamais de recompensa. Se arrumar sua cama, ganha um presente, diziam alguns pais. A recompensa por atitudes que são de obrigação pessoal e intransferível será dada em forma de conceito, o qual fará gerar atitudes que farão com que a pessoa que gere a ação seja beneficiada por desenvolver um caráter forte e uma personalidade digna de ser confiada às melhores oportunidades. Ou seja, a recompensa será dada à própria pessoa quando esta tiver de lutar por uma oportunidade ou defendê-la. A recompensa por agir certo naquilo que é de responsabilidade única da pessoa é a correta estruturação de um caráter, que moldará as virtudes que se necessitam para se ter uma vida laboriosa, alegre, bem-sucedida e feliz.

Transformar atitudes comportamentais de estruturação de um caráter em forma de barganha para conseguir recompensa a curto prazo – e votos na próxima eleição - vilipendia a forma mais básica de conhecimento do ser humano e sua capacidade de aprender os verdadeiros valores da vida. É uma agressão explícita ao verdadeiro sentido da educação, do aprendizado e ao próprio ser humano, pois o transforma em joguete político com falsas prerrogativas de ‘fim social’.

Quando um atleta disputa para ganhar e é recompensado com dinheiro, ele não está trocando seu caráter por um vil metal. Ao contrário, está colocando à prova toda sua estrutura de caráter que o levou até aquele momento. Não é a toa que se discute muito a premiação para crianças e as entidades esportivas proíbem prêmios em dinheiro em tenra idade. Quando é dado um valor fora de seu contexto e muito adiantado ou atrasado em relação às fases a que pertencem, deixam de ser um valor para se tornar um estorvo comportamental.

Aquele ditado que diz que a justiça tarda, mas não falha é falso, pois se atrasou, já falhou. E não venham dizer que no caso da proposta do governo a recompensa é válida, pois se trata de pessoas carentes que vivem em outra realidade. Prover necessidades básicas a pessoas em último ou penúltimo grau de miséria é uma coisa, doar dinheiro a quem pode e deve construir fortemente seu caráter, principalmente pelo contexto em que vivem, é outra.

O que o governo está fazendo é fechando as portas a um auto-aprendizado e encurtando o caminho de pessoas que precisariam muito trilhá-lo por inteiro. Pais de crianças da classe média e alta fazem isso com seus filhos quando os enchem de presentes e brinquedos pelo simples fato deles, os filhos, existirem. É óbvio que os pais têm de prover toda estrutura possível para os filhos se desenvolverem o mais sadiamente, de corpo e mente, possível. Mas daí a ensiná-los que ações geram recompensas é outro patamar. O técnico pode dar toda estrutura para um atleta treinar e desenvolver ao máximo suas capacidades, mas jamais poderá recompensá-lo sem que ele tenha tomado as atitudes que o levaram àquela recompensa. É o mesmo que um menino de 12 anos treinar todo dia e o pai dar a ele o prêmio em dinheiro que ele ganharia, talvez, quando fosse profissional. Treinar faz parte de sua auto-ação, a recompensa seria o coroamento dessas ações. Quando um pai recompensa um filho por ele tomar ações que beneficiariam só a ele mesmo, está encurtando um caminho que o filho deveria trilhar e encurtando junto a capacidade de o menino ser gente.

Sinceramente, não consigo entender uma atitude tão grotesca em relação às crianças e à sua humanidade ser chamada de ‘benfeitoria social’. Isto é uma aberração conceitual, um atentado à educação e um incentivo à acomodação mental.

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com