Esporte inteligente
Por Fernando Fontoura 25/06/2007
 

Tecnicamente falando, o tênis é um esporte em que se aprende golpes em separado, direita, esquerda, saque, voleio. Esta fase é a da descoberta técnica. Logo depois insere-se as combinações ou seqüências, em que um golpe se associa a outro e logo em seguida a mais outro. Já não basta bater uma direita, mas agora é necessário bater uma direita, uma esquerda, uma direita curta e um voleio. É a fase da descoberta tática. A partir daí, o jogador está pronto para passar problemas para o adversário resolver e ele mesmo terá capacidade de resolver problemas que virão.

Aliás, tênis é um jogo de resolução de problemas. A altura da bola, a distância dela em relação ao corpo, a velocidade da bola, o efeito, ataque, defesa. Tudo em questão de segundos. Neste momento da explicação, parei como se estivesse ouvindo um som estranho, fora do contexto. Era minha mente se perguntando: “Peraí, mas você está falando do tênis ou da vida”?

Para solucionar problemas na quadra ou na vida são necessários alguns pré-requisitos mentais básicos como concentração, memorização, atenção, percepção. Para ativá-los são necessárias atividades que estimulem a resolução de problemas desde o aquecimento, ou seja, jogos, atividades ou brincadeiras que levem a pessoa a pensar.

Assim como futebol não é chute a gol, mas uma combinação de passes que levam até a meta, tênis também não é bater na bola, mas uma combinação de golpes que levam a um ponto e assim por diante.

Se desenvolver a inteligência é a natureza do esporte (de qualquer esporte), tenho por obrigação repensar o Grand Slam de Wimbledon no sentido de cumprir com esse desenvolvimento. Para mim é o Grand Slam mais burro. Nele acontece exatamente o contrário do desenvolvimento da natureza do esporte. É onde um golpe resolve tudo, ou seja, não é necessário pensar, apenas executar. É como se no futebol um time conseguisse ganhar apenas chutando a bola no gol na saída do meio campo e abdicasse dos passes para se chegar até a meta.

Do lado contrário do Grand Slam inglês está o Grand Slam francês, onde quem tem apenas um golpe não resolve nada, onde é necessário uma combinação de golpes, táticas, preparação física e mental.

Lembro de um simpósio de tênis que participei nos Estados Unidos onde o palestrante havia ganhado dois títulos de duplas mistas em Wimbledon (perdoe-me, mas não lembro o nome dele) e um dos participantes perguntou quais eram os tipos de treinos que se fazia para jogar no Grand Slam inglês. Nenhum, respondeu o palestrante. Em Wimbledon se treina apenas saque e voleio, aliás, continuou ele, nem é bom treinar muito na grama, pois pode acabar atrofiando o jogador.

Como todo esporte de alto nível, em Wimbledon há desafios e momentos a vencer, e ser o Grand Slam mais burro não desmerece as vitórias de todos que já o venceram, em especial nossa Maria Esther Bueno. Mas é como uma criança que está aprendendo a colocar o cubo na casinha quadrada e a bolinha na casinha redonda. É um desafio de um nível bem inferior. Roger Federer não é um jogador médio por vencer quatro vezes o torneio, mas precisa usar de muito menos ferramentas e habilidades do que Rafael Nadal teve que usar para vencer Roland Garros. Aliás, isso só valoriza ainda mais as vitórias de Gustavo Kuerten no saibro francês.

Como desportista e educador, penso que cada ferramenta deve ser usada plenamente para seu devido fim e que usar uma faca para apertar um parafuso e um alicate para pregar é tão incoerente quanto usar um canivete suíço apenas para abrir embalagem de CD. Se tamanha dificuldade exigida na grama envolve menos técnica e estratégia, na mesma proporção desenvolve menos habilidades mentais e de inteligência.
Seguindo esta linha de pensamento é que chego à conclusão de que Andre Agassi foi muito mais jogador que Pete Sampras, pois era muito melhor em resolver problemas em todas as superfícies, inclusive a mais difícil delas, o saibro.

É bom ter em mente a natureza do esporte quando se apresenta o mesmo, qualquer que seja, às crianças. Prepará-las para golpes, chutes, socos e saltos é dar-lhes migalhas perto de toda a grande colheita que o esporte pode lhes proporcionar.

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com