Esporte inteligente II - Mais alguns tópicos
Por Fernando Fontoura 10/07/2007
 

Das inúmeras respostas que recebi sobre meu último artigo, Esporte Inteligente, a grande maioria respondeu coisas das quais não falei. Alguns tentaram ser proféticos e “psicologizaram” sobre minha pessoa e minhas ‘verdadeiras' intenções. Como ‘verdadeiras' pensam que é mais factual o que um homem pensa que o outro pensa ao invés do que efetivamente o outro disse, ou no meu caso, escrevi. Neste ínterim acometem-se do mesmo erro daquele político que responde exatamente o contrário do que foi perguntado pensando que assim estão divagando sobre a mesma realidade, mesmo sendo protagonista de seu próprio autismo.

Em resposta àqueles que sabem discordar de idéias sem entrar no na questão emocional da “pessoalização”, respondo e tento me fazer sucintamente mais claro.

Em nenhum momento do artigo escrevi sobre velocidade, emoção, coragem e outros atributos. Porém, estes não são necessariamente partes indivisíveis da inteligência e habilidade. É necessário coragem para saltar de pára-quedas e a mesma coragem para escalar uma montanha, porém há muito mais técnica e uso de 'fosfato' para a última opção. Também não quer dizer que quem salta de pára-quedas é mais burro, porém não usa de todas suas potencialidades cognitivas e técnicas para isso. Apenas esta é minha opinião.

Exatamente por isso é que Roddick só ganha na grama há anos e quando tem de pensar, usar estratégias, correr em devoluções de seu saque no saibro, ele perde na primeira rodada, como aconteceu agora em Roland Garros. Não estou falando tecnicamente. Coria e Gaudio não são tecnicamente os melhores, assim como Nadal não o é, mas têm grande capacidade de análise tática e isto o jogo mais lento, onde a bola sempre volta, propicia. O jogo de quadras rápidas desenvolve outras habilidades, mas não desenvolve o jogador por inteiro, pois neste tipo de piso poucos golpes resolvem um problema sem usar muita tática. Pedagogicamente ,somente a partir da 3ª bola, é que se forma uma noção tática ampla. Antes disso é automatismo, não 'pensar e agir'. E qual tipo de estratégia mais ampla pode-se ter em uma quadra onde a duração média dos pontos é de 2,5 segundos?

Apenas acho que jogar em quadras tão rápidas não desenvolve a parte mental do jogo no que diz respeito à parte tática e de resolver problemas. Quanto mais a bola estiver em jogo, mais capacidades o jogador terá de desenvolver. Isso não desmerece todas as vitórias de Sampras e Federer, somente nos diz que estes não usam de todas suas habilidades para vencer em piso tão rápido. O jogo, não o jogador, é que limita os usos e desenvolvimentos destas competências.

A vida é uma eterna resolução de problemas. E cada problema a ser resolvido encerra em si as competências e habilidades para se resolver outros. Alguns em maior, outros em menor escala. Resolver testes de geografia para passar de ano desenvolve as mesmas habilidades que um empresário usa para estabilizar e fazer crescer sua empresa. Agora pedir para um empresário, no alto de seu contexto, que se desenvolva amplamente resolvendo problemas de geografia é tão incoerente quanto dizer que Wimbledon desenvolve o melhor que um jogador pode ter.

Esta comparação pode ser feita com outros esportes. Por exemplo, pádel desenvolve menos habilidades do que o tênis. Tênis é um jogo mais completo tecnicamente e estrategicamente falando. Não que o jogador de pádel não se desenvolva. O jogo, suas características que propiciam o desenvolvimento, e não o jogador, é que está no foco da discussão.

FALTA DE ATITUDE DOS PROFISSIONAIS

Em um papo informal com um jogador de clube, ele me disse que viu uma reportagem sobre a preguiça do jogador profissional do tênis no Brasil. Referindo-se também ao que o Larri Passos batizou de MIC (mulher, internet e celular). Falou-se muito do jogador em si e de sua falta de postura ante a exigência de um esporte profissional.

Porém, sou de opinião que os jogadores são apenas um reflexo, não a causa em si. As confederações e federações que não fomentam estruturas para o público. que aumentou desde a Era Guga. Mais jogadores para o mesmo número de quadras. Treinadores que preferem trabalhar com talentosos desaforados a esculpir jogadores que tenham atitude maior do que habilidades manuais. Os cursos de tênis que ensinam professores a passarem conteúdo sem se preocupar com a individualidade de cada aluno. Professores que não se atualizam e pensam que seu passado de glórias e títulos é tudo o que é necessário para ter alunos. Alunos que não exigem nada mais do que algumas dicas impessoais e se contentam com pouca qualidade de retorno do que lhes é passado. Os jogadores que não têm atitude estão apenas refletindo o que lhes foi passado, explicitamente ou não, pela estrutura que lhe fomenta.

Como na seleção brasileira de futebol na Copa de 2006, o que falta é atitude. A atitude de chamar o jogo para si, assim como Robinho está fazendo na falta clara de uma equipe mais qualificada nesta Copa América. Isso é o que mais saudoso ao ver Guga, Senna e Pelé atuarem. Suas atitudes antes de seus talentos.

SORRY!

Um leitor, Vladir, me perguntou se não é hipocrisia quando em uma jogada a bola bate na rede e cai para o outro lado e o jogador pede desculpas, já que ele realmente queria ganhar o ponto.

O cavalheirismo no tênis é como jogar sinuca cantada. Quando o jogador de sinuca vai tacar, ele diz como e onde vai tentar acertar a bola. Se a bola entrar em outro lugar ou de forma diferente da que ele falou, não vale o ponto. No tênis vale, mas como as jogadas são muito treinadas, quando se acerta de forma diferente da verdadeira intenção, por questão de cavalheirismo, pede-se desculpas, como que dizendo ‘não era desta forma'. Não é a desculpa por ganhar o ponto, mas ganhar de forma não intencional. Não, a moralidade não está sendo vilipendiada por esse ato, até porque moralidade não tem nada a ver com cumprir regras, mas isto é conteúdo para outro artigo.

 

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Fernando Fontoura, 37 anos, coordenador geral da Fundação Tênis de Porto Alegre (www.fundacaotenis.org), professor de tênis, escritor (Configure Seu Jogo - O tênis além do Instinto - Libretos, 1998; Tênis Para Todos - ULBRA, 2003)

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com