Dar lugar a quem faz ou sair da frente
Por Fernando Fontoura 27/08/2007
 

A filosofia chama de realidade aquilo que comporta a ação humana, ou seja, onde é possível ter ações em cima de causas que afetam o resultado e confirmam ou transformam essa realidade. Neste sentido, a realidade de cada um é determinada pela abrangência de suas ações diretas e os resultados que elas provocam. Ações em qualquer outro ‘tipo’ de realidade, como se isso fosse possível, são ações hiperbólicas, que fazem algum barulho, mas efetivamente não alteram nada, até porque não há nada para alterar.

A natureza do movimento, ou seja, o que faz alguém tomar alguma ação está intrinsecamente ligada a alguns fatores: 1) vontade; 2) necessidade; 3) urgência; 4) importância.

Deveríamos ser pessoas que agem por vontade, mas nem tudo o que temos vontade de fazer conseguimos realizar. A necessidade fala mais alto muitas vezes. Mas antes de necessidade está a noção de livre arbítrio, pois ainda assim pode-se decidir não agir, como fumantes e drogados em geral que estão na berlinda entre a vida e a morte e mesmo assim não conseguem escolher pela necessidade de viver (até porque viver é uma escolha). Quase todos conseguimos agir em função da urgência. Brasileiro deixa para o último dia, mas acaba declarando o imposto de renda; é preciso muito método e organização para saber agir em cima do que é importante. Normalmente, as pessoas deixam as coisas importantes se tornarem urgentes para agir. Em todas elas está intrínseco o conceito de prioridade, que na verdade, define a maioria das ações humanas.

Se a Confederação Brasileira de Tênis, órgão máximo do esporte neste país, não age nas bases estruturais, quais seriam as bases de ação que ela tem? Pelo visto, não tem vontade, necessidade, urgência ou importância e o tênis como fomento de cultura, lazer, competição, saúde e integração não é prioridade para este órgão.

As ações que ela tem tomado são como aquele homem que decide decorar a casa por dentro enquanto ela se desmancha nas estruturas. A cada dia pára um caminhão de loja com novos móveis para dentro de casa, mas por fora ela está rachando as paredes. Essa rachadura já aparece antes dessa comissão tomar posse e não agir para saná-las faz pensar que o tênis em si não é prioridade para eles. Pois se fosse, ações em cima de causas para corrigir problemas estruturais teriam sido tomadas. Qualquer outra agenda positiva é mero lero-lero politiqueiro.
É só olhar o noticiário especializado do tênis no Brasil e conversar com quem o vive no dia-a-dia que dá para ver que todas as áreas do esporte estão insatisfeitas. Desde o tênis de competição ao tênis de lazer, desde os oito aos 80 anos.

Penso que quando uma entidade, por ‘n’ motivos não consegue agir de forma abrangente e eficaz, pode e deve fazer parcerias com entidades menores, mais ágeis e interessadas em seus núcleos de atuação. Subir o vale do ‘só eu posso fazer’ e não fazer nada é o mesmo que dizer: ‘Se não faço, ninguém faz’. Onde está o interesse pelo esporte em um pensamento desse tipo? Uma comissão que entrou no poder do esporte com o intuito de não ser igual à gestão que estava antes, é querer fazer da ação na realidade uma negação: não-serei igual ao outro, não-farei igual a antes, não-haverá erros como aqueles. Até parece que já ouvi isso antes (‘Nunca na história desse país...’)! A realidade não é a negação de outra. É algo positivo, algo que anda para frente e que encerra um resultado de uma ação positiva. O resto é enrolação.

Há tempos que digo e defendo que as melhores coisas realizadas pelo tênis no Brasil vieram de pessoas sem cartolagem, sem amigos políticos influentes e sem favores em cima de favores. Vieram do público que usufrui do esporte no dia-a-dia. Jogadores amadores que fazem sites aprofundados e organizados, publicam trabalhos de especialização e livros, fazem torneios menores e trabalhos sociais que efetivamente oportunizam resultados.

Ou a CBT e federações se abrem a quem realmente produz ou, no mínimo, sai da frente.

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Fernando Fontoura, ex-professor de tênis por dez anos e filho da tenista Henny Fontoura, já publicou dois livros técnicos - "Configure seu Jogo", em 1998, e "Tênis Para Todos", em 2003. Atualmente escreve "Filosofia das Quadras", uma reunião de suas principais crônicas.

Fale com o Fernando: fcdafontoura@hotmail.com