Os prós e contras da relação
técnico-jogador
Por Marcelo Meyer
A
recente separação entre Fernando Meligeni e
Ricardo Acioly tem provocado muitas perguntas sobre o relacionamento
entre jogadores e técnicos no exigente circuito profissional.
Como vivi na pele essa situação por muitos anos
e ainda por cima convivi diretamente com Meligeni, acho importante
contribuir para os futuros profissionais desta geração
pós-Guga.
Quando deixei de trabalhar com Meligeni, em janeiro de 95,
ele vivia uma fase de ascenção. Percebi que,
naquele estágio, precisava de um técnico em
tempo integral, que não tivesse compromissos pessoais,
mas possuisse experiência de circuito, de treinamento,
que pudesse gastar 11 ou 12 meses ao ano com o Fernando. Eu
gostaria de dar meu aval, mas sempre deixei claro que a decisão
final seria do próprio Meligeni.
Vejam o exemplo do Guga. Muitos diziam que Larri Passos era
limitado diante do potencial de Kuerten. Mas eu sempre afirmei
que o ponto mais positivo era justamente esse: os dois sempre
tiveram afinidade emocional, pessoal, total compatibilidade
de personalidade e gênio. Isso é mais importante
do que ensinar um saque.
Depois de 30 ou 40 dias, Ricardo Acioly foi escolhido para
continuar o trabalho com Meligeni e dei total aval. Permaneci
à frente dos negócios por mais seis meses, até
ter certeza de que o trabalho deles havia engrenado e os dois
chegarem à certeza de que poderia cuidar de calendário,
treinos, contratos. Por fim, por volta de julho ou agosto
daquele ano, abandonei o projeto.
A verdade é que, apesar de Fernando ter algumas qualidades
técnicas limitadas, ele sempre foi dono de aspectos
muito importantes para um tenista profissional: coração
e estado emocional equilibrado. Por isso, nunca tive dúvidas
de que ele poderia estar entre os top 15 e isso, aliás,
era o nosso objetivo. Quando começamos a trabalhar,
Fernando tinha 19 para 20 anos e, segundo exames científicos
coordenados por Ricardo D'Elia, ficou provado que poucos maratonistas
no Brasil tinham a capacidade física de Fininho. Sua
capacidade mental eu conhecia desde os 11 anos. Afinal, ele
e Marcelo Saliola (outro garoto em quem investi por muito
tempo) tinham a mesma idade e eu via como aquele tenista magérrimo,
sem grande força nos golpes, incomodava qualquer adversário.
Desde aquele tempo, Meligeni tinham também um incrível
trabalho de pés, que só mesmo se poderia se
comparar a Michael Chang.
Acioly fez um grande trabalho, que culminou com as semifinais
de Roland Garros em 99, um resultado surpreendente até
para eles. Lembro de que, quando jogamos pela primeira vez
o Aberto francês, Fernando tinha 21 anos e quase não
entrou sequer no quali. Mas ganhou as três rodadas de
qualificação e só parou na terceira rodada
da chave principal diante do eventual bicampeão, Sergi
Bruguera, ainda assim porque se assustou diante da quadra
central. Isso reforçou apenas minha certeza de que
ele tinha tênis para muito mais.
Na verdade, Meligeni teve dois grandes momentos na carreira.
As semifinais olímpicas de Atlanta, ainda que o torneio
estivesse sem grandes nomes, e essas semis de Roland Garros.
Mas este resultado acabou tendo um efeito contrário.
O sucesso, ao invés de motivá-lo a atingir o
objetivo, causou pressão. Fernando se preocupou demais
em defender aquela condição de top 30 e dali
para frente não teve mais resultados expressivos.
Na minha opinião, a quantidade de lesões que
teve realmente prejudicaram seu planejamento, mas está
provado que o jogador que atua sob pressão, com musculatura
enrijecida, tem probabilidade muito maior de se contundir.
Para completar o quadro, Meligeni talvez tenha gasto tempo
demais em atividades extra-quadra, exagerando no cumprimento
de exigências contratuais e convites.
A separação entre Meligeni e Acioly já
poderia ter acontecido há mais tempo, não em
função de incapacidade, mas pelo desgaste natural
que o circuito profissional proporciona. Tecnicamente e taticamente,
Meligeni sabe tanto ou mais do que qualquer técnico.
O que ele precisa é de nova motivação.
Completou 30 anos em abril, mas seu biotipo - ao contrário
de 85% dos jogadores atuais - permitirá que Meligeni
jogue até os 34 ou 35 anos, porque é leve, flexível.
Acredito que ele possa voltar a figurar entre os 40 do ranking
mais rápido do que todo mundo imagina. Só depende
dele, da motivação que encontrar.
É possível um jogador de alto rendimento permanecer
no circuito sem um técnico fixo? Claro que sim. O primeiro
tenista a ter um treinador permanente foi o argentino Guillermo
Vilas, nos anos 70, que efetivou o romeno Ion Tiriac. Mas,
como dizia John McEnroe, técnico é babá
de barbado. Para quem começa, ter um treinador fixo
ajuda, porque o tenista poderá dividir com ele a pressão.
Terá alguém para avaliar seu comportamento após
o jogo e também para ser seu babá, ou seja,
marcar passagem, reservar hotel, aquela logística toda
que faz parte do dia-a-dia do tênis profissional.
No entanto, grande parte dos jogadores, após seis ou
sete anos de estrada, já sabe tudo, conhece até
o porteiro do clube. Assim, penso que o ideal é trocar
o técnico por uma companheira, seja esposa ou namorada.
Ela ajuda na parte emocional, desvia o jogador daquela fixação
pelo tênis, alivia a pressão. Quando se é
solteiro, tem-se a necessidade de festas, de procurar companhia.
Patrick Rafter, desde os 22 anos, prefere estar sem um treinador
específico.
Para minha personalidade, seria impossível passar 10
meses ao ano dividindo o quarto com um jogador de tênis.
Este é um trabalho de altíssimo risco, onde
muitas vezes não se ganha nada por anos a fio. O sacrifício
é enorme e o impacto negativo junto à família
é um fato real. Aliás, aproveito para fazer
uma crítica construtiva aos técnicos brasileiros
que estão começando sua carreira. Muitas vezes,
estes profissionais não estão investindo como
deveriam, coisas que gente como Larri Passos, Eduardo Eche
e eu fizemos por tantos anos. Quanto tempo ficamos acompanhando
o Noturno do Tietê, a Copa Cascavel, pagando do bolso?
Era um investimento nos meninos em que acreditávamos,
onde tínhamos chance de reciclar nossos conhecimentos
e até mesmo de nos promover.
Raros são os técnicos que pensam hoje a médio
e longo prazos. É preciso dar uma ajuda ao tênis
brasiliro, os infanto-juvenis precisam disso. Se não
for recompensado financeiramente, ao menos esse profissional
terá tido uma experiência de vida e atravessado
um estágio decisivo em sua carreira. Esta crítica
serve também para um outro grupo de treinadores, que
nunca investe graciosamente seu tempo no desenvolvimento de
jogadores e só fica à espera da oportunidade
de agarrar um nome pronto para ingressar no profissionalismo,
onde a remuneração estará garantida.
É preciso subir degraus e isso acontece em qualquer
ramo da atividade humana. Qual o alto executivo de uma empresa
que não tenha tido seu período de estagiário
ou ajudante? Essa mentalidade imediatista e egoísta
precisa mudar. Para o bem do tênis.
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Marcelo Meyer é
um dos mais importantes técnicos do país,
tanto na formação de jogadores como no
plano profissional. Treinou, entre outros, Marcelo Saliola,
Fernando Meligeni, Andrea Vieira. Sua academia, na região
de Cotia, é uma das mais completas do país.
Email: meyer@meyertennis.com.br
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