Não adianta apenas sonhar com um novo Guga
Por Marcelo Meyer

Jaime Oncins na Copa DavisEstou preocupado com a euforia que invade o tênis brasileiro atualmente. O que acontecerá daqui a seis anos, quando o Guga deixar o circuito?

Façamos um paralelo com o futebol. Durante muito tempo, o Brasil teve uma das melhores seleções do mundo. E aí, na última Copa do Mundo, fomos vice na França. Um grande feito, mas que virou luto nacional. Porque nos acostumamos ao sucesso. É o caso de Rubens Barrichello. Num esporte onde Émerson Fittipaldi, Nélson Piquet e Ayrton Senna chegaram ao título mundial, o fato de termos um dos quatro melhores pilotos da Fórmula 1 de hoje não satisfaz. O público e a imprensa criticam, cobram, ironizam.

Por conta desses rápidos exemplos, fica fácil entender o medo que cerca o fenômeno Guga. Depois de tantos resultados excepcionais – e outros que provavelmente ainda virão – ele irá provocar um nível de exigência e expectativa enorme. Quando o tênis brasileiro poderá ter outro número 1 do mundo? Pode demorar um ou mil anos!

O caso da Suécia ilustra brilhantemente o caso. Bjorn Borg, Mats Wilander e Stefan Edberg levaram o tênis local a um estágio espetacular, de grandes conquistas individuais e coletivas. O que acontece hoje? Eles tem o ótimo Magnus Norman e também Thomas Enqvist. Mas e daí? Num recente encontro que tive com o diretor de esportes da TV estatal, ele me garantiu que o sueco hoje simplesmente não liga para o tênis.

No caso do Brasil, é mais do que evidente que não se pode esperar que entidades oficiais se preocupem em ajudar o tênis, um esporte individual. O país tem prioridades básicas – saúde, alimentação, escola – e seria utópico pensar exclusivamente no esporte, ainda mais no tênis. O fato é que a responsabilidade pelo desenvolvimento é nossa, professores, empresários, jornalistas.

É inacreditável como as empresas que vivem diretamente do esporte têm uma visão tão ruim de seu próprio negócio. Não enxergam que é preciso formar jogadores, que é o seu produto. As marcas esportivas não fazem nada pelo tênis. Empresas e marcas que não são patrocinadoras tiveram um retorno muito maior com o efeito Guga do que aqueles que vivem do marketing esportivo.

Felizmente – ou infelizmente? – o jogador de tênis não necessita de qualquer entidade para se desenvolver, ao contrário das modalidades coletivas, onde o atleta pode jamais ter uma chance se o treinador não gostar dele. No tênis, dá para qualquer um buscar seu futuro sem auxílio e nesse campo estamos cheio de exemplos, como Guga, Meligeni, Oncins, Luiz Mattar e Thomaz Koch. São heróis que nunca tiveram respaldo, mas nem por isso deixaram de se desenvolver.

O ponto básico é esse: o professor de tênis vive hoje uma situação perigosamente confortável no mercado de trabalho. Em meus 26 anos como dono de academia, costumei a receber quatro ou cinco currículos todo mês. Desde do aparecimento de Guga, há 18 meses nenhum treinador me pede emprego. As pessoas, no entanto, não devem acreditar que esta situação será para sempre. O que devemos fazer é tirar proveito dela para que perdure e se estabilize.

Qual a fórmula? Manter esse mercado aquecido, promover e criar situações para que todos praticantes, tanto os novos como os antigos, tenham no tênis uma forma de entretenimento, saúde, lazer e fortalecimento das atividades sociais.

Não adianta ficarmos apenas sonhando com um novo Guga. Claro que esse objetivo é importante, mas não é o único. O grau de risco é incomensurável. Eu próprio cometi esse erro. Durante boa parte de meus anos como treinador, coloquei toda a energia em dois ou três jogadores, deixando de lado uma quantidade enorme de pessoas. Sinto que poderia ter feito mais por eles.

Se mantivermos esses entusiasmados tenistas que estão hoje na quadra por um longo período de suas vidas – afinal, o tênis vai dos 8 aos 80 anos – a chance de os filhos dessas pessoas permanecerem no esporte será muito grande. E obviamente quanto maior for o mercado, maior será a probabilidade de uma nova estrela surgir com naturalidade.


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Marcelo Meyer é um dos mais importantes técnicos do país, tanto na formação de jogadores como no plano profissional. Treinou, entre outros, Marcelo Saliola, Fernando Meligeni, Andrea Vieira. Sua academia, na região de Cotia, é uma das mais completas do país.


Email: meyer@meyertennis.com.br