O risco que corre o tênis brasileiro
Por Marcelo Meyer
O
tênis brasileiro e aí eu quero incluir
todos os segmentos, principalmente promotores e dirigentes
precisa ficar alerta. Afinal, o atual sistema utilizado
para o tenista infanto-juvenil não passa de um caça-níquel.
E ao invés de ajudar no trabalho de desenvolvimento
e formação de jogadores, está tirando
jovens do mercado.
Os torneios infanto-juvenis, num país geograficamente
enorme, devem ser trabalhados com carinho e profissionalismo.
Realizar um evento em quadra aberta no período de chuvas
e todo mundo sabe quando chove em determinadas cidades
é pedir para não ajudar o tênis.
Como realizar um torneio para 500 participantes em quatro
dias? Está na hora de limitar esse gigantismo sem propósito,
que tem tudo para se transformar numa catástrofe.
Não é segredo para ninguém o quanto
custa para os pais enviarem seus filhos a tantos torneios
que existem no calendário. A passagem aérea
não pára de subir, hotel, traslados, acompanhamento
de um técnico ou familiar, enfim tudo é gasto.
Sem falar que os garotos deixam de ir à escola, já
que os torneios são espalhados pelo calendário
escolar sem qualquer critério. No final das contas,
acaba-se criando pessoas culturamente alienadas, tudo pela
possibilidade (abstrata) de sucesso como tenista.
Do ponto de vista mercadológico, quem vive do tênis
e tem interesse de que mais jovens participem do esporte,
acabam a médio prazo tendo enorme prejuízo,
já que as más experiências fazem com que
muitos desistam de continuar nas quadras.
Para ilustrar isso, existem lamentáveis exemplos no
tênis norte-americano, a maior potência do planeta
tanto no aspecto esportivo como econômico. No final
do ano passado, o mais tradicional e importante evento entre
países do calendário juvenil foi simplesmente
cancelado por falta de patrocinadores. A Sunshine Cup e a
Continental Cup são considerados a versão juvenil
da Copa Davis e da Fed Cup. Aliás, Guga Kuerten e Márcio
Carlsson deram o inédito título ao Brasil em
94. Esses eventos eram preliminares do Orange Bowl e, com
o cancelamento, houve uma dramática ausência
de bons jogadores, a ponto de o Orange reunir apenas 5 dos
top 20 do ranking mundial, tanto no masculino como no feminino.
O Orange Bowl tem mais de 40 anos de tradição
e viu estrelas como Borg, Chris Evert, Lendl, McEnroe, Courier,
Sabatini e tantos outros. Já há dois anos corre
risco de não ser realizado e agora está definitivamente
ameaçado. E por quê? Porque ele se realiza no
final do ano, perto das festas, quando os juvenis estão
cansados ou em provas escolares ou ainda desmotivados por
estar de olho no tênis profissional. Curiosamente, há
12 anos, quando estive no Orange com o Marcelo Saliola e a
Andrea Vieira, comentei com os diretores da Associação
Norte-americana que estava ficando difícil para os
brasileiros estar no torneio por causa da data. E vejam o
que aconteceu em 2002: não tivemos nenhum representante
na chave de 18 anos.
Portanto, a má escolha de uma data provoca o esvaziamento
de estrelas e isso influi diretamente na presença dos
patrocinadores e, em última análise, na sobrevivência
do próprio torneio.
O calendário nacional mostra também um desrespeito
total ao estudo. Onde está a competência de quem
oficializa os torneios nacionais em relação
ao calendário escolar? E do custo que o tênis
significa para cada família? Realizar eventos com set
profissional nas rodadas decisivas ou em sedes com número
de quadras insuficientes afugenta tenistas e patrocinadores.
É muito ruim ser obrigado a disputar as rodadas finais
de um torneio em locais alternativos, onde não está
presente a faixa do patrocinador ou, pior ainda, onde existe
uma empresa concorrente ao próprio patrocinador. A
consequência é colocar em risco até mesmo
os campeonatos de grande tradição.
Isso explica por que o único torneio de tradição
no atual calendário juvenil, associado a uma grande
empresa patrocinadora, seja a Copa Gerdau. Os outros já
se foram.
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Marcelo Meyer é
um dos mais importantes técnicos do país,
tanto na formação de jogadores como no
plano profissional. Treinou, entre outros, Marcelo Saliola,
Fernando Meligeni, Andrea Vieira. Sua academia, na região
de Cotia, é uma das mais completas do país.
Email: meyer@meyertennis.com.br
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