O que a Argentina tem que nós não temos?
Por Sabrina Giusto
Acredito
que todas as pessoas que são envolvidas
com tênis ou que passaram a acompanhar este
esporte desde que Guga apareceu para o Brasil,
com sua primeira conquista de Roland Garros em
1997, estão vendo a crescente participação
e domínio de tenistas argentinos entre
os melhores do mundo.
Não só no masculino como também
no feminino, nossos vizinhos sempre apresentam
algum representante em semis ou finais de grandes
torneio. Será por quê? Tentarei aqui
relacionar alguns ítens que observei nestes
18 anos de viagens, competições
e convivência com jogadores e técnicos
argentinos mundo afora.
Vale a pena
começar pela cultura dos argentinos, povo
de origem predominantemente européia, acostumado
a climas mais frios, sem grandes praias, lutadores
e onde desde cedo os pais ensinam aos filhos o
valor das coisas.
Em geral, os argentinos não têm muito
problema em passar meses no exterior atrás
de pontos em torneios satélites ou futures.
Apresentam uma capacidade enorme de se adaptar
à nossa popular "saudade" de
casa. Jogam torneios de dinheiro na França,
interclubes na Alemanha e tudo mais que possibilite
a estadia deles no velho continente, onde estão
os torneios.
Tiveram um
grande ídolo no esporte, surgido nos anos
70, que foi Guillermo Vilas, precursor de toda
esta leva de tenistas que estão aí
hoje. Com Vilas no topo do tênis mundial,
quadras de tênis brotaram por todos os cantos
do país. Quem conhece Buenos Aires, sabe
que a cada quilômetro que se ande, por alguma
quadra de tênis se passa.
Veio
Jose-Luis Clerc, outro gênio, e aproveitando
o impulso do tênis naqueles anos, a Associação
Argentina começou a colocar a pouca ajuda
financeira que recebia da marca esportiva Topper
nos seus atletas infanto-juvenis e com este apoio
surgiu muita gente conhecida. Surgiu Gabriela
Sabatini, tão famosa quanto Vilas, e junto
uma geração de tenistas que logo
entraram para os melhores do ranking ATP e WTA,
que foram: Martin Jaite, Alberto Mancini, Javier
Frana, Pablo Albano, Guillermo Perez-Roldan, Franco
Davin, Betina Fulco, Mercedez Paz, Patrícia
Tarabini. A geração seguinte de
mulheres com Florência Labat, Maria José
Gaidano, Inês Gorrochateguy , até
a geração atual de Paola Suarez
(número 1 em duplas e semifinalista de
Roland Garros 2004), Gisela Dulko e Clarissa Fernandez
(ambas entre as 100). E no masculino então?
Coria, Gaudio, Nabaldian, Cañas, Zabaleta,
entre outros.
O trabalho
da Associação Argentina é
primoroso e contínuo, pois foi com a ajuda
na fase infanto-juvenil que os tenistas atuais
chegaram onde estão. Coria e Nalbandian
protagonizaram a final de Roland Garros, chave
juvenil, quando tinham 17 anos, com a vitória
de Coria. Antes disso, passaram três meses
no Circuito Cosat (América do Sul), buscando
pontos e experiência na carreira com financiamento
total da Associação.
Neste último Circuito Cosat, tivemos novamente
a supremacia argentina nos 16 e 18 anos. No masculino,
categoria 18 anos, Eduardo Schawnk ganhou as seis
etapas que disputou. O apoio à carreira
deste jogador começou lá nos 14
anos. Prestem atenção a estes nomes:
Juan Martin Del Potro, Betina Jozami, Florência
Molinero, Emiliano Massa e Agustina Lepore. Todos
estão completando 16 anos em 2004. Os três
primeiros fizeram o Cosat na categoria 18 anos
e, em pelos menos uma etapa, foram campeões.
Massa e Lepore dominaram a categoria 16 anos.
O esquema argentino é simples: cada jogador
tem seu próprio técnico e, duas
semanas antes das grandes competições,
todos se reúnem (jogadores e técnicos)
em Buenos Aires e treinam juntos.
O calendário
de torneios é o mesmo para todos e para
as viagens é designado um técnico
e um preparador físico neutro, bancado
pela Associação, que cuidarão
destes jogadores em tempo integral, organizando
treinos, descansos, apoio psicológico e
tudo mais que eles precisam para renderem o máximo
na quadra.
Os argentinos provaram que não é
necessário muito dinheiro para um trabalho
ter continuidade, com organização
e bom senso, a renovação será
constante.
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Sabrina Giusto, ex-jogadora profissional
e uma das coordenadoras da equipe SMS/Sogipa, colabora
com a Cosat e CBT em viagens com equipes infanto-juvenis
e profissionais
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