Armadilha para um pai de tenista
Por Sabrina Giusto

Estava relendo algumas revistas "Tennis" (inglês) e me deparei com esta história contada diretamente por um pai de tenista, que além de ter sido jogador universitário de tênis nos EUA, se graduou em Psicologia com especialização em Psicologia do Esporte. Literalmente, este homem pensava que nunca se tornaria um pai pressionador até seu próprio filho escolher jogar tênis. Achei muito interessante e resolvi que valia a pena a tradução e passar para todos que convivem com o nosso esporte.

"Era um típico dia de sol em Santa Bárbara, Califórnia. Céu azul, uma leve brisa. De fato, não havia nada aparentemente que me incomodasse, mas o meu desconforto (suspiros, inquietação, murmúrios) enquanto eu olhava meu filho de 14 anos jogando sua partida final do Masters da Costa Leste, era muito mais do que visível.

Era somente um evento de consolação, mas para mim, eu sentia como se fosse a final do US Open. Minha esposa, sentada a meu lado, tentava me acalmar: "Honney, we must be an example for the others parents"! Não adiantou, estourei quando meu filho perdeu mais um ponto por um lob do adversário." Meu Deus! É a 3ª vez nos últimos 3 games! Será que ele não percebeu que tem que jogar na esquerda do garoto?" Minha esposa mandou eu ficar quieto pois nosso filho poderia escutar. Prometi tentar ficar quieto, mas quando eu vi, estava fazendo sinais para que meu filho colocasse a bola no revés do adversário.

Eu, que passei anos dizendo a pais como não devem se comportar, estava fazendo exatamente o que pedia a eles para que não fizessem. É muito diferente quando suas próprias emoções estão em jogo e isto foi uma das coisas que aprendi naquela tarde. Nunca pressionei ou quis que meu filho fosse um tenista de alto nível, sempre achei que ser um artista seria muito mais simples. Ele praticava vários esportes e só se interessou diretamente pelo tênis dois anos atrás, aos 12. Isto me deixou feliz, pois sabia das importantes lições que ele tiraria da vida de tenista como: o valor dos objetivos alcançados, trabalhar duro, importância do auto-controle, etc.

Eu poderia ter conversado com ele sobre estes itens milhares de vezes, mas com a experiência que ele teria, vivenciando situações duras dentro do tênis, seria muito mais efetivo que o som da minha voz. Logo meu filho ultrapassou limites que eu não imaginava que ele pudesse. Devido a seu imenso esforço em sessões diárias de treino em quadra e físico. Por menos habilidoso que pudesse ser, conseguiu desenvolver um serviço topspin razoável e um bom backhand. Acima de tudo, gostava cada vez mais de competir. Competia ferozmente e nunca perdia a cabeça. Ele conseguia tirar suas lições do tênis, perdendo ou ganhando, mas ganhando, ele sabia que estava no caminho certo.

É neste ponto que entra o meu temor. Não tenho medo das derrotas dele e, sim, de que perdendo ele possa colocar em dúvida o valor do seu esforço. Me questiono quantas derrotas um coração de criança pode agüentar até desistir? Digo a mim mesmo que não fico ansioso por mim, que é tudo por ele e assim fico, balançando entre ser um pai com auto-controle e positivo ou cego, barulhento e extremamente ansioso.

A razão para pais fazerem cena é porque estão sofrendo. A causa do sofrimento é o filho, pois se este não está cometendo erros, tudo está bem, mas caso contrário, mesmo sabendo que ele está tentando, não importa, faz os pais sofrerem. Já presenciei a cena de pais comentando sobre os jogos com seus filhos mil vezes e é sempre a mesma: um pai frustrado, descarregando a análise completa do jogo sobre o filho e este, de cabeça baixa, mais desanimado do que nunca.

Aqui, o que aprendi em ter me envolvido mais diretamente com o tênis do meu filho. Tudo bem em ser um pai frustrado e ansioso, pois o que queremos mesmo é que nosso filho se dê bem. Só temos que manter em mente que a linha que separa um pai que apóia de um que abusa da pressão, é muito fácil de ser cruzada. Precisamos ter auto-controle para sermos ao mesmo tempo pais interessados e, além de tudo, bons pais.

Naquela tarde em Santa Bárbara, reconheci que estava no limite suportável. No final, o adversário fez alguns bons pontos e saiu vencedor, nada além disso. O que veio rapidamente na minha cabeça foi a excelente relação com meu filho e todos os benefícios que ele vinha tirando do tênis. Naquele momento havia mil coisas mais importantes do que a derrota dele. O rosto dele se aproximando foi crucial para eu não tocar no assunto até ele querer conversar sobre o jogo. Simplesmente dei um abraço muito forte nele e disse: "Foi muito bom, te esforçaste muito e eu te amo mais ainda." Depois levei-o para comermos o melhor churrasco que pudéssemos achar."

Traduzido da revista TENNIS, edição de setembro/2005.

 

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Sabrina Giusto, ex-jogadora profissional e uma das coordenadoras da equipe SMS/Sogipa, colabora com a Cosat e CBT em viagens com equipes infanto-juvenis e profissionais