Serena fala da importância da religião em sua vida
29/10/2009 às 10h12

Serena disputa o Masters em Doha nesta semana
Doha (Catar) - O tema da conversa deveria ser o tênis, mas Serena Williams deixou o jornalista britânico Matthew Syed, do The Times, desconcertado ao receber da estrela americana um exemplar do livreto Life in a Peaceful New World (Vida em um Mundo Novo cheio de Paz), de cunho religioso. "Como Testemunha de Jeová, acreditamos que é realmente importante compartilhar a palavra de Deus", disse a jogadora que disputa nesta semana o Masters em Doha, no Catar. "Sempre que estou em um avião ou coisa parecida, costumo conversar com a pessoa que está perto de mim sobre religião e lhe dou o livreto. Sempre tenho alguns na minha bolsa porque nunca se sabe quem se vai encontrar."

Na longa entrevista publicada no site do jornal britânico, a campeã deste ano de Wimbledon e do Aberto da Austrália fala da importância da religião em sua vida. "Sabe, isso era a coisa número 1 nas nossas vidas quando pequenas, até mais que o tênis. Minha mãe é uma Testemunha de Jeová fervorosa e meu pai, mesmo não sendo praticante, fazia questão que fôssemos ao templo toda terça, quinta e domingo. Sempre sentávamos na terceira fila. Mesmo hoje, é mais importante para mim que qualquer outra coisa. Minha fé me dá equilíbrio e perspectiva."

Foi a religião que também lhe deu força para lidar com as vaias do público na final de Indian Wells de 2001, depois de Venus ter abandonado o jogo contra a irmã caçula na semifinal. Vaias e ofensas caíram em cima da então jovem de 19 anos. A adversária era Kim Clijsters. "Ainda acho duro acreditar no que aconteceu. Era apenas uma criança indo para a quadra para jogar e as pessoas gritavam coisas como "Volte para Compton" só porque Venus tinha desistido. Chorei na minha toalha em uma das trocas de lado no segundo set e pedi a Deus para me ajudar a continuar. Nem ligava se ganharia ou perderia." Serena ganhou a partida em três sets e não perdeu a chance de dar um tapa com luva de pelica na torcida. Na entrevista em quadra, depois de agradecer à família e aos que torceram por ela, falou: "E para aqueles que não me apoiaram, amo vocês assim mesmo." Foi em momentos como este que Serena se fortaleceu. "Foi preciso muito para superar toda aquela negatividade, mas esta é a força que se adquire quando se passa por tantas coisas para chegar ao topo."

Serena mostrou habilidade no tênis de mesaFalando de sua infância, Serena lembra como dividia a cama com as outras quatro irmãs. "Isha e Yetunde dormiam nas duas camas de cima e Lyn e Venus nas duas de baixo. Eu tinha de dormir com uma irmã diferente a cada noite, revezando entre as camas delas. Mas não vejo isso pelo lado negativo. Para ser honesta, sinto que tive sorte porque aquilo me fez ficar mais próxima de minhas irmãs."

Depois que os pais decidiram ensinar tênis às filhas, Venus e Serena passaram a treinar em quadras públicas perto de casa, em um bairro violento, tendo que frequentemente tirar garrafas quebradas e lixo da quadra antes de treinar e às vezes ouvindo tiros. "Na maioria das vezes, o treino era divertido", conta. "Papai era bom em transformar os treinos em coisas que gostávamos, introduzindo elementos competitivos e coisas assim. Também nos ajudou a entender que não há atalhos para o sucesso e que temos de trabalhar duro para conseguir chegar lá."

A viagem à África (Gana e Senegal) em 2006 a fez relembrar o sofrimento dos antepassados. "Aquilo me fez pensar. Se meu povo pode aguentar aquele sofrimento, eu podia suportar qualquer coisa."

Serena também comentou sobre sua luta contra o peso. Em 2007, apesar das críticas, ela conquistou o Aberto da Austrália. "Não costumava ler (as críticas) os jornais, mas não podia evitar ouvir o que falavam de mim. Um deles me chamou de vaca gorda. Mesmo hoje em dia quando me olho no espelho, digo que preciso perder peso aqui e ali. Mas sei que nunca vou ser magra. Sou curvilínea: tenho seios grandes, bumbum grande. Acho que isso é atraente para alguns caras. Mas é duro quando se lê pessoas falando de como você se parece."

Sobre a explosão de nervos na final do US Open deste ano, quando ameaçou a fiscal de linha que marcou foot fault no ponto decisivo da partida, Serena disse que escreveu uma longa carta à juíza se desculpando. "Sou passional e perdi a cabeça porque era um momento-chave. Escrevi uma carta longa à fiscal pedindo desculpas e ela compreendeu."

Depois de jogar tênis de mesa com o entrevistador, Serena não se negou a dar um conselho aos leitores. "Se quer realizar seus sonhos, tem de trabalhar realmente duro. Não tem bilhete garantido para o sucesso. Algumas vezes você cai, e eu caí muito. Mas, então, é preciso lembrar das palavras de Muhammad Ali (o campeão de boxe): 'Ser um campeão não é sobre o que se faz quando se está no topo; é sobre o que você faz quando é nocauteado.'"
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