Serena fala de religião, sexo, racismo a jornal inglês
07/05/2007 - 22h43

Serena dá entrevista reveladora
Londres (GBR) - O jornal inglês "The Observer" publicou neste domingo uma longa reportagem especial com a americana Serena Williams, que revela um pouco da intimidade da ex-número 1 do mundo e na qual ela fala de assuntos variados como racismo, religião, sexo e até de dinossauros. Atraso no vôo que trouxe Serena de Los Angeles quase fez a jornalista perder a entrevista. Barrada pela segurança do enorme condomínio ao norte de Palm Beach, a jornalista foi salva pela chegada oportuna de Serena em seu carrão, usando óculos de sol que cobriam metade do rosto e acompanhada de seus dois cachorrinhos de estimação, Jackie e Lorelei. Serena dá carona à repórter, que retribui ajudando a descarregar a bagagem.

As irmãs Venus e Serena moram juntas há anos e o pai a apenas 15 minutos de distância. A porta de entrada é em arco, ladeada por colunatas, com ampla janela de vidro do teto ao chão na parte do fundo da casa, onde há uma piscina. A mansão foi construída para elas há sete anos, com uma ala destinada a cada irmã. A de Serena tem dois andares. Mas a campeã de sete torneios de simples de Grand Slam comentou que se soubesse quem morava no condomínio da frente, teria preferido morar lá. "Todo mundo é condômino de lá. Tiger (Woods), aquele cara que é casado com Catherine Zeta-Jones ..., mas não sabia disso quando compramos aqui."

A sala principal tem um enorme lustre veneziano, alguns móveis estilo Luís XV com cetim pink e branco e umas poucas cadeiras estofadas próximas. As cortinas são azuis com girafas douradas bordadas e pinturas pseudo-impressionistas na parede. A única coisa que aponta que lá moram as irmãs mais famosas do tênis são algumas fotos delas espalhadas na parede, tiradas para a revista Elle há alguns anos. "Você sabe, Venus tem uma empresa de decoração de interiores, agora", explica. A cada vez que Serena viaja, Venus aproveita para fazer experiências. Há pouco tempo, a casa era pink. "Quando voltei, estava toda branca. Minha irmã decidiu que precisávamos de "um visual mais sofisticado".

Com bom humor, a jogadora de 25 anos, bicampeã de Wimbledon e do US Open. e campeã de Roland Garros em 2002, rejeita a condição de superestrela do tênis. "Não sou uma superestrela do tênis. Sou uma superestrela. Ponto. Como Britney Spears." Serena concentrou parte de seus comentários em sua confecção, a Aneres (Serena soletrado de trás para a frente), na carreira de atriz e em suas participações especiais na TV, como no seriado ER, nos Simpsons e em outras animações. Ela está conversando com escritores e diretores sobre outros vários projetos.

Sobre seu nível atual, ela afirma que seu jogo está mais maduro. "Estou jogando diferente, meu jogo está um pouco melhor. Nunca senti que havia atingido meu pleno potencial." E acrescenta: "Não havia nada de errado com meu eu anterior. Ter conseguido aquele nível foi espantoso. Mas, ao mesmo tempo, meu jogo tem amadurecido." Ela acha que também mudou como pessoa, está mais solta, mais amistosa. "Era tímida, não falava muito. Ainda sou muito tímida. Mas estou mais aberta em geral, na vida. Gosto de me divertir mais e percebo que o tênis não é o fim do mundo. Sempre o levei muito a sério e agora, se faço um golpe ruim, sorrio e não fico confusa porque percebo que é apenas um jogo."

As "distrações" que muitos apontam em sua carreira, que a afastam do tênis, ela afirma serem necessárias. "Posso fazer coisas diferentes e posso ficar aborrecida facilmente. Se tivesse de jogar tênis todos os dia, ficaria louca."

Serena, tricampeã em MelbourneEm janeiro deste ano, depois de anos sem ganhar um Grand Slam, Serena conquistou o tricampeonato no Aberto da Austrália. Em casa, contundida, Venus, nervosa, mal conseguia acompanhar o torneio pela TV. Serena afirma que não chegou a sentir a falta da irmã porque Venus mandava muitos emails e telefonava com frequência para dar dicas sobre determinada jogadora. "Conversei com ela todos os dias. Ela me deu algumas dicas, mas infelizmente não posso contá-las", afirmou rindo. "Mas foram realmente dicas-chave. Ela me ajudou muito na final (contra Maria Sharapova). Venus é uma jogadora esperta, enfrentou todo mundo."

Sobre as agruras da infância, Serena repete que Venus era uma irmã protetora. "Uma vez, na escola, eu não tinha dinheiro para o almoço - uma de muitas vezes que não tive dinheiro para isso. E era dia da melhor comida, acho que naquele dia era frango frito, e estávamos ansiosas", conta. "Venus me deu o dinheiro dela e disse para não me preocupar, para eu comer." Mais adiante, afirma: "Ela sempre tomou conta de mim, quase como se fosse uma mãe. Costumava ler para mim quando éramos pequenas. Então, quando a derrotei pela primeira vez, foi um pouco difícil, mas depois ficou mais fácil."

Serena e Venus são filhas do casal Richard e Oracene, esta tendo três filhas de casamento anterior. Desde cedo Richard determinou que as filhas seriam campeãs de tênis. Ele deixou a empresa de segurança onde trabalhava, comprou vídeos de instrução e aprendeu a jogar sozinho. Elas se iniciaram aos 4 anos em quadras públicas de Los Angeles, superando as piores condições em uma vizinhança violenta. Na qualidade de caçula das irmãs, Serena comenta que deixou Compton muuito jovem e que nunca sentiu ter passado por épocas duras. "Para mim, quando crescia, nunca quis nada. Minha mãe tinha um bom emprego, era enfermeira. Mas eu conversava com minha irmã mais velha de vez em quando e ela dizia que nós não podíamos fazer isso, não podíamos fazer aquilo. Nunca soube porque era pequena demais. Deixei Compton quando tinha 10 anos."

Mais adiante, Serena conta que voltou a Compton para visitar o antigo lar e ficou abismada. "Voltei lá quando cresci e me perguntei como pudemos viver lá. Seu tivesse a idade de minha irmã, teria morrido. Éramos cinco em um quarto e apenas quatro camas", revela. A caçula não tinha sua própria cama e a cada noite decidia com quem iria dormir.

A irmã Isha revela que a pequena Serena imitava Venus. "Se íamos jantar for a com a família, costumávamos fazer Serena pedir seu prato primeiro, do contrário, ela pediria a mesma coisa que Venus. Mas se ela pedisse primeiro e fosse diferente do que V tinha pedido, ela mudaria. Era ridículo." Serena aponta que percebeu que não tinha de ser igual a Venus por volta dos 18, 19 anos. "Percebi que gostava de coisas diferentes e que estava tudo bem. Que não tinha de fazer tudo o que Venus fazia. Daí em diante, fui capaz de seguir em frente."

O racismo foi outro assunto da entrevista. Em 2001, o pai Richard acusou uma jogadora branca de dar uma trombada em Venus, propositadamente, numa troca de lado. Em 2001, Serena foi vaiada na final contra Kim Clijsters, depois que Venus desistiu do duelo com a irmã, na véspera, pelas semifinais, por causa de contusão. O públicou viu isso como coisa combinada e perseguiu Serena durante a partida. Serena, desde então, vem mantendo a promessa de não mais jogar em Indian Wells.

A atual número 12 do mundo comentou que "não pode imaginar" o que Arthur Ashe nos anos 60 e 70 ou Zina Garrison nos 80 sofreram. "E nem quero pensar quanto a Althea Gibson nos anos 50. Quando eu entrei no circuito houve alguns problemas, mas não de verdade. Tenho sido abençoada por não ter sofrido muito, pelo menos, não na minha frente. Quer dizer, não sei o que acontece a portas fechadas. Somos um país jovem, a escravidão terminou a uns 130 anos e eu seria ingênua de pensar que em um tempo tão curto, isso mudaria radicalmente." O ataque mais recente aconteceu em Miami, por parte de um torcedor. Segundo ela, parte de sua força mental vem de sua herança. "Acho que é inato", reflete. "Vem de minha história como afro-americana e o que nós passamos como pessoas."

A reportagem do "The Observer" revela que todas as irmãs Williams foram educadas como Testemunhas de Jeová e que todas continuam fiéis à sua fé. Serena até vai de porta em porta quando tem tempo, afirma a matéria. Seus melhores amigos também são da mesma religião. "É divertido porque a gente se relaciona com alguém e, ao mesmo tempo, sabe que não vai viver uma vida promíscua." Para Serena, a religião também a ajuda a se manter longe das confusões ao immaginar que "Deus não ficaria feliz se eu fizesse isso". E garante: "Nunca me envolvi com coca e nunca irei."

Serena em ação em CharlestonDe acordo com sua religião, ela não festeja aniversários ou o Natal e lê a Bíblia nas horas livres. No momento, lê o Genesis. "O Gênesis é tão divertido, você lê como Deus criou a Terra em sete dias ..., mas me pergunto se havia dinossauros. Talvez quando Ele criou parte da Terra no primeiro dia, talvez fosse quando os dinossauros viveram. Isso me faz pensar. E os homens das cavernas, quando?", se questiona. A jornalista pergunta como ela concilia dinossauros e o mito da criação, quando a Bíblia não é inteiramente precisa. "Não, eu acredito na Bíblia. Apenas estava pensando, se você pensa demais, fica doido." E quanto a ter dinheiro? "Acho que os tempos são diferentes. Acredito na Bíblia, mas também acredito em ser esperto. (?) Não penso que Deus vá me punir porque estou bem, por ter ganhado cada dólar. Trabalho literalmente desde os dois anos. Costumávamos entregar listas telefônicas com meu pai porque ele queria nos incutir o hábito do trabalho. E trabalhei duro, suei todo dia. Trabalhei duro por meu dinheiro e mereço o que tenho."

Há tempos, Serena afirmou não ser a favor de sexo antes do casamento. Ela se mostra desconfortável com o assunto e invoca, rindo, a Quinta Emenda da Constituição americana, sobre o direito ao silêncio. Ela também se esquiva ao ser perguntada se é solteira. "Não sei. Não acho que sou solteira." Instigada a confirmar se é ou não solteira, responde: "Não gosto de falar sobre isso". Sorri de forma tímida e desvia o olhar. Pouco depois, explode em riso e imediatamente se arrepende. "Falando sério, não sou Britney Spears! Oh Deus, eu disso isso?"

Questionada se alguma vez já pensou em qual é seu lugar na história, ela diz que não. "Quando minha carreira terminar, irei olhar para trás, ver tudo o que fiz e provavelmente vou cair de joelhos e exclamar: 'Uau, como consegui tudo isso? Mas isso me mantém esfomeada. Se eu pensasse que era história, minha cabeça ficaria louca. Honestamente, no fim do dia, eu viria para casa, para meus cachorros e minha irmã. Tenho amigos e choro quando vejo filmes e vejo reality show..."

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