O Brasil em Wimbledon: Maria Esther Bueno
Miss
Maria Bueno, como sempre se referiram os ingleses, tinha
apenas 19 anos quando disputou a primeira rodada de Wimbledon,
no dia 23 de junho de 1959. A adversária era a britânica
Pamela Edwards, que levou uma surra de 6/1 e 6/3.
Se alguém tivesse ouvido Althea Gibson, primeira negra
a ganhar Wimbledon, não haveria surpresa. Em 58, ao vencer
o torneio de duplas ao lado de Maria Esther, Gibson profetizou:
"Ela será minha sucessora".
Estherzinha, de estilo agressivo e gracioso, havia vencido
os preparatórios de Birmingham e Bristol em 59. Levou
um susto na segunda rodada, dia 24, mas se recuperou e
marcou 4/6, 6/1 e 6/1 sobre a alemã Margot Dittmeyer.
Em seguida, passou às oitavas com outra virada: 4/6, 6/3
e 6/1 em cima da americana Mimi Harnold. Seria seu segundo
e último set perdido no torneio.
A neozelandesa Reneé Morrison caiu por 6/1 e 7/5;a soviética
Edna Budding foi eliminada por duplo 6/3; e a americana
Sally Modre não tomou mais que 43 minutos de Maria Esther,
num fulminante 6/2 e 6/4.
Mas havia um desafio ainda maior. A outra finalista era
a americana Darlene Hard, de 21 anos e vice de 57, para
quem Maria Esther havia perdido nos seis jogos anteriores.
No
sábado de 4 de julho, calor sufocante de 30 graus, 15
mil pessoas lotaram a quadra central e viram um show.
A brasileira, de vestido branco, marcou 11 aces no placar
de 6/3 e 6/4, encerrando 21 anos de domínio americano
no torneio. No primeiro set, depois de perder o primeiro
game de serviço e se recuperar no seguinte, Maria Esther
maravilhou o público ao fechar o terceiro game com três
aces, o que repetiria no game inicial do segundo set.
"Bueno voleou com um passo assassino e a graça de
uma dançarina de balé", escreveu a agência de notícias
AP. Depois de cumprimentar o juiz, Maria Esther se pôs
a chorar e foi consolada pela própria Hard. O primeiro
sorriso só veio quando recebeu o troféu da duquesa de
Kent, com quem conversou por um minuto. A duquesa havia
visitado o Brasil meses antes.
"Não me senti nervosa até o último ponto, aí joguei
quase desmaiada", lembra Maria Esther, que teve de
correr a uma loja para comprar um vestido para o baile
dos campeões, onde seu histórico parceiro foi o peruano
Alex Olmedo. Dançaram o "chá-chá-chá".
Bueno retornou ao Brasil seis dias depois e, apesar das
sete horas de atraso devido a uma pane no motor do avião,
foi recebida pelo presidente Juscelino Kubstichek no Rio,
antes de seguir para São Paulo e ser conduzida, em cortejo
pela cidade, até o clube Tietê, berço de sua paixão pelo
tênis.
O primeiro título de simples seria apenas o início. Estherzinha
se imortalizou na grama de Wimbledon com o bicampeonato
de 60 e um terceiro título, quatro anos depois. Venceu
cinco vezes nas duplas e chegou a outras duas finais de
simples, uma semi e três quartas-de-final. Sua última
aparição, em 76, já perto dos 37 anos, permanece como
a melhor atuação do Brasil em duas décadas.
Além dela, outros dois brasileiros alcançaram as quartas-de-final
em Wimbledon: Armando Vieira, em 51, e Thomaz Koch, em
67.