25/04/2007 - 09h00 Entrevista: piloto de carros, 23 anos, negro e brasileiro
Da Redação
O objetivo é virar fato. Notícia na imprensa. Marco na história do automobilismo. Porém, não apenas por ser negro, por sua origem afro. Mas, sim, pela qualidade como piloto. Essa é a meta do jovem carioca Lucas Molo, 23 anos, negro, piloto da Stock Light.
Lucas começou muma brincadeira do pai. Sempre que podia, o piloto Uberto Molo levava o filho para correr no kart perto de casa, no Rio de Janeiro. Aos poucos, o jovem foi ganhando macacões, capacetes, entre outros acessórios necessários a um corredor.
"Foi quando percebi que, na verdade, meu pai estava me induzindo à carreira", brinca o piloto.
Depois de passar por três cursos na Itália para ter uma noção básica do que era o automobilismo, Lucas voltou ao Brasil e agora corre na Stock Car e participa do campeonato brasileiro de endurance. No final do ano, Molo participará também das Mil Milhas Brasil.
Entre os preparativos para sua prova de estréia na Stock Light, no último final de semana, em São Paulo, o jovem teve tempo para responder algumas perguntas do site Amigos da Velocidade. Segue:
Amigos da Velocidade: como você se interessou pelo automobilismo?
Lucas Molo: primeiro vendo o (Ayrton) Senna. Mas quem me apresentou mesmo ao automobilismo foi meu pai (Uberto Molo, que também foi piloto)!!
Amigos: a sua origem afro prejudicou, ou ajudou, na sua trajetória em algum momento?
Lucas: nunca influenciou em nada. Tá certo que não dava pra esconder que o único negro no meio da galera era eu. As pessoas reparam. Não tem como. Mas se eu ando bem ou não, não tem nada a ver com a minha cor. Para o acelerador, não importa a cor do pé. O negócio é acelerar!
Amigos: depois de Lewis Hamilton explodir na F-1 sua origem negra passou a ajuda-lo de alguma forma? Ou é cedo para medir as consequências?
Lucas: ajudar eu ainda não sei. Mas já senti diferença na minha primeira corrida na Stock Light este ano. As pessoas comentam, brincam e até já me chamaram de Hamilton. Eu não ligo. Brinco junto! É natural que agora comecem as comparações.E pelo fato dele ser muito bom, até cobranças! Mas eu tenho que saber lidar com isso.
Amigos: o que acha do Hamilton?
Lucas: Anda muito! Vem provando isso a cada corrida. Ele encantou o mundo! O moleque tá dando trabalho! No seu ano de estréia, fazer o que ele tá fazendo no meio daquela galera...Ele já chegou sentando num carro de uma equipe de ponta e como piloto titular! Apostaram nele e deu certo! Ele não deu mole! Ele compensa a falta de experiência com muito talento!! Não importa se é o Massa ou Alonso. Ele caí pra dentro! Bom demais!! E vai ficar melhor!
Amigos: por que, na sua opinião, tão poucos pilotos negros se destacaram no automobilismo?
Lucas: pelo fato do automobilismo ser um esporte de elite. Como o golfe, o polo e o tênis. E os negros, geralmente e infelizmente, não têm tanto dinheiro e nem acesso à esse tipo de esporte.
Amigos: como é o planejamento de sua carreira? Ou seja, onde quer chegar e como pretende alcançar essa meta?
Lucas: quero evoluir cada vez mais no Brasil. Ainda não me sinto completo. Comecei tarde. Nunca fiz kart e senti falta dessa base no começo. Meu objetivo é evoluir na Stock Light e seguir em frente. Busco reconhecimento. Quero um dia ser lembrado por ter sido um bom piloto. Não apenas pelo fato de ser um piloto negro.
Amigos: quais são suas referências como piloto? Em quem se inspira?
Lucas: Ayrton Senna e, hoje, também o Lewis Hamilton. Mas não posso esquecer do Murilo Pilotto, ex-piloto e hoje meu chefe de equipe e mestre!
Amigos: como será sua temporada 2007?
Lucas: de aprendizado! Uma temporada de estréia pra mim, meu companheiro de equipe e pra equipe também. Esperamos evoluir bem durante o ano. Temos tudo pra isso! Confio na minha equipe, que é a minha segunda família. Espero poder dar muita alegria para eles!