Nesta temporada, o paulista Chico Serra, tricampeão brasileiro de Stock Car e ex-piloto de Fórmula 1, fará a sua estréia na Fórmula Truck, com um caminhão Ford Cargo na equipe comandada por Djalma Fogaça. Aos 50 anos, ele chega para um novo desafio em sua carreira, substituindo Beto Monteiro.
Chico já realizou seus primeiros testes com o caminhão, no circuito de Guaporé, mas ainda sem experiência na categoria fica cauteloso quando fala em objetivos para 2008. No entanto, o piloto não deixa de lembrar que sempre quer ganhar corridas e campeonatos e espera ser competitivo.
Serra iniciou carreira no kart, aos 15 anos, série onde em cinco anos ganhou o tricampeonato paulista e o título de campeão brasileiro. Em 1977, Chico Serra foi para a Fórmula Ford, faturando o título da categoria e do Festival Mundial de F-Ford. Com 21 anos, em 1978, chegou à F-3 Inglesa e, no ano seguinte, venceu o campeonato.
Em 1980, participou da temporada de F-2, ficando em sétimo lugar. Chico também ganhou a edição de 1981 das Mil Milhas Brasil junto com Zeca Giaffone e Affonso Giaffone com um Opala. Entre 1981 e 1983, disputou 19 corridas de Fórmula 1 pelas equipes Fittipaldi-Copersucar e Arrows, marcando um ponto com o sexto lugar na Bélgica, em 1982.
Em 1984, Serra voltou ao Brasil e competiu com carros de turismo. Correu o Brasileiro de Marcas, com carros Fiat, obtendo um vice-campeonato. Na Stock Car, Chico foi tricampeão em 1999, 2000 e 2001. Sua última vitória na série foi em Brasília, em 2006. Em 2007, ficou apenas na 27º posição na classificação da Stock.
Confira a entrevista, gentilmente, concedida por telefone pelo piloto Chico Serra ao Amigos da Velocidade:
Amigos da Velocidade - Após seu primeiro teste com o caminhão Ford Cargo, o que você achou da experiência?
Chico Serra - Diferente. Realmente é bem diferente do que estou acostumado. Mas eu gostei muito. Acho que preciso de mais uns treinos. O caminhão é muito manhoso para guiar, ele tem umas características bem distintas. Acredito que fui bem.
AV - Como você vê o crescimento da F-Truck nos últimos anos com a chegada do Felipe Giaffone, ex-piloto da Fórmula Indy, e agora você, ex-piloto de Fórmula 1 e tricampeão da Stock Car?
Chico Serra - Acho que já faz um tempo que a Truck vem crescendo muito rápido. Ela tem um sucesso muito grande de público. Eu nunca fui numa corrida na verdade, mas eu sei que é um grande show e que lota qualquer autódromo. Tem uma repercussão bem grande e é automobilismo, então é natural que apareçam pilotos de outras categorias para correr a Truck.
Acho que, no começo, ela era só um negócio de apaixonados por caminhões, porém hoje ela tem umas características diferentes, ela é muito mais que um show do que uma simples corrida de caminhões e, assim que eu acabei indo para lá.
AV - Aos 50 anos de idade, qual avaliação que você faz desse novo desafio na sua carreira?
Chico Serra - Eu acho que é uma nova fase. Qualquer carreira é dividida por diversas fases. Eu tive minha fase de quando comecei que era correr de kart, quando eu fiquei um pouco no Brasil e depois fui para a Europa. Foram oito anos de Europa, aí voltei ao Brasil, fui para Marcas e Stock Car, que fiquei muito tempo. E, agora essa nova fase, que eu quero me dar bem lá, quero ganhar corrida, quero ganhar campeonato. Tenho um trabalho longo para fazer para que tudo isso aconteça, falo em treinos, mas estou bem entusiasmado.
AV - Qual o seu objetivo para sua temporada de estréia na Truck?
Chico Serra - Acho que o objetivo sempre é ganhar corridas e o campeonato, mas não posso falar isso agora, porque é um pouco de pretensão. Eu preciso andar um pouco mais com o caminhão, já que tive só um treino até agora, que foi em Tarumã. A equipe está fazendo uma programação incrível com dois caminhões só. Então espero ter um ano bem competitivo, bem equilibrado e lógico que se possível vencer corridas.
AV - Como você vê outros pilotos da categoria como o seu chefe de equipe e companheiro, Djalma Fogaça, Renato Martins, Wellington Cirino, Felipe Giaffone?
Chico Serra - Eu não conheço nenhum deles para te falar a verdade. Vou ter o primeiro contato com eles na primeira corrida. Conheço o Fogaça já por causa do automobilismo. Conheço o Felipe, o Beto Monteiro, mas o resto eu realmente não conheço.
AV - Você imagina quem são os favoritos para o título deste ano da Truck?
Chico Serra - Não, eu estou chegando agora e é muito difícil falar em favoritismo. Posso apontar como favorito quem ganhou o último campeonato e que está muito bem para este ano, então estou automaticamente falando do Felipe Giaffone. Mas realmente não consigo fazer uma avaliação dessas.
AV - Quais foram os motivos que o fizeram trocar a Stock Car pela Truck?
Chico Serra - Acho que tive meu tempo de Stock Car. Fiquei muitos anos lá, ganhei três campeonatos e acho que foram três vice-campeonatos. Estou vindo de um ano que não foi muito bom. Meu filho está lá agora e está muito bem. É o que falei são fases, vejo que acabou a minha fase de Stock e tenho que começar outra.
AV - Você aconselharia outros pilotos da Stock a ir para a Truck?
Chico Serra - Eu estou contente com a mudança que eu fiz, mas na verdade não posso aconselhar ninguém. Eu já tive a primeira impressão com a equipe e com o caminhão, porém não na categoria ainda, não estive em uma prova ainda nem em um evento. Então acho que não é justo eu falar disso agora antes de participar do evento.
AV - Sobre a sua temporada na Stock no ano passado, por que você não foi tão competitivo quanto em outros anos?
Chico Serra - A Stock está muito equilibrada e qualquer deficiência técnica que você tenha te deixa fora dos primeiros ali. Se você pegar como exemplo 2006, não foi um ano bom para mim, eu tive várias dificuldades o ano todo, mas quando conseguimos acertar o carro em Brasília eu ganhei a corrida. São trinta e poucas pessoas em um segundo que estão lá, então, se você tiver rápido e tiver alguma deficiência, não consegue ser competitivo. Eu tive alguns problemas e acho que isso me deixou fora.
AV - Sobre o acidente que vitimou fatalmente o piloto Rafael Sperafico na última prova da Stock Light em 2007, em Interlagos, você pensa que isso foi um fato isolado ou acha que aquele ponto do circuito paulista é falho?
Chico Serra - Do que aconteceu você pode dizer que foi falho. O circuito é inspecionado e é feito pela Fórmula 1 e para a F-1, quer dizer o máximo de segurança para eles. Porém hoje aqueles pneus onde estavam foi um erro, pois quando o Rafael bateu no pneu, ele voltou para a pista. É fácil falar isso agora sobre o que ocorreu. Os pneus estão lá para segurança para amortecer a batida e não dar direto no muro, mas a proteção mandou ele volta para a pista e o outro carro acertou ele.
Acho que foi um fato isolado ali que aconteceu. No meu modo de ver, o Stock está muito mais seguro do que jamais foi. Existe coisa para fazer? Lógico que existe, um carro de competição sempre tem coisa para fazer em termos de segurança. Mas não foi por falta de segurança que o acidente foi fatal. A batida que teve na lateral dele com ele parado e o outro carro a 196 km/h, isso não teria condições de nenhum carro agüentar e ainda mais um corpo humano.
AV - O que você acha que pode melhorar no carro para dar maior segurança ao piloto?
Chico Serra - Não sei onde realmente falar. Cabe a engenharia que constrói o carro a fazer isso.
AV - Você acredita que a atitude dos pilotos dentro da pista está passando do limite da competição sadia? Você pensa que a organização deveria ficar mais de olho nesses pilotos imprudentes?
Chico Serra - Acho que sim. Faz um tempo já que acontecem acidentes que não deveriam ocorrer, acidentes desnecessários vamos dizer assim. Está havendo uma falta de responsabilidade de alguns pilotos. E creio que poderíamos está num nível de segurança maior por conta dos próprios pilotos. Cabe a CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) e a comissão técnica dar mais punições e a ser mais rigorosa quanto a isso. Quando tem disputas que você que foram desleais, acho que cabe mais penalizações do que existem hoje.
AV - O que você pode comentar sobre a performance dos pneus nacionais da Pirelli na última temporada?
Chico Serra - Antes uns tempos atrás, a gente corria com pneu nacional. Por força das equipes e tudo mundo reclamando, a Pirelli trouxe o importado, que realmente era mais rápido. Aí as equipes começaram a reclamar que estava dando muita diferença de um jogo de pneus para o outro e insistiram para que voltasse com os pneus fabricados aqui. Foi feito isso, a Pirelli teve um trabalho de desenvolvimento legal, mas os pneus não eram como os importados, que tinham uma performance bem melhor. Então acho que em termos de velocidade, os pneus ficaram devendo e tiveram duas provas que um lote de pneus não foi bem, dando uma diferença de um jogo para outro e que tudo mundo reclamou.
AV - Como você viu a entrada do power-to-pass (uma potência a mais no carro para ajudar na ultrapassagem)? Você considera que funcionou bem?
Chico Serra - Em partes. Funcionou e acho que a idéia foi boa, mas acho que deveria ser modificado. Teria que ser mais prolongado. Ou o tempo mais prolongado ou uma injeção mais forte para ter uma diferença maior do que estava tendo ainda e você poder passar. Tem que aumentar um pouco a dose.
AV - Você pensa que os playoffs são bons para o campeonato da Stock?
Chico Serra - Acho que em termos de promoção é bom, porém para o piloto não é bom não. Não é muito justo, se você construiu durante oito etapas uma liderança muito boa por mérito seu por vitórias e por pontos que você conseguiu, você perde tudo isso quando entra nos playoffs. Como piloto falando, eu preferiria um campeonato de pontos corridos. Mas em relação ao público e ao evento, acho que ficou legal, já que faltando quatro corridas tem quase pilotos praticamente empatados.