UMA CONQUISTA BRASILEIRA NO PÓLO NORTE

O desafio


O Pólo Norte é um lugar sinistro. Ao contrário do topo de uma montanha, ali não existe nenhum marco indicando que você chegou lá. Nenhuma pedra, pico, bandeira.... muito menos dinheiro ou troféu. Nem um simpático Papai Noel te esperando para te dar os parabéns. Vestígios de expedições anteriores há muito desapareceram e qualquer "prova" (uma foto, um objeto, uma carta) que você quizer deixar por lá, para os próximos que vierem, será em vão: ninguém verá. Outra "decepção" é que o Pólo Norte é igualzinho a milhões de outros lugares da aparentemente infinita calota polar do Oceano Ártico. Essa calota, na verdade, é um gigantesco quebra-cabeças de gelo com 5 milhões de km quadrados, com "peças" de todos os tamanhos - desde um cubinho de gelo a placas com centenas de km quadrados - em constante movimento. As peças se movimentam entre si, com uma força descomunal, abrindo e fechando fendas, ora expondo ora escondendo trechos da água escura do oceano. E todo esse conjunto deriva ao sabor das correntes, marés e, principalmente, dos ventos da superfície do gelo. Assim, embora o Pólo tenha uma localização fixa - 90 graus de latitude norte - o chão gelado onde você pisa muda constantemente de lugar.
  

Para piorar de vez a situação, você não é nem um pouco bem-vindo ali. O Ártico vai fazer de tudo para te lembrar disso e tentar te convencer a voltar rapidinho prá casa. E o arsenal é variado. Primeiro o frio. A temperatura local fica em torno de "módicos" 20-30-40 até 50 graus abaixo de zero. Depois o vento. Rajadas de apenas 50 km/hora são o suficiente para a sensação térmica despencar prá uns 80 graus negativos. Que tal? Se você insistir, o vento parece que percebe suas intenções e dobra a sua força e os seus efeitos.
  
Mas se você é daqueles teimosos, o Ártico te prepara um labirinto de fendas no gelo que te obrigam a aumentar seu passeio em alguns quilometros. Algumas fendas são tão grandes que não dá nem para ver o outro lado. E quase sempre são várias fendas por dia, todos os dias. Às vezes a fenda se congela e uma fina película de gelo recobre a água do oceano. Se voce se arriscar a atravessá-la, corre o risco de cair com tudo na água (tudo mesmo: corpo, alma, brio, orgulho, esperança).
  
Mas você é duro na queda e continua. Aproveita que têm 24 horas de luz (uma colherzinha de chá que o Ártico te dá, a menos que você seja um pirado incorrigível e vá na escuridão do inverno) e percorre logo uns 15-20 km puxando um pesado trenó atrás de si. Exausto, monta acampamento e acorda disposto no dia seguinte para mais um dia de caminhada. Olha no GPS e ...surpresaaa.... você "voltou" prá trás uns 5 km. Descobre que enquanto você dormia o sono dos justos o Ártico ficou acordado e derivou para sul, te roubando preciosos quilometros duramente caminhados. Aí você recalcula seus mantimentos e percebe que se o Ártico continuar assim mal-criado você corre o risco de ficar sem comida antes de alcançar seu objetivo. Evite xingar muito alto pois pode atrair ursos polares famintos (e eles estão sempre famintos) colocados estratégicamente nas redondezas para fazer você realmente se arrepender de estar ali.

Mesmo com todas essas dificuldades e perigos a cada ano um punhado de aventureiros obstinados se arriscam numa caminhada rumo ao Pólo Norte. Em 1999, eu, Thomaz Brandolin, fui um deles.

Quebra de paradigma

A expedição teve início em março, quando fui para o Canadá para um importante período de treinamento, integração com a equipe e teste de alguns equipamentos. Eu era convidado de uma equipe daquele país para percorrer a pé o último grau de latitude da Terra até o Pólo Norte. O treinamento era mais importante para mim pois a proposta da equipe era ir esquiando até o Pólo e não caminhando com os esquis (com uma pele embaixo) nos pés como faz 100% dos aventureiros polares. Para quebrar esse paradigma eu precisava aprender uma técnica especial de esquiar e isso seria impossível no Brasil. Nessa empreitada eu contava com o apoio e patrocínio integral da CIGNA PREVIDÊNCIA E INVESTIMENTOS.

A etapa mais importante do treino foi na belíssima e remota Cordilheira Torngats, no extremo norte da Província de Quebec, divisa com Labrador, já na região do Ártico. Partindo do vilarejo Kuujjuaq, fretamos um pequeno avião que nos deixou na cabeceira do Rio Koroc, então solidamente congelado. Esquiamos 100 km rio abaixo, enfrentando diferentes condições climáticas - sol, neblina, temperaturas polares, vento frontal - e de terreno - trechos de gelo liso como vidro, intercalados com gelo coberto de neve.

Do Canada fomos para Moscou e dali para Khatanga, no extremo centro-norte da Sibéria. Nossa equipe era formada por Richard Weber, sua esposa Josée, Mark Petersen, Richard Greenwood, Jack Mackenzie, Jennifer Buck, Mikhael Malakhov, Jeff Mantel e eu.

A decisão de irmos pelo lado siberiano do Ártico se deveu por questões estratégicas. O gelo desse lado do Ártico é mais novo (5 anos, em média, contra mais de 20 no lado canadense), portanto mais liso. E o movimento da calota tende para oeste, mas com grandes chances de derivar para norte também, o que poderia nos ajudar.
De Khatanga um velho avião fretado nos levou à base Borneo, em plena calota polar. Ali embarcamos num helicóptero que nos deixou no ponto inicial escolhido por nós: Latitude 89 graus norte e Longitude 135 graus leste. A temperatura estava em 30 graus negativos.

A Jornada


Durante a caminhada cada um de nós puxava um trenó e carregava uma mochila cargueira às costas. A mochila aliviava o peso do trenó e ajudava a nos manter aquecidos. Seguimos sempre em fila indiana, alternando nossas posições. A navegação era feita basicamente através do GPS e pela nossa sombra. Os dias de caminhada eram divididos em marchas - uma hora, em média - intercaladas por breves momentos de descanso. Como era previsto, as condições da superfície gelada mudava bruscamente. Trechos ligeiramente ondulados eram interrompidos por áreas de fraturas, barreiras de gelo com até 3 metros de altura', e fendas, de todos os tipos e tamanhos.

Para ultrapassar as fraturas e as barreiras, geralmente tirávamos os esquis que eram passados, junto com os trenós, de mão em mão. Na primeira vez que eu, por pura preguiça, não quiz tirar os esquis dos pés, escorreguei, levei um belo de um tombo, bati o joelho no chão, o gelo quebrou e molhei a perna.

Mas as fendas eram os obstáculos que davam mais trabalho. As que estavam abertas - open water - eram contornadas sempre pela direita (leste) para compensar o deslocamento de oeste da calota polar, na constante luta para nos manter no paralelo 135 leste. Mas as recém fechadas eram as piores. A água salgada quando recém congelada adquire uma flexibilidade parecida com a da borracha. Dependendo da espessura, a película de gelo cede um pouco mas suporta o peso de uma pessoa em movimento. Porém, qualquer vacilo o gelo se rompe e a pessoa afunda na água, um dos acidentes mais perigosos nessa região.

Durante toda a jornada a temperatura ficou amena - "apenas" 20 graus negativos - e não ventou. O deslocamento do gelo nos ajudou um pouco, mas os quilometros ganhos eram rapidamente perdidos nos desvios das inúmeras fendas encontradas pela frente. Felizmente, esquiando com a técnica correta e trabalhando em equipe, avançávamos rápido. Depois de aproximadamente 120km de marcha chegamos no Pólo Norte à 1h10 da manhã (horário de Brasilia) do dia 28 de abril.

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