Banalidade
Noticia de rodapé de jornal e de fim de noticiário em rádio de nossa cidade: “Frentista baleado morre”. Nesta simples frase está estampada a banalidade da violência que campeia em nossos dias e em nossa cidade.
Isaque, cidadão como eu e você, casado pai de filhos, trabalha para levar o sagrado pão de cada dia à sua família, trabalha à noite de frentista em posto de combustíveis, hoje talvez o serviço de maior risco de vida em nossa cidade. Trabalha, sua a camisa, faz bicos durante o dia, com muito sacrifício leva um pouco de conforto à família. Por ironia do destino, morava na Rua da Solidariedade.
Trabalhando, chegam duas pessoas de moto, enchem o tanque da mesma. Isaque vai cobrar, os motoqueiros anunciam o assalto. Isaque vai entregar o dinheiro, um simples tiro acerta sua perna, hospital, dor, sofrimento e a morte em plena Sexta-feira da Paixão, ou seja, em microescala a historia se repete.
No relato frio do repórter, nas letras frias de um computador, ou de máquina de escrever, se conta a trajetória de uma vida, a dor de pais, viúva e filhos, sem nenhuma lágrima, sem nenhum tipo de emoção. Baleado, morreu e só.
No relato frio da notícia, a banalização do fato, sem estardalhaço, sem comoção. Apenas mais um vítima de nossa sociedade e de nosso modo de vida, apenas mais um que perde tudo por nada.
Logo após surge a polícia, impotente e sem nenhuma condição de levar à cadeia os autores do crime. Não vai atrás porque não quer ou até porque não pode. Simplesmente a vida de Isaque será catalogada no arquivo dos mortos sem assassinos, naqueles crimes onde consta a incompetência e a impotência do Estado em defender o cidadão, seja ele Isaque, João ou Mateus. Não importa se estamos todos desprotegidos e sujeitos a uma bala em qualquer momento e em qualquer circunstância, até trabalhando.
De muito pouco ou de nada valerá a nossa indignação, pois são letras mortas, aqui escritas e depois devidamente jogadas ao lixo, mas deverá ao menos servir para os filhos de Isaque, que não conheci, saberem que eles são tão vítimas quanto foi seu pai, vítimas de uma sociedade cruel e que não tem a mínima consideração pelos Isaques da vida, seus pais, sua mulher e seus filhos. Fica o consolo de saber que pelo menos alguém vê no sacrifício de Isaque, numa Sexta-feira Santa, uma luz, que Isaque ilumine nossas autoridades e que seus filhos se orgulhem do pai que partiu tão cedo, que os pais de Isaque saibam que seus 30 e tantos anos aqui passados frutificaram e, por fim, que cada um de nós nos envergonhemos um pouco por permitirmos acontecer o que aconteceu com Isaque.
Walter Bartels é diretor de Jornalismo das rádios Notícia AM e Notícia FM e escreve as terças, quintas e sábados no TodoDia
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