Ganhos & perdas
“No ecossistema de Wall Street, o primeiro milhão é mais
difícil de ganhar do que o primeiro bilhão”
Mark Mobius, megainvestidor americano
Quem adquiriu uma cesta de ações na Bovespa, em janeiro de 1990, guardando esse tesouro na geladeira até 31 de dezembro de 2000, engordou o pé-de-meia em 1.800% (pela correção cambial). Ou mais precisamente: ganhos de 34% ao ano, em 11 anos corridos!
A valorização acumulada, em dólar, foi de exatamente 1.798%, nos cálculos do Opportunity Asset Management. E pensar que os anos 90 foram exatamente os mais atribulados da economia brasileira. Para os analistas do Opportunity, essa performance do Ibovespa (de resto, sem similar nas bolsas do mundo, no mesmo período) comprova que uma boa carteira de ações é o melhor investimento a longo prazo. Prêmio merecido para quem não se entrega às paranóias do mercado no curto prazo.
Melhor investimento a longo prazo? Claro, em mercados acionários com preços abaixo do valor patrimonial na média das respectivas empresas cotadas em bolsa. Não é mais o caso dos mercados opulentos dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. Em tais umbigos do mundo, as ações estão valendo bem mais do que realmente pesam. Com direito a micos do tamanho de gorilas.
O estouro anunciado da bolha das carteiras de tecnologia, nos dois lados do Atlântico Norte, nada mais fez que dramatizar o “ajuste técnico” de um mercado que não consegue ser técnico. Há quem garanta que o fundo do poço desse ajustamento clamoroso ainda não foi alcançado. Dá para afundar um pouco mais.
Nos últimos 13 meses, do pico de 10 de março de 2000 a 9 de abril de 2001, tempo de reversão dos mercados, o inventário das perdas nas oito maiores bolsas do mundo, assinado pelo Morgan Stanley Capital, é o seguinte: 1) Nasdaq, 67,5%; 2) Tóquio/Nikkei, 64,3%; 3) Frankfurt, 30,6%; 4) S&P 500, 27,8%; 5) Paris, 26,4%; 6) Milão, 23,8%; 7) Nyse, 22,5%; 8) Londres, 20,3%.
No Brasil, o desempenho do Ibovespa (valorização em dólar de 1.800% em 11 anos) acabou suplantando os ganhos financeiros mais obscenos do Planeta. No mesmo período, o rendimento do CDI, pela taxa do mercado interbancário, foi de 565%, igualmente em dólar. Ganho com risco mínimo e angústia zero. A tal de “liquidez infame”, na sentença de Octávio Gouvêa de Bulhões.
E qual terá sido o rendimento acumulado, em 11 anos, também em dólar, pelo Índice Standard & Poor’s, ponderado pelas 500 maiores empresas negociadas na Bolsa de Nova York? Foi de 302%.
SECOS & MOLHADOS
Hot money - A volatilidade dos mercados acionários é atribuída aos especuladores de carteirinha, donos do capital volátil dito “hot money”. Se estrangeiro, tanto mais volátil ou tanto mais arisco, certo?
Nem tanto - O capital volátil estrangeiro genuíno é o que faz posição em renda fixa de curto prazo (incluído o over) e não propriamente em bolsa. Na renda fixa, o investidor/especulador não tem custo de saída ou de fuga - além do risco mínimo.
Arriscado - Em bolsa, fuga em massa de investidores estrangeiros resulta em suicídio coletivo. Os preços despencam em meio minuto de pregão sobressaltado. Fugas em massa dos emergentes em transe do México à Indonésia, com sobras para o Brasil ou a Turquia, ocorreram na renda fixa.
Positivo - O fluxo estrangeiro na Bovespa é mais estável. E dá maior liquidez ao mercado interno. Ou como escreve o jornalista José Fucs: “Dólares em bolsa não mordem.”
Joelmir Beting é jornalista e escreve de terça a domingo no TodoDia
www.joelmirbeting.com.br
E-mail: fale@beting.com.br
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