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Sábado, 10 de abril de 2004
40 anos de um golpe

Um país sem memória nunca será uma nação porque uma nação é forjada pela sua própria história, com seus erros e seus acertos. Há 40 anos o Brasil sofreu seu pior golpe de Estado e mergulhou no seu período mais nefasto e obscuro de sua história. O golpe de 64 foi a junção de três fatores primordiais e de uma profunda divisão da sociedade brasileira.
  O primeiro fator foi a conjuntura internacional fruto da Guerra Fria que divide o mundo em dois grandes blocos - os socialistas, liderados pela URSS, e os capitalistas, liderados pelos EUA. Este embate de “super potência” aniquilou as democracias latino-americanas para um alinhamento forçado aos interesses de Washington e assim foi o Brasil, Argentina, Chile e outros diversos países.
  O segundo fator foi o descontentamento dos quartéis que alimentavam desde o governo de Getúlio Vargas ambições golpistas, o que encontrou eco numa conjuntura internacional favorável a golpes e uma elite derrotada e desonesta em nosso país.
  O terceiro fator foi a união de nossas elites desde a oligarquia coronelista nordestina passando pela ala conservadora de setores importantes de igreja até os empresários do Sudeste, que juntos com boa parte de nossa imprensa financiaram e apoiaram o golpe.
  Do outro lado estava uma sociedade idealista, pulsando por reformas e que via refletida no Governo Constitucional de Jango a oportunidade ímpar de democratização de nossas riquezas e do poder; além de afirmação e construção de nossa identidade quanto nação independente e soberana.
  O golpe de 31 de março de 1964 sepultou a esperança de um país mais justo e soberano, assim como castigou da forma mais brutal toda uma geração, jogando boa parte da inteligência brasileira nos porões de um regime imoral e ilegal.
  A tortura e o extermínio foram os instrumentos mais brandos usados para coerção daqueles que ousaram desafiar a tirania dos generais.
  Sepultou-se de forma mais incivilizada nossas instituições, arruinaram nossas universidades, perseguiram nossa juventude, assassinaram todos os ideais, violaram todos os direitos invioláveis de nossa sociedade sem pudor e sem clemência. Passamos 21 anos sob a batuta da brutalidade do regime do medo; vimos nossos sonhos no pau-de-arara, reduziram nossa dignidade a nada, assassinaram, torturaram sem distinção no período mais obscuro da nossa sociedade brasileira.
  O saldo final de 21 anos de ditadura foi uma sociedade despedaçada onde se construiu uma geração apática, alienada e sem o menor sentido de coletividade, sem sonhos e sem utopias. Portanto, um dos maiores crimes da ditadura foi destruir o futuro do país, sem jamais esquecermos dos mortos, torturados, renegados.
  Nunca mais coloquem nosso país nos porões ou no pau-de-arara para satisfazer os interesses espúrios de quem quer que seja.

HENRIQUE MATHIENSEN - Americana


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