A revelação do seqüestro de Lindalva (Carolina Dieckman), há pouco mais de uma semana, agradou muito aos telespectadores de “Senhora do Destino”, da Globo. Prova disso é que o capítulo em que Nazaré contou a Isabel que não era ela, mas Maria do Carmo, sua mãe biológica rendeu à emissora carioca 58 pontos de média no Ibope. Mas, apesar do sucesso, a cena deixou pelo menos uma pessoa decepcionada. Suzana Vieira, que vive a retirante nordestina Maria do Carmo, gostaria de ter tido a chance de contar à filha da ficção que era sua mãe.
A atriz chegou a dizer que ainda se sentia sufocada, apesar de entender que Aguinaldo Silva tenha tentado fugir de uma solução óbvia para a história. Ela torcia para que Maria do Carmo pudesse contar à filha desaparecida que era a sua mãe. Mas a novela está apenas no meio.
Esse tipo de “frustração” não é um caso tão isolado assim. A morte de Tomé, em “Cabocla”, também deixou o ator Eriberto Leão desolado. Os colegas de elenco fizeram até uma festa de despedida para o rapaz, inconformado com sua morte fictícia. Leão diz que se envolveu demais com o personagem. “Para mim, o Tomé existiu de verdade. Ele ainda existe em mim. ‘Cabocla’ fez tanto sucesso por causa disso: os personagens eram reais”, disse.
Muitas vezes, no entanto, os atores são azarados. Patrícia França disse no lançamento de “A Escrava Isaura” que “tudo o que não queria era que Rosa (sua vilã na trama da Record) morresse no final”, pois ela já tinha “morrido demais”.
Madonna também declarou que suspeitava “que muita gente gostaria de vê-la morta”, por isso suas personagens costumam morrer no fim dos filmes. Ricardo Linhares, autor de “Agora É Que São Elas” e co-autor de “Celebridade” e “Porto dos Milagres” (esta última também de Aguinaldo Silva), diz que é comum que os três principais envolvidos em uma novela (ator, diretor e autor) discordem dos rumos da história.
“Quase sempre, nós (autores) somos poupados de determinados comentários que ocorrem nos estúdios e nos corredores, mas é normal que as pessoas não pensem da mesma forma o tempo todo”. Apesar de dizer que o ator acaba se tornando um “co-autor” de seu personagem, Linhares é categórico ao defender o ponto de vista autoral.
“Quem sabe como conduzir melhor o personagem é o autor. Nós não sabemos exatamente como as coisas vão acontecer, mas sabemos aonde queremos chegar”, afirma.
Ricardo Linhares endossa a solução autoral dada pelo colega Aguinaldo Silva ao “caso Lindalva”. “Foi bem acertado. O fato de a Nazaré ter revelado o mistério para a Isabel rende mais cenas. Quando fugimos do óbvio, geramos situações inusitadas. Acho que todas as intérpretes saíram ganhando”.
É óbvio que o autor de “Senhora do Destino” não deu ponto sem nó. “Quis criar essa ‘conspiração’ em torno da Isabel para que a novela ganhasse mais tempo. Se a Maria do Carmo contasse sobre o seqüestro e elas se entendessem, a novela acabaria”, finaliza Silva.
O ator e apresentador Márcio Garcia discorda da opinião de Linhares, um dos criadores de seu personagem mais popular até hoje, o vilão e michê Marcos, de “Celebridade”. “Acho que o ator sente com mais proximidade o que se passa com seu personagem, se envolve mais. O autor é quem cria, mas ele tem mais personagens com que se preocupar”.
Mesmo assim, ele afirma que ficou satisfeito com o final de Marcos. “Achei certo que ele tenha morrido. Assim pagou suas dívidas. Teria ficado triste se o desfecho fosse diferente, embora eu saiba que muita gente tenha pedido que o Marcos tivesse um outro fim”.
AUTORES
Filha de Benedito Ruy Barbosa e uma das autoras da última versão de “Cabocla”, Edilene Barbosa afirma desconhecer casos em que a discordância entre “criador” e “criatura” tenha ocasionado problemas no desenvolvimento de uma novela. “Nas novelas do meu pai, nunca houve. Mas acredito que haja um certo conflito de egos, sim”.
Mesmo assim, a autora defende a autonomia, não apenas dos escritores, mas também da própria história. “O que eu e a Edmara (sua irmã e co-autora de ‘Cabocla’) sempre levamos em consideração, acima de tudo, é a necessidade do enredo”.
Essa posição levou as duas a decidir pela tão sofrida morte do personagem Tomé, interpretado por Eriberto Leão. “Na primeira versão da novela, o Tomé morria. Tentamos, desta vez, não matá-lo. Mas o problema foi que a trama estava tão bem amarrada, que não teve jeito”.