Domingo, 12 de Dezembro de 2004
Editorias
Capa
Cidades
Brasil
Internacional
Esportes
Polícia
Caderno Z
Colunistas
TodoDia Imagem
Fogo Cruzado
Charge
Opinião
Erramos
Editorial
Classificados
Cadernos
TodaGente
Triboz
Tevê
Veículos
Zzinho
Especiais
Social
Máxima
Dez
Barbarizando
Big'z
Novaz
Evidênciaz
Estiloz

Economia Internacional

Alberto TamerBush mantém política


Alberto Tamer

A manutenção de John Snow como secretário do Tesouro americano, e mais manutenção de quase todo o seu staff econômico, confirma que o presidente Bush não muda sua política neste segundo mandato. Déficit crescente e dólar em declínio não o preocupam muito, no momento. Ele quer é cumprir nestes dois anos as promessas de campanha que embutem, em si, uma expansão do déficit, pois implica também manter a redução e a devolução de impostos, que, juntamente com juros praticamente negativos, reativaram a economia. Um dos resultados foi que o desemprego caiu para 5,4%, um dos mais baixos da história, apesar de uma pequena reversão no último mês. Alguns economistas já falam em “pleno emprego”.

John Snow e seu staff foram mantidos, a nomeação de Mike Johanns, governador de Nebraska, para secretário da Agricultura, também segue a linha. O governo americano está preocupado porque, pela primeira vez em 50 anos, os EUA estão se transformando de exportador para importador líquido de agroprodutos. Há uma grita geral, não só por subsídios maiores, mas também por maior proteção, pois muitos grupos de agricultores tradicionais ou estão vendendo suas terras ou deixando de plantar. O ex-professor da Hoover Institution, em artigo publicado no jornal “The New York Times” e no “Estado de S. Paulo”, de quinta feira, defende o que chama de “autonomia agrícola para evitar uma dependência igual à do petróleo”.

Exagero? Sim, mas é isso o que se pensa hoje nos EUA, principalmente quando o déficit comercial passa de US$ 600 bilhões e continua crescendo.

Alerta para o Brasil - A permanência de Snow e da equipe econômica é um alerta para o Brasil, mesmo que os EUA não sejam nossos principais importadores agrícolas. É que ela vem acompanhada da mesma política de dólar fraco, embora Snow insista em falar, sem ficar vermelho, em dólar forte, e aumento dos déficits. A isso, soma-se a elevação dos preços do petróleo.

No boletim semanal desta semana, a Trevisan (www.trevisan.com.br) alerta com muita propriedade para o que chama “Ameaças externas à economia brasileira”. São o preço do petróleo e a desvalorização do dólar em relação a outras moedas. Lembra que, com crescimento da China e da Índia, a demanda deve aumentar. O cenário da desvalorização do dólar pode trazer dificuldades para nossas exportações, acrescenta. O aumento dos juros americanos atrairá parte dos investimentos hoje destinado aos países em desenvolvimento. “E se a desvalorização do dólar for abrupta (algo que os principais países tentarão evitar), pode trazer serias conseqüências para a economia mundial”, conclui o Boletim da Trevisan.

Fuga para outras moedas? - Mas os outros governos não estariam trocando parte de suas reservas em dólares por euros? Sim, mas muito pouco. As reservas em euros, em 2003, passaram de 13,5% para 19,7% da participação do euro nas reservas mundiais. O dólar continuará ainda por muito tempo sendo a reserva de valor.

“O dólar representa 63,8% dessas reservas em mãos estrangeiras, em confronto com 19,7% em euros”, lembra o WSJ, baseando em dados oficiais, inclusive o FMI, o BIS e o Banco Central Europeu. Mais ainda, quanto às transações cambias, ele representa 88,7% do total em confronto com apenas 37,2% do euro. Querem mais? O valor de mercado das bolsas em 2003 era de US$ 11,9 trilhões e apenas quatro trilhões de euros!

Nesta semana, o porta-voz do governo japonês, Yiroyeuki Hosoda, em rara entrevista coletiva, descartou categoricamente qualquer possibilidade de o Japão vender títulos do Tesouro americano, apesar da queda de 7,5% do dólar em relação ao yen no último mês. E da sua reserva cambial gigantesca de US$ 840 bilhões, nada menos que US$ 720 bilhões estão aplicados em títulos americanos!

Rendimento - A explicação é simples. Tomem nota. Além do peso da economia americana - US$ 11 trilhões e seu valor patrominal - “os títulos do Tesouro americano continuam rendendo mais do que os títulos em euros”. Sim, é isso mesmo. Um exemplo: um título americano de dez anos rende 4,14%, e um título da Alemanha semelhante, 3,87%, depois de feita a conversão do euro para o dólar. O rendimento dos papéis americanos tende a crescer, pois Greenspan está aumentando os juros, enquanto o Banco Central Europeu parou o seu em 2%. E precisa até reduzi-lo para reanimar a economia da eurozona.

Resumindo tudo o que dissemos, pode-se chegar a algumas conclusões: Bush não vai mudar sua política econômica. Ao contrário, na área comercial será ainda mais protecionista devido ao déficit comercial e às pressões internas. E Greenspan vai continuar aumentando os juros, gradativamente.

O dólar seguirá se desvalorizando, o que em si seria menos grave se o real brasileiro, mesmo com a intervenção do BC, não estivesse ainda muito valorizado. É um convite para aumento das importações e um entrave às exportações.

Um esclarecimento - Alguns leitores estranharam que eu tivesse dado na última coluna uma queda de apenas 7,9% para as commodities agrícolas. É o índice tradicionalmente levantado pelos técnicos do “Economist.” Mas esse é um “valor médio”. Para as commodities que exportamos, informa o Ministério da Agricultura, a queda do preço acumulado da soja até novembro foi de 30,92%, do algodão, 39,86% e do milho 15,7%. Ao mesmo tempo, o custo da produção da safra 2004/05 aumentou 60%. Com os mercados se fechando e o dólar desabando, vai ser difícil, muito difícil manter em 2005 as exportações de agroprodutos nos mesmos níveis extraordinários deste ano.


Alberto Tamer é jornalista e escreve sobre Economia Internacional às quintas-feiras e aos domingos.



Copyright TodoDia Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do TodoDia Online. Webmaster