Águas da Paulicéia
“O que todo labirinto sempre nos ensina não é onde está a saída, mas, sim, quais os caminhos que não nos levam a lugar algum”
Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo italiano
O planalto que hospeda a Região Metropolitana de São Paulo mais parece um pedaço do semi-árido nordestino: não tem água. Os rios que cruzam o perímetro da capital - área de 1.524 km2 - não correm de fora para dentro. Eles correm de dentro para fora. Ou nascem dentro dela.
O que fica na Capital, para 10 milhões de habitantes e para 1,4 milhão de instalações comerciais, industriais e de serviços, daria para o gasto de apenas um quinto disso. As águas têm de ser represadas. Ou simplesmente sugadas de bacias alheias por troncos de até 150 quilômetros de distância do marco zero da Praça da Sé.
Falam os índios - A esse bolsão de aridez, na crista da Serra do Mar, cercado do que restou (7%) da Mata Atlântica original, o povo tupi soprou nos ouvidos de Nóbrega e Anchieta o batismo apropriado de Piratininga.
São Paulo de Piratininga foi o nome original da cidade há exatos 450 anos. Que não se perca pela raiz: Piratininga vem de pira (peixe) e de tininga (secando).
O etimólogo Deonísio da Silva explica que não se trata de “charque de pescado”, mas de peixes que morriam ao sol em poças deixadas por transbordamentos de chuva forte.
Ano passado, as represas da região ficaram a 12% da capacidade instalada pelo homem.
Desperdício - Recurso natural escasso, as águas da Paulicéia padecem de dois graves desvios de curso: o coeficiente terrível de poluição dos respectivos mananciais e o coeficiente estúpido de desperdiço da água já tratada e distribuída.
Nos cálculos da Sabesp, estatal de excelência no campo do saneamento básico, os paulistanos jogam fora de 35% a 40% da água que lhes está sendo servida. Seja por desleixo impuro e simples, seja por uso e abuso de técnicas e máquinas inadequadas.
Em pleno semi-árido metropolitano, cevamos a cultura do desperdício na garupa da cultura da abundância. De resto, abundância grifada 54 anos antes da fundação de São Paulo pelo nosso primeiro repórter, Pero Vaz de Caminha: nesta terra dadivosa, em se plantando tudo dá, pela generosidade das águas que tem.
Só com choque - Os especialistas sustentam que a situação da água paulistana está com a contagem regressiva já ligada para o colapso de 2010. A população não cresce, mas a universalização da água e do esgoto ainda encara fila de espera de 2,7 milhões de pessoas. No esgoto, a coleta não é o desafio maior e, sim, o tratamento adequado do esgotado coletado. No tratamento, o déficit ainda é de 67%. Sem tratamento do esgoto, fica cada vez mais penoso e oneroso o tratamento da água potável.
Há estudos dando a dica de que só um choque tarifário poderá financiar a expansão da rede de saneamento metropolitana e, ao mesmo tempo, cortar pela metade a margem de desperdício coletivo.
Lembram-se do apagão da energia?
Queda-de-braço - Ressalva tempestiva: a energia respeita o choque tarifário e/ou o racionamento físico. Já a água pode ser previamente estocada. Ou sugada de poços artesianos modernos. Além de, tal como no fio da luz, a artimanha do encanamento clandestino.
De qualquer modo, a crise da água já está contratada. Só não teremos o peixe (pira) secando (tininga) na terra porque os rios poluidos estão mortos desde suas próprias nascentes.
Joelmir Beting é jornalista e escreve sobre Economia de terça a domingo no TodoDia
www.joelmirbeting.com.br
E-mail: fale@beting.com.br
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