Europa é a salvação
A reunião do Fórum Social de Davos, que termina hoje, deu uma atenção exuberante e quase dramática à ousada política monetária e fiscal dos EUA e muito pouca atenção a quem poderia substitui-lo em caso de tudo dar errado, como tantos previram. Esqueceram de chegar à conclusão óbvia de que a única alternativa seria uma forte retomada do crescimento europeu, pouco viável se tudo continuar como está e não forem feitos esforços para tirar a Eurozona da letargia que já dura três anos. O que importa não é discutir se os EUA vão dar certo ou não, mas o que acontecerá depois se os déficities orçamentário e comercial de US$ 1 trilhão tornarem a política atual insustentável.
“O crescimento econômico mundial está dependendo (como nos últimos seis anos) dos EUA. Podemos criticar o governo americano por sua política econômica insustentável, mas é a economia desse país que está puxando a economia mundial. E não vejo outro lugar de onde esse crescimento pode sair”.
Quem faz essa afirmação é nada menos que Laura Tyson, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca durante o governo Clinton, os oito anos de exuberante crescimento, e atual diretora da respeitadíssima London School of Economics, de Londres. Ela acredita que os países da Eurozona e o Japão devem crescer 2% neste ano, a China vai continuar em seu ritmo feroz de aproximadamente 9%, mas a sua economia é pequena demais para substituir os EUA como locomotiva global.
A coluna segue sua linha de raciocínio, e conclui: só a União Européia, ou melhor, a Eurozona - pois a Grã-Bretanha fora do euro cresceu 2,1% em 2003 - com um PIB muito próximo dos EUA, poderá promover a retomada do crescimento mundial.
E aqui a outra constatação, não da coluna mas das personalidades presentes em Davos: a economia americana está crescendo alimentada perigosamente pelos déficities orçamentário e comercial. Isso é grave, pode durar ainda por algum tempo. Quanto? Ninguém pode prever. A última onda durou quase dez anos, mas em condições diferentes. Hoje, todos temem o pior.
Mais assustador ainda, dizem eles, o aumento do consumo interno americano que absorve o excedente da produção mundial com déficities comerciais astronômicos, está decorrendo do maior endividamento desses mesmos consumidores. Isto é, com juros reais negativos, eles compram mais a prazo e se endividam mais, como já vinham se endividando antes, mesmo com juros maiores, não de 1% mas 6% ao ano. O Banco ING estima que o endividamento interno, das famílias americanas em cartões de crédito, bancos, crediários, etc., chega a mais de 80% do PIB, que é da ordem de US$ 10 trilhões!
Ou a Europa cresce ou ...
As críticas à política econômica americana, que predominaram no cenário de Davos, esvaziam-se diante da ausência de soluções. Está bem, Greenpan e Bush estão sendo por demais ousados, não dá para continuar assim, etc. etc. etc., mas qual é a saída? Vamos confiar nos US$ 1,3 trilhões do PIB da China, onde a enorme maioria dos 1,2 bilhões de habitantes vive uma vida miserável, às custas do governo ou sustentando-se basicamente do que plantam, e algo aí em torno de 150 ou 200 milhões, que fugiram para as cidades, têm o hábito de consumir? Vamos confiar numa economia que cresce a 9% e atrai US$ 50 bilhões por ano a fim de produzir e exportar para....os EUA e a Europa? É uma pilhéria. Ninguém pode contar com a China para sustentar ou mesmo animar a economia mundial. Ao contrário, ela cria graves problemas para os países emergentes - nós, o Brasil... - na medida em que compete com eles no mercado mundial, exportando mão-de-obra barata, tecnologia, que não criamos, e incentivos, com regras firmes, que nos recusamos a dar.
E o que fazer? Talvez os debatedores de Davos deveriam ter dado a máxima importância ao que está acontecendo na União Européia, principalmente após a entrada em vigor do euro, em 1999, e a retração americana. Os números oficiais do PIB da Eurozona simplesmente assustam. Seguindo na esteira do crescimento americano, entre 1998 e 2000, o PIB da eurozona cresceu em média 9,6%. A partir de 2000 desabou de 3,5% para 1,5% em 2001, apenas 0,9% em 2002 e no ano passado ter ficado em torno de 0,5%, de acordo com previsões oficiais. Ao mesmo tempo, a Inglaterra, que não aderiu ao euro, manteve a média de 2,5% a 3% ao ano. Ou seja, nos três últimas anos, nada se fez na Eurozona para estancar a recessão ou estimular o crescimento, agora ameaçado pelo euro forte. O seu impacto inicial já está sendo sentido, na França (exportação igual a 30% do PIB) e na Alemanha (36%). É só o começo. Nesta semana o Eurostat, o órgão oficial de estatística da comunidade confirmou que o superávit comercial da Eurozona caiu de 9.6 bilhões de euros, em outubro, para 5 bilhões de euros em novembro do ano passado.
E agora? Agora o desafio europeu transformou-se em desafio mundial. Se os EUA não derem certo e a Europa permanecer como está, podemos nos preparar para anos de grande tensão. Por isso, insisto no que disse na última coluna: vamos nos fortalecer este ano, enquanto dura, para enfrentar possíveis crises que Davos anuncia.
Alberto Tamer é jornalista e escreve sobre Economia Internacional às quintas-feiras e aos domingos - www.pergunteaotamer.com.br
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