Economia: ética e engenharia
A primeira vez que ouvi falar de e tomei contato com Amartya Sen foi no início da década de 1970 quando cursava o programa de doutorado em Stanford e meu orientador, informado que eu tinha interesse em estudar Decisões em Grupo, indicou-me a obra de Amartya Sen: “Escolha Coletiva e Bem Estar Social”. Achei o tema apaixonante, por exemplo, estudar como nossa escolha coletiva por meio de eleições livres nos conduz mais ou menos rapidamente a um estado de bem estar social. Embora a matemática de Sen fosse bastante complicada, o que me impressionou mais foi que Sen, além do rigor matemático para chegar a suas conclusões, propunha já em 1970, questões éticas muito sérias e muito pertinentes para o debate de economistas e administradores.
Em seu livro “Sobre Ética e Economia” Amartya Sen argumenta que a Economia tem duas origens: A Ética e a Engenharia. A tradição ligada a Ética remonta a Aristóteles que no início de sua obra “Ética a Nicômaco”, associa o tema da economia aos fins humanos. “O estudo da economia, embora relacionado com a busca da riqueza, está ligado a objetivos mais profundos e básicos. A riqueza não é o bem que buscamos, sendo ela apenas útil no interesse de outras coisas”. Nesta abordagem há dois aspectos que a economia deve tratar: o primeiro é a questão da motivação humana e a questão essencialmente ética de “Como devemos viver”?. A segunda é a questão da realização social, “ainda que valha a pena atingir esse fim para um homem apenas, é mais admirável e mais divino atingi-lo para uma nação”.
A outra origem da economia é relacionada com a abordagem da engenharia. Essa abordagem caracteriza-se por ocupar-se de questões primordialmente quantitativas, de cálculo de eficiência, daquilo que Amartya Sen (ou seu tradutor) chama de questões de logística. Essa abordagem considera que os fins são dados claramente, e o objetivo é encontrar os meios apropriados de atingi-los. Essa abordagem foi desenvolvida de fato por alguns engenheiros dedicados a questões econômicas, como Leon Walras economista do século XIX que resolveu muitos problemas técnicos nas relações econômicas. A abordagem engenheira também se relaciona aos estudos econômicos que partem de análises estatísticas e que permitiram todo avanço da econometria. Todos os estudos de insumos e produtos, coeficientes tecnológicos e vantagens comparativas provem desta origem da economia, e o desenvolvimento da “teoria do equilíbrio geral”, que trata da produção e troca nas relações de mercado, trouxe à luz inter-relações importantes que demandam análise altamente técnica.
Dada a natureza da economia, não surpreende que tanto a origem relacionada com ética como a baseada na engenharia tenham grande poder de convencimento. Evidentemente, nenhum dos gêneros é totalmente puro; há necessidade de equilíbrio das duas abordagens. Amartya Sen argumenta que a economia moderna foi empobrecida de maneira substancial pelo seu afastamento da questão ética. Mas o reverso também é verdadeiro. O estudo da ética só será eficaz se apropriar-se dos raciocínios e dados do tipo comumente usados em economia.
Para dar apenas um exemplo de como os dois aspectos da economia devem ser considerados, considere a análise das causas dos reais e trágicos problemas de fome no mundo moderno; assunto que Amartya Sen estudou a fundo e que lhe valeu o Prêmio Nobel de Economia.
O fato de a fome coletiva ocorrer mesmo em situações de grande e crescente disponibilidade de alimentos pode ser melhor compreendido pelas técnicas “engenheiras” da economia, é possível mostrar que as fomes coletivas tem pouquíssima relação com a oferta de alimentos, mas sim com antecedentes em outros pontos da economia. Certamente o debate e a compreensão destes fenômenos fica mais produtivo se dermos uma atenção maior e mais clara às considerações éticas que moldam o comportamento e o juízo humano. Para concluir com um problema nosso, sabe-se do lado “engenheiro” que a guerra fiscal entre estados e municípios, prejudica o desempenho global da economia, mas, pergunto eu, o que tem o lado ético da economia a dizer sobre esta questão? Gostaria de ver este lado mais discutido.
Michael Paul Zeiltin é engenheiro civil, ex-secretário de Transportes do Estado no Governo Mário Covas e professor titular da Eaesp-FGV, e escreve aos domingos. Email: zeitlin@fgvsp.br
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