Em uma sala ampla de seu escritório, localizado em Moema, na capital paulista, o apresentador Raul Gil tem, todo sábado, um encontro marcado com ele mesmo. Ali, acompanha a exibição do “Programa Raul Gil”. Divide seu olhar entre os sete aparelhos de TV - o maior deles sintonizado na Record, os outros na concorrência - e a tela do computador, onde verifica o Ibope de todas as emissoras. Aos 66 anos, 42 de carreira, Raul Gil explica o motivo de tanta “neura”: “O Ibope é meu patrão. Todo mundo fica de olho nele: o dono da emissora, os anunciantes. Ele manda em todo mundo”.
Em seu cardápio nas tardes de sábado, Raul oferece ao público uma fórmula que há anos faz sucesso: o show de calouros. E, às vezes, “atropela” a liderança global. “Na semana passada, ganhei do ’Fama’”, afirma. Mas também diz que não “entende” alguns índices.
“Outro dia, a Globo exibiu um filme de 1986 que deu 23 pontos no Ibope. O filme estava até descolorido!”. Raul Gil prefere apostar no seu retorno de “audiência corpo-a-corpo”. Gosta de sair às ruas e conversar com as pessoas. É abraçado e elogiado. Às vezes, fica até constrangido.
“As pessoas me vêem e começam a tremer. Elas me abraçam e choram”. Mas não foi sempre assim. “Depois de 1995, com essa história de eu respeitar os calouros, (o assédio) aumentou”. Raul virou celebridade. Ele brinca: “Dizem que eu sou um ícone da TV brasileira”.
Basta uma visita ao passado para saber porque a relação do apresentador com os calouros é tão íntima. Raul vê um pouco dele em cada um que pisa o estúdio da Record às quartas, quando o programa é gravado. Ele próprio foi um freqüentador desses programas, durante oito anos, na época em que todas as rádios tinham seu auditório.
Filho de uma família de imigrantes espanhóis, Raul Gil nasceu no bairro do Ipiranga. “Naquele tempo, chamavam de vila, mas era um cortiço. Cheio de gente”. Era o penúltimo de oito irmãos. A mais velha, Carmem, era cantora. Ela morreu cedo, aos 22 anos, supostamente vítima de tuberculose, logo após voltar da Argentina. Tinha ido participar de um filme.
Raul cresceu com a sensação de que a irmã tinha passado para ele, ao morrer, o “dom de cantar”. Conta que aos 15 anos virou pasteleiro. “Ajudava meu pai a fazer os pastéis e, depois, saía para vendê-los”.
Os fregueses sabiam que o garoto era afinado e meio que chantageavam. “Eles diziam: eu compro o seu pastel, mas tem de cantar”, relembra. Assim, com os aplausos na rua e brincando com o seu microfonão feito com lata de óleo, ele decidiu encarar os palcos. A experiência não foi das melhores. Foi gongado várias vezes.
Com esforço, conseguiu se profissionalizar e gravou discos. “Sempre pensei em ser um grande cantor e nunca consegui”. Foi meio por acaso que Raul Gil virou apresentador de TV. Em 1967, substituiu José Vasconcelos em um programa na Excelsior. “Não pagaram, e ele disse que não ia trabalhar. Então, foram me buscar na boate La Vie en Rose, onde eu fazia imitações”. Virou tudo isso que a gente vê na TV. Há dois anos, teve seu auge: liderava na audiência e passou a ser sondado pela concorrência. Veio o convite da Globo, que aceitou pagar R$ 1,8 milhão por mês. Mas havia uma problema: Raul insistiu na cláusula que define o horário do programa, e a Globo não aceitou. “Achei que iam me contratar e me colocar de escanteio”.
Recentemente, foi sondado outra vez: Marlene Mattos o queria na Band. “Mas não gosto de quebrar contrato. Acho isso um assunto sério. Eu trabalhei em todos os canais e nunca fechei portas”.
Esse jeitão simples Raul carrega para o dia-a-dia. Acorda por volta das 11h e vai para o escritório, onde passa a tarde se não for dia de gravação. Gosta de sair para jantar e, depois, vai ao bingo ou à locadora e leva um filme para casa. Às quintas, joga futebol com um grupo de amigos. E é corintiano de coração. No domingo, curte cozinhar.
Apesar de nunca ter imaginado que trabalharia a essa altura do campeonato, quer distância da aposentadoria: “Sou igual a bicicleta, se parar eu caio”.