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ECONOMIA
Sinais de desaquecimento
Antonio Delfim Netto
Já são bastante nítidos os sinais de desaquecimento da economia, devido ao desestímulo causado em setores importantes do empresariado diante da dificuldade do governo em corrigir sua política monetária. Não se trata ainda de desistir dos investimentos, mas de um adiamento nos empreendimentos que ajudariam a manter o crescimento econômico num ritmo um pouco acima dos medíocres 3% atuais. Muitas empresas continuam tocando os projetos, mas claramente diminuíram o ritmo de sua execução, com isso deixando de ampliar a capacidade de produção, contagiadas pelo excesso de cautela ou falta de definição do governo. Isso nos leva não apenas à perda do ano de 2005, mas à perspectiva de uma queda ainda maior no dinamismo da economia em 2006. Essa política de reduzir o ritmo do crescimento para obter meio por cento de resultado na inflação vai destruir os avanços que o País obteve para se livrar da armadilha que tolhe a economia brasileira desde 1995.
Nossos índices econômicos são vergonhosos em muitos aspectos: somos o país de menor crescimento econômico dentre as nações emergentes; temos a maior inflação e uma das piores relações Dívida Líquida/PIB (Produto Interno Bruto); e ainda sustentamos os tristes recordes da maior taxa de juros do mundo e da maior carga tributária, se comparada com os países de nível equivalente de renda per capita. Em “compensação”, a burrice somada das políticas de juros e câmbio faz com que tenhamos a moeda mais valorizada do mundo...
Apesar da pequena melhora dos últimos dois anos, a relação Dívida Líquida/PIB de 52% e a carga tributária de 38% do PIB trabalham fortemente como fatores inibidores dos investimentos nos setores produtivos e da própria redução mais rápida da inflação. Na medida em que o Banco Central despreza a real oportunidade de reduzir os juros (como na última decisão do Copom - Comitê de Política Monetária - que manteve inalterada a Selic, com o juro real subindo para 14% ao ano), enredamo-nos na armadilha que vai fazer a economia brasileira patinar mais alguns anos.
Vejo muita comemoração pelo avanço das exportações que sem dúvida é importante, mas as pessoas parecem esquecer que ele foi produzido pela desvalorização cambial de 1999, depois de longos períodos de retrocesso, ajudado pela elevação dos preços das comodities (efeito da baixa taxa de juros internacional e da desvalorização do dólar americano) e da própria expansão do comércio mundial. O problema é que a atual política de juros altos nos empurra na direção contrária ao crescimento do nosso comércio exterior e da economia, uma repetição da tragédia de 1994/1998.
Insisto que só vamos começar a nos libertar dessa armadilha realizando um forte movimento na direção do equilíbrio fiscal, para antecipar a necessária baixa na taxa de juro. Temos que mostrar a perspectiva real de zerar o déficit nominal, pela via do corte das despesas de custeio do Estado brasileiro que não cabe mais dentro do PIB! Acredito que voltaremos a ser um “país normal”, um país em crescimento, um país com a carga tributária “normal”, se insistirmos na solução do problema fiscal, na redução da relação dívida/PIB e na ênfase exportadora.
Não há necessidade de insistir que esta é uma receita de difícil execução, porque é mesmo, se fosse fácil já teriam feito, mas não vejo melhor alternativa...
Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PP e escreve aos sábados.
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