A esperada primeira audiência do julgamento de Saddam Hussein e de seus sete colaboradores mais próximos durou apenas três horas, suficientes para que os acusados deixassem claro que não reconhecem o tribunal e para que se declarassem inocentes. Após os depoimentos dos acusados, o Tribunal Especial adiou o processo para 28 de novembro, após um pedido neste sentido dos advogados de Saddam, informaram fontes da defesa. O chefe da equipe defensora, Khalil al-Duleimi, já tinha advertido anteontem que pensava em pedir um adiamento ‘‘em três meses para poder preparar seus argumentos, pois reclamou de não ter tido tempo para isso e de não ter sido autorizado a se reunir com Saddam para preparar uma defesa conveniente.
O ditador deposto do Iraque iniciou seu depoimento recitando, de cor, um verso do Corão, para dizer que, ainda que todos seus inimigos se aliem contra ele, manterá a fé em Deus, o que evitará, segundo o verso que declamava, qualquer perigo. ‘‘Em nome de Deus, o clemente e o misericordioso. Disseram aos crentes que tinham se reunido contra eles e temeram. Mas Deus aumentou sua fé e disseram ‘Deus nos protegerá’’, recitou Saddam com gesto desafiador ao tribunal.
Então, o ex-presidente foi interrompido pelo presidente do tribunal, Razgar Mohammed Amin, que não permitiu que ele continuasse declamando o texto. Saddam Hussein, o único dos oito acusados que estava vestido com terno, recusou-se a reconhecer o tribunal que o julga e insistiu que é o presidente do Iraque.
O governante deposto se negou ainda a pronunciar sua identidade completa perante o tribunal, em particular sua procedência tribal. ‘‘Não reconheço você nem o tribunal que preside’’, disse a Mohammed Amin. ‘‘Também não reconheço a agressão contra o Iraque, e conservo meu direito constitucional como presidente do Iraque de não responder a suas perguntas, pois o que foi construído sobre o vazio vazio está’’, afirmou.
Com uma longa barba, Saddam Hussein voltou a se mostrar, como em depoimentos anteriores, muito desafiador diante do tribunal. Assim, após sua primeira declaração, o réu se negou a sentar-se quando o presidente ordenou, e afirmou que ‘‘nunca se cansa’’ e que estava acordado desde 2h da madrugada esperando o início do julgamento.
Os outros sete responsáveis pelo governo que depuseram junto com ele, vestidos com o traje tradicional árabe, protestaram no tribunal porque ‘‘os responsáveis pelas medidas de segurança’’ tinham impedido que eles entrassem na sala com o turbante que usavam. ‘‘O turbante é o símbolo da minha identidade árabe’’, disse Awad Al Bandar, antigo magistrado do Tribunal Revolucionário, ao presidente do Tribunal Especial.
Diante dos protestos, Mohammed Amin decidiu aceitar que os acusados colocassem os turbantes que tinham sido retirados na entrada da sala.
O primeiro depoimento de Saddam no tribunal foi recebido com uma mistura de tristeza e orgulho por seus familiares que vivem em Amã. Fontes ligadas à família afirmaram que Rana e Ragad Hussein, filhas de Saddam, choraram ao ver o primeiro depoimento de seu pai, mas manifestaram orgulho das respostas dadas por ele num tribunal que não reconhecem.