Quinta-feira, 20 de Outubro de 2005
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Alberto TamerNosso desafio


Alberto Tamer

Há novidades que preocupam, na economia mundial. Pressões inflacionárias levam os bancos centrais a aumentarem os juros e, conseqüentemente, a conter o crescimento a médio prazo. O fato novo é que essas pressões começam agora a pesar no bloco econômico mais frágil, a União Européia, com um PIB de US$ 10 trilhões, muito próximo ao dos Estados Unidos.

Na terça-feira, o Eurostat, órgão oficial de estatística da comunidade, informou que a inflação nos 12 países da Eurozona saltou de 2,2%, em agosto, para 2,6%, em setembro, último dado oficial. Nos 25 da comunidade, ficou em 2,5%. Em ambos os casos, uma alta surpreendente, pois estava contida em torno de 2,1%. A causa principal continua sendo os preços do petróleo que, ao contrário dos EUA, pesam muito numa economia mais rígida e totalmente dependente de sua importação.

O setor transporte registrou uma alta de 6,4%, álcool (bebidas) e tabaco, 5,6%, e moradia (incluindo gastos de manutenção), 5,5%. E ainda não entrou aqui o aquecimento interno, que começa em novembro. Com esse resultado, confirma-se que o Banco Central Europeu não só vai manter os juros em 2% pelo 12º mês, mas poderá até mesmo elevá-lo em 0,25%, no mínimo, o que seria uma verdadeira ducha de água fria numa economia já congelada.

EUA também - Mais importante, porém, é que os mesmos sinais acentuam-se dia a dia nos EUA, maior mercado mundial. O último dado sobre a alta dos preços pagos pelo produtor, em setembro, divulgado também na terça-feira, mostra uma alta de 1,9%, a maior em 15 anos. E essa alta deve passar, pelo menos em parte, para os preços a serem pagos pelo consumidor. O preço do petróleo que vinha sendo absorvido pelo aumento da produtividade começa a fazer-se sentir. Isso já levou Greenspan a alertar que, pela primeira vez, a alta do preço do petróleo chega a incomodar. O juro básico americano deve ser novamente reajustado em 0,25 pontos, na reunião do próximo dia 1º de novembro. Isso não chega ainda a preocupar, pois o consumidor americano continua comprando. Na última semana, as vendas nas lojas aumentaram 0,4% e 1% nos grandes magazines. O juro hipotecário cobrado na compra de imóveis também continua relativamente baixo, algo em torno de 4,5% ao ano, variando, mas pouco, com o prazo de financiamento e as condições do contrato. Tudo indica que nestes últimos dois meses do ano a economia americana continuará crescendo no ritmo atual de 3,5% a 3,7%.

Isso contrasta com os parcos 1% ou 1,3% na União Européia, onde a economia dos principais países, França e Alemanha, sustenta-se nas exportações feitas basicamente para... Os EUA e a Ásia leia-se China... Um círculo nada virtuoso, mas vicioso.

Combustíveis do crescimento - Resta a economia chinesa que, crescendo desafiadoramente a 9%, é hoje o combustível da fornalha mundial. Por enquanto há ainda muito carvão para queimar, contrabalançando um pouco a água fria jogada nas economias européia e americana pela arrancada dos preços do petróleo. Paradoxalmente - e haja paradoxo! - é esse mesmo crescimento chinês que tem provocado forte aumento da demanda e sustentado a alta do preço do petróleo, todo ele importado. É uma que só tende a acentuar-se nos próximos meses, devido ao aumento do consumo provocado pelo inverno no Hemisfério Norte, a partir de novembro. As empresas de petróleo praticamente já fizeram seus estoques de inverno, mas se o frio for muito intenso e prolongado, mais petróleo terá de ser consumido nos EUA, na Ásia e na Europa.

E nós? - E o Brasil, como fica nesse cenário de tintas cinzentas? Afinal, não temos inverno digno do nome, somos praticamente auto-suficientes, a inflação está contida... Sim, não falta petróleo, mas a crise atual, se é que se pode chamar de crise, não é de fornecimento, mas de preço. Eles sobem internamente com a alta vigente no mercado internacional, e em dólares. Assim, podemos esperar uma pressão maior sobre a inflação, o que está evidente nos reajustes dos preços administrados, entre eles o da energia, neste momento os vilões da inflação.

E aqui mais um paradoxo: quanto mais obtivermos o desejado crescimento econômico, com um PIB maior de 3%, maior será o consumo de energia, com destaque especial para os combustíveis derivados do petróleo.

Sem inverno e sem ferrovia - Felizmente não temos a necessidade de queimar óleo para aquecimento num inverno que não existe, mas, ao contrário da Europa e dos EUA, o transporte da quase totalidade da produção brasileira -principalmente agrícola, por causas das grandes distâncias dos centros consumidores e dos portos- é feito por rodovias precárias.

O Brasil é um país de grandes horizontes que, por incrível distorção, abandonou o transporte ferroviário quando ainda não dispunha de petróleo, na contramão dos demais desenvolvidos que poderiam dar-se ao luxo de relegar as ferrovias para um segundo plano. Só que não o fizeram, a ferrovia está intensamente na base do seu sistema de transporte, implementando a competividade deles no confronto com os exportadores brasileiros, já sufocados pelo real valorizado. E nem estamos falando dos portos deficientes e lerdos...

Ainda há folga - De qualquer forma, neste novo cenário, a inflação, esta nossa velha conhecida, parece estar de volta à cena, pressionando as taxas de juros e freando o crescimento, temos ainda fôlego para evitar uma retração econômica mais acentuada. Por que? Simplesmente porque vivemos mais ou menos à margem da economia mundial. Os efeitos negativos somente serão sentidos no segundo trimestre de 2006. Mas enquanto isso, no nosso isolamento desconfortável, para manter este instável equilíbrio entre inflação e crescimento, continuaremos usando da política monetária de juros altos para conter preços e, de forma perversa, também o crescimento. Um crescimento possível ainda hoje devido ao avanço das exportações e à expansão econômica dos nossos parceiros comerciais, que alimentam a produção voltada para o mercado externo. Um crescimento possível apenas pela expansão da economia mundial. E será por aí que a inflação nos países desenvolvidos chegará a nós. Por isso, é preciso acordar para este novo cenário mundial que temos de enfrentar. Não amanhã. Hoje. Ou ontem, se pensarmos no pesado entrave do câmbio nas exportações.


Alberto Tamer é jornalista e escreve sobre Economia Internacional às quintas-feiras e aos domingos.



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