Terça-feira, 11 de Julho de 2006
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COMPARAÇÃO

Inevitável analogia


PAULO SKAF

Para os brasileiros, a eliminação nas quartas-de-final da Copa do Mundo teve um peso acentuado. Aliás, nossos torcedores não admitem sequer uma performance brilhante da Seleção, em qualquer torneio, sem que o título seja conquistado. Entretanto, antes de apenar nossos 190 milhões de torcedores por atitude antiesportiva, seria prudente tentar entender as razões do inconformismo. Diagnostico dois bons motivos.

O primeiro é que já temos perdido de goleada para a história. Tomamos “chocolates” em 2005 no jogo da expansão dos PIB’s (Produtos Internos Brutos). Perdemos para Estados Unidos, Europa, Ásia, combinado das nações emergentes, latino-americanos e caribenhos. Ah, sim, vencemos o Haiti, pelo modesto placar de 2,3% de crescimento econômico contra algo em torno de 1,5%. Temos marcado gols contra a prosperidade, como o câmbio sobrevalorizado, um dos responsáveis pela dificuldade dos setores produtivos “canarinhos” de vencer as retrancas protecionistas dos mercados “adversários”.

O poder de investimento de nossas empresas está sempre impedido. Não conseguimos superar uma defesa que, como nenhuma, sabe fazer a “linha burra” (literalmente...), composta pelos truculentos zagueiros dos juros superlativos, dos impostos exagerados e da escassez de linhas de crédito adequadas. Nossos “cartolas”, a despeito de administrarem fabulosa receita tributária, não conseguem estruturar equipe capaz de vencer no campo socioeconômico. Cerca de 10% do time da PEA (População Economicamente Ativa) estão sentados no banco de reservas do desemprego. E sete a cada dez novas empresas das categorias de base (as pequenas e micro) “param de jogar” precocemente.

É por isto que estamos na segunda divisão da economia global. Somos emergentes, mas, se não reagirmos, corremos risco de cair para a “terceirona”. Também pecamos num fundamento essencial do desenvolvimento: a distribuição da bola da renda. De acordo com relatório do Bird (Banco Mundial), o País ocupa, dentre 129 nações, a 125ª posição na tabela da desigualdade. Estamos à frente apenas de Suazilândia, República Centro-Africana, Botsuana e Namíbia. Como se não bastasse, os brasileiros são vítimas do jogo violento da criminalidade. Ora, como é possível não ganhar uma Copa do Mundo, promovendo nossa redenção por meio do futebol, orgulho da pátria?

Porém, no início deste comentário, eu disse que identificava dois motivos pelo nosso inconformismo diante da não conquista do título. Pois bem, o segundo é a consciência da qualidade de nosso time, sem qualquer favor o que tem melhor elenco! É mais difícil perder quando temos tudo para ganhar. E por que a nossa Seleção ocupa, há tanto tempo, o primeiro lugar no ranking da Fifa e na bolsa de apostas de Londres? Além dos valores individuais, sua caminhada vitoriosa, com tropeços como o deste ano, deve-se à capacidade dos técnicos de aproveitar as potencialidades dos jogadores, tornando-as parâmetros para os esquemas táticos.

Na Alemanha, talvez tenha faltado espírito de equipe, motivação, preparo físico, capacidade de reação e estratégia. Diante destes problemas, é inevitável uma instigante analogia, pois também nas áreas econômica e geopolítica temos a melhor seleção: mercado potencial de 190 milhões de habitantes, clima propício, recursos naturais abundantes, a maior biodiversidade do planeta, infinitas terras agricultáveis, a mais moderna e maior indústria da América Latina, agronegócio avançado, sociedade na qual convivem em paz todas as etnias e credos e povo talentoso e com imensa capacidade de trabalho. Porém, como a Seleção desta Copa de 2006, também estamos sendo derrotados por nossos próprios problemas.

O que nos falta? Simples: não temos estratégia de jogo capaz de fazer com que nosso imenso potencial nos transforme numa nação vencedora. Entretanto, assim como conquistamos cinco títulos mundiais em antológicas performances da Seleção em Copas do Mundo, nossa terra pode ser campeã na economia global. Basta que tenhamos a firmeza cívica de dar cartão vermelho à mesmice!

Paulo Skaf é empresário e presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo)


PÃO FRANCÊS

Ingrediente brasileiro


JOÃO EDUARDO PASQUINI

Segundo informações divulgadas pelo Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), no início do mês passado, os estoques mundiais de trigo atingiram os menores níveis que se tem registro. O clima seco vem gerando significativa queda na produção das lavouras norte-americanas, o que tem causado aumento nas cotações internacionais do trigo.

Na Argentina, que é o maior fornecedor de trigo para o Brasil, foi colhida no ano passado a menor safra dos últimos anos: 12,5 milhões de toneladas. Para este ano, este país vem enfrentando dificuldades em semear o trigo, devido à falta de chuva. Somados os problemas oriundos da seca, à limitação da exportação de trigo em grão, decretada pelo governo Néstor Kirchiner, a cotação do trigo argentino deu um grande salto, estando cotado em US$ 165 Fob-Argentina, e chegando ao Brasil no valor de, aproximadamente, US$ 195. Devido aos problemas da Argentina, o Brasil terá de comprar trigo em outros países como Estados Unidos e Canadá, pagando caro pela sua ineficiência de produção: em torno de US$ 250 a US$ 290,00 a tonelada.

Este quadro revela que poderemos ter, em um futuro próximo, uma crise de falta de trigo. E quem pagará a conta pela baixa produção brasileira de trigo serão os consumidores, que pagarão em torno de 40% a mais por produtos derivados do trigo como pão, macarrão e biscoitos.

Falando em produção brasileira, há que se salientar as estimativas da Secretaria de Agricultura do Estado do Paraná, que é o maior produtor de trigo do Brasil. Os dados não são nada alentadores. O Paraná produziu no ano passado 2,8 milhões de toneladas de trigo. Os preços baixos, causados pelo pouco interesse dos moinhos brasileiros em comprar o produto nacional, somados ao alto risco da cultura, cujos produtores estão descapitalizados, e perdendo interesse pela cultura, gerou redução de investimentos no cultivo de trigo.

Assim, o Paraná deverá colher este ano 36% a menos, ou seja 1,7 milhões de toneladas. Com isso, o Brasil terá de buscar no estrangeiro, aproximadamente, 80% do trigo que irá consumir, depositando no caixa dos triticultores estrangeiros mais de R$ 1,5 bilhões, dinheiro que deixará de circular na economia brasileira. Se empregado aqui, estaria contribuindo para a geração de emprego e renda para pequenos produtores brasileiros.

Nos últimos dias, a imprensa nacional tem veiculado reportagens referentes ao projeto de lei do presidente da Câmara Federal, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que prevê a obrigatoriedade de adição de fécula/amido de mandioca na farinha destinada ao pão francês. Alguns entrevistados têm tentado denegrir a imagem dos deputados que integram a comissão especial destinada a proferir parecer sobre o projeto de lei, alegando que 80% deles têm ligação com o setor da mandioca. Afirmamos, com segurança, que se está tentando confundir e manipular a opinião do consumidor.

Devemos esclarecer que não temos conhecimento de nenhum deputado que tenha, ou teve, qualquer ligação com o setor. Muito pelo contrário, o presidente da comissão especial, deputado federal Moacir Micheletto, que tem sua base no município de Assis Chateaubriand, se orgulha de dizer que seu município é o maior produtor de trigo do Brasil.

Assis Chateaubriand lidera a produção nacional de trigo, e, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), aumentou sua área cultivada em 10.000 ha, o que levou a um acréscimo de 28% na produção, fazendo com que ultrapassasse Tibagi (PR) e Palmeira das Missões (RS), os dois maiores produtores de trigo de 2004. As 96 mil toneladas produzidas em Assis Chateaubriand representam 2,06% da produção nacional e 3,47% da paranaense.

O setor de mandioca, no qual 75% de seus produtores têm áreas com menos de 10 hectares, e gera mais de um milhão de postos de trabalho no Brasil, poderá, com a aprovação deste projeto, contar com mais de 100 mil novos brasileiros envolvidos com a cultura, a partir dos postos de trabalho que propiciará. Isso deve ser dito a pessoas ligadas à indústria do trigo, que alegam que este projeto poderia causar 100 mil desempregos no setor do trigo. Essas são conjecturas que não se comprovam, pois hoje, no Brasil, os moinhos de trigo geram, aproximadamente, 10 mil empregos; e, no campo, por ser a cultura totalmente mecanizada, há poucos agricultores envolvidos com a atividade.

Quando se tenta a imagem dos deputados, assim como a viabilidade de adição do amido/fécula de mandioca à farinha de trigo, o que se percebe é que há desinformação dos interlocutores. No ano de 2002, quando houve falta de trigo no mercado internacional, e os preços aumentaram muito no Brasil, os setores de panificação, macarrão e biscoitos compraram mais de 250 mil toneladas de fécula/amido de mandioca para adicionar em seus produtos, que, industrializados, foram consumidos em larga escala pelo consumidor brasileiro, e até do estrangeiro, que nunca perceberam qualquer diferença de sabor, e nem tiveram sua saúde prejudicada, como querem alegar os mal informados.

A fécula/amido de mandioca é um produto nobre, de alta qualidade, sem cheiro ou sabor. Ao contrário da farinha de trigo, que contém aditivos químicos, a fécula/amido de mandioca não tem em sua fórmula nenhuma mistura que possa prejudicar a saúde humana, e tem como importante diferencial o fato de ser um produto totalmente natural, que já é utilizado em algumas farinhas de trigo, como a que é destinada às donas de casa.

Outro equívoco cometido por alguns entrevistados refere-se à afirmação de que o setor de mandioca pode não ter produto suficiente para atender à mistura. Isso é fantasioso, pois o Brasil deverá colher este ano uma de suas maiores safras de mandioca: em torno de 27 milhões de toneladas de raiz. Além disso, temos um parque industrial com capacidade para produzir mais de 1,4 milhões de toneladas de fécula/amido de mandioca. Hoje, nossas indústrias estão trabalhando com 40% de sua capacidade, podendo, em pouco tempo, aumentar sua produção e atender às necessidades da mistura, seja com a gradatividade de 2% a cada ano, até atingir 10% ao final de cinco anos; seja como indicado no relatório da comissão especial: adição de 5% no primeiro ano, e 5% no ano seguinte, atingindo os 10% em dois anos.

Em relação ao preço final do pãozinho, este só não ficará mais barato se os moinhos não repassarem aos seus compradores o ganho que terão, pois a farinha de trigo destinada à panificação está cotada hoje em R$ 1 o quilo, e a fécula /amido de mandioca em R$ 0,60 o quilo, sendo, portanto 40% mais barata que a farinha de trigo utilizada para fazer pão, ou se os moinhos alegarem que terão custos de fretes muito altos, com o transporte da fécula até seus moinhos.

Há que se salientar que alguns dos maiores moinhos de trigo do Brasil estão localizados próximos aos portos, onde recebem trigo oriundo de outros países, através de grandes carregamentos de navios, vindos de países como Argentina, Estados Unidos e Canadá, tendo prazos de pagamentos longos, com juros internacionais, benefício este a que poucos brasileiros têm acesso. Imagino que este seja um dos principais motivos para a resistência à aprovação deste projeto.

O projeto de lei busca o benefício da população brasileira como um todo; ao contrário dos moinhos de trigo, que buscam, através da população brasileira, o benefício próprio.

João Eduardo Pasquini é presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Mandioca e Derivados



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