Ao falarmos em arte geralmente falamos em tradição. Assim como a própria história, a evolução das artes visuais baseia-se em pensamentos e produtos estéticos que precedem uns aos outros em cadeia. Todo o conhecimento humano advém da constatação de que reconsideramos constantemente nossos postulados, na medida em que nos apropriamos do mundo neste processo cognitivo.
Assim como aconteceu no Brasil a plástica e a estética norte-americanas não partiram exatamente de uma tradição pré-existente, mas são resultado de um processo de aculturação e paulatino contato com a produção artística estrangeira/européia em parte devido à condição de colônia, que já nos coloca à mercê de influências externas.
São muitas as grandes correntes artísticas que deixam marcas na história da arte contemporânea, com raízes européias e florescimento norte-americano. Mas, sem dúvida nenhuma, uma das vertentes mais férteis em termos de plástica e também de conceito, cujas obras estão para sempre eternizadas na mente de muitos, foi a pop art. Na Europa, onde o movimento pop surgiu primeiro, a linguagem abstrata passou a ser vista pelos críticos de arte como uma forma de distanciamento dos artistas da dura realidade da guerra. Valorizando, então, as imagens figurativas, os artistas pop inauguram uma nova estética baseada nos valores e símbolos da sociedade de consumo.
É impossível falar de obra pop sem considerar toda a carga conceitual que a origina. Talvez apenas Duchamp tenha conseguido unir crítica, ironia, ludicidade e proposta plástica em doses tão equilibradas. E tudo isso usando o cotidiano como principal ponto de partida e de chegada.
Os ícones da cultura de massa são retirados dos veículos convencionais e, descontextualizados, devolvidos em roupagem exclusivista própria do universo das obras de arte. Os paradoxos ícone de consumo/obra de arte, objeto cotidiano/peça original, imagem acessível/trabalho exclusivo, mundo ordinário/lugar sacralizado, cultura de massa/cultura de elite são alguns dos binômios que polarizaram o discurso da nova estética pop, capaz de transformar a imagem de Marylin Monroe em padrão multicolorido, quase um azulejo.
No entanto, se Duchamp conseguiu chocar e ao mesmo tempo deixar o seu recado com relação ao hermetismo elitista inerente às galerias, museus e outros centros de arte, a estratégia pop foi rapidamente incorporada ao gosto não apenas popular, mas também de um universo cultural mais requintado, resultando em um tiro pela culatra. Passado o susto inicial, as serigrafias retratistas de Andy Warhol e mesmo as imagens kitsch viraram fetiche entre as damas de sociedade.
Arte que sai e chega no cotidiano. Arte que vem do consumo e para ele retorna. A despeito de toda a ousadia e astúcia dos artistas rumo a uma abordagem mais social da obra de arte, parece que pelo menos no caso do pop norte-americano o que tivemos foi a reafirmação da grande vocação ianque: tudo, até dentro do universo mais restrito das artes plásticas, pode ser revertido para o consumo, incluindo a sua crítica.