Quarta-feira, 07 de Fevereiro de 2007
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COMPUTADOR

Não adianta bater


JEFFERSON WILLIAN VENDRAMETTO

Ainda permanecem no mundo da ficção as previsões de que um dia a máquina vai dar ordens ao cérebro humano. Até o momento, continuamos no comando. E ousaria afirmar que jamais a razão será substituída por bits, como chegou a sinalizar um dos maiores visionários do mundo digital, Nicholas Negroponte, pesquisador do MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos EUA, ao anunciar que os bits iriam substituir os átomos.

Portanto, vamos ao que interessa. Se você se sente escravo do computador, se ele “não obedece”, se aquele “maldito” Word insiste em editar o seu texto, se o e-mail não circula, se a planilha do Excel não ficou como o planejado - e acrescente aí mais uma dúzia de “ses” -, o problema não é da máquina. Não adianta socar o teclado.

Do ponto de vista dos usuários, três níveis podem ser observados nos últimos anos diante do avanço avassalador da tecnologia da informação. No andar de cima, estão os que fizeram bons cursos, que continuam a ler e a se atualizar. Estes entendem os limites e potenciais da máquina e dificilmente perdem a paciência. Na situação intermediária estão os usuários que foram à escola, apreenderam a manipular os programas básicos, mas nunca mais freqüentaram um curso de atualização. Agora, não conseguem dar conta daquele maravilhoso laptop que está à sua frente. Por último, no andar de baixo, estão os autodidatas.

Estes, que “aprenderam” sozinhos, estão divididos em duas categorias. Da mais problemática fazem parte os veteranos. Usam o computador para funções básicas, desconhecem o que os programas oferecem e, em geral, são os que chamam o técnico a cada dez minutos para resolver pendências ridículas, fruto de ignorância. Ficam desesperados e soltam pérolas como “meu computador pifou”, “aqui nada funciona” e frases menos educadas. Nem ficam vermelhos quando outra pessoa resolve o problema simplesmente ajustando a tomada.

Na segunda categoria de autodidatas estão os jovens que nasceram com o computador no quarto. Acham que entendem de tudo e que não precisam de cursos ou professores. Consideram-se os donos do “pedaço” e, na maioria das vezes, se recusam a ler até um manual básico de funcionamento.

Para as empresas, é a categoria mais problemática, por ser a que finge saber. De fato, eles navegam com desenvoltura pela Internet e sabem usar as ferramentas de intercomunicação. Mas deixam a desejar em termos de produtividade. E, como os veteranos, costumam perder a paciência quando, supostamente, a máquina não se comporta como acham que deveria.

Os casos citados são suficientes para mostrar o quanto é importante, para cada usuário e para as empresas, a freqüência aos cursos básicos ou de atualização. É imperioso, mesmo para os que já passaram pela escola, apreender a lidar com as novas ferramentas. Definitivamente, não adianta bater no computador.

Por último, fica um exemplo de quanto a velocidade das inovações deixa as pessoas impotentes. Não se impressione com aquele lindo celular em mãos de um engravatado. A maioria dos usuários desconhece mais de 50% dos recursos do aparelho que tem em mãos. Haja escola.

Jefferson Willian Vendrametto é coordenador tecnológico do Cebrac (Centro Brasileiro de Cursos)


CONTRA MULHER

Protagonismo, antídoto para a violência


ELIZABETH ZAMERUL

Violência contra a mulher. Quem é o verdadeiro inimigo? A violência contra a mulher tem ocupado cada vez mais espaço nos veículos jornalísticos e isso mostra a necessidade de ações urgentes para conscientizar e ajudar os casais, baseadas em análises mais profundas dessa questão.

A desigualdade de poder, vista por toda parte, influencia fortemente os comportamentos individuais na nossa sociedade e se manifesta através de inúmeros jogos de poder nas relações. Destes jogos, o da vítima/vilão é o mais básico e facilmente incorporado pelas pessoas. As pessoas escolhem estes papéis, mesmo que inconscientemente, de acordo com as suas tendências e condicionamentos culturais. Assim, na relação afetiva, genericamente, a mulher é educada para o papel de mais passiva e tende a funcionar como vítima, e o homem, treinado mais para a ação e para ser guerreiro, tem maior atração para o vilão.

Na recente aceleração da evolução feminina a mulher tem descoberto o seu poder de ação, especialmente para a sua sobrevivência, e muitas vezes para a auto-realização material e profissional. Contudo, no relacionamento a dois, a situação é bem diferente. A maioria evoluiu pouco no papel de parceira e, por não conseguir resolver os conflitos de poder que surgem, se submete, convivendo com a situação de desigualdade de poder e aceitando a hostilidade do seu companheiro. Como vítima, a mulher contribui para perpetuar o processo da hostilidade que, sem conseqüências para o vilão, cresce a cada dia.

E o homem, qual o seu contexto? Ao contrário da mulher, a percepção do homem nas últimas décadas é de perda de poder e prestígio social. É verdade que, com a evolução dela, ele ganhou outras vantagens. Entretanto, nem sempre ele consegue enxergá-las ou valorizá-las, e por isto não chegam a compensá-lo. A perda de status é sentida como mais importante e por ser atribuída a causas externas ainda fere profundamente o orgulho de muitos deles. Soma-se a isso o fato de que também houve, para ele, perda de espaço profissional por vários fatores, como pelo aumento da competitividade, inclusive com as mulheres, e por uma conjuntura econômica mais desafiadora. Por isso, muitos deles freqüentemente vêem seus sonhos de realização material e profissional frustrados.

Nesse contexto, o relacionamento afetivo se mostra como a brecha, isto é, o espaço onde o homem tem a possibilidade de compensar esta perda de poder, sentindo-se novamente forte e importante. Inegavelmente, vivenciar o poder é prazeroso. Neste processo, ele não costuma ter consciência dos seus motivos reais, assim como a mulher não se dá conta do quanto contribui com a sua passividade, mas o fato é que estas condições se tornam absolutamente favoráveis ao crescimento da violência contra a mulher.

A violência pode ser entendida como uma doença do relacionamento, e no casal se manifesta de forma insidiosa, ou seja, o crescimento da hostilidade é geralmente crônico e cresce aos poucos. Com o passar do tempo, o homem cria dependência deste prazer fácil e inconseqüente que obtém nos momentos de ira. Enquanto isso, a mulher perde cada vez mais a auto-estima e autoconfiança, ou seja, sua capacidade de agir positivamente para resolver o problema decresce. Isso explica o agravamento da doença e suas conseqüências devastadoras.

Então, o que pretendemos é a cura desta doença. Mas, afinal, embora a resposta possa parecer óbvia, precisamos analisar quem é o agente causador? Ou melhor, quem é o inimigo que se deseja derrotar? Muitos responderiam que é o parceiro violento. É dele que essa mulher precisa se livrar. Esses se enganam e as estatísticas mostram que se ela simplesmente se separar desse homem, tenderá a encontrar outro vilão no seu caminho, o que se pode entender facilmente, pois está condicionada a funcionar como vítima.

Então, seu inimigo não é o parceiro. Outros diriam que o inimigo da violência é o medo. É verdade que essa mulher vive intensamente o medo da perda, mas, como qualquer outro medo humano, ele é natural e existe como um desafio a ser vencido. O inimigo real dessa mulher constitui-se de várias crenças que ela carrega: na sua fragilidade, falta de merecimento do melhor, falta de poder diante da situação, sua visão de que não tem escolha e outras cognições restritivas que lhe fecham as portas para as soluções.

É por tudo isso que se pode afirmar que a cura está em fortalecer-se, em corrigir suas crenças a fim de perceber seu poder, sair do papel de vítima e treinar o de protagonista. O que é isso? Protagonista é um papel que se escolhe e se desenvolve. Não é natural. Segundo Rui Mesquita, “protagonismo é a concepção da pessoa como fonte de iniciativa, que é ação; como fonte de liberdade, que é opção e como fonte de compromissos, que é a responsabilidade. Desta forma, a pessoa aprende fazendo, ocupando uma posição de centralidade no processo e é indutora de mudanças”. Somente assumindo a responsabilidade total pelo seu bem-estar a mulher pode vencer seu medo e a violência. E isso ela conseguirá buscando ajuda, lendo e discutindo sobre o seu problema com quem entende; enfim, ampliando muito a sua visão dessa doença, das relações e de si mesma, encontrando, assim, seus verdadeiros recursos e poder para se fazer feliz.

Elizabeth Zamerul é médica psiquiatra é sócia/presidente da empresa Realize



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