Nos últimos dias convivemos com dois fatos marcantes. Um muito feliz, os Jogos Pan-americanos no Rio de Janeiro. Outro triste e trágico, a queda do avião da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Se analisarmos a ambos com sensibilidade, há lições importantes. Os Jogos Pan-americanos foram um sucesso, a despeito das intempéries que marcaram o período de preparação. Inúmeros atletas brasileiros superaram toda a sorte de dificuldades, colocando-nos no mais alto patamar do esporte mundial. Eles levantaram a nossa auto-estima tão abalada nos últimos meses, provando que a garra e a vibração do nosso povo são capazes de tudo, inclusive de superar os mais íngremes obstáculos. Nesse processo ficou evidente a importância do esporte para a cidadania e o resgate social.
Lógico que ainda estamos longe de virar uma potência olímpica. Contudo, podemos chegar lá e logo. Especialmente se as autoridades responsáveis tiveram com o esporte e com a nação o mesmo compromisso que cada brasileiro comum possui.
No caso do acidente da TAM, infelizmente, temos o rastro da incompetência. Ficou mais uma vez comprovada a enorme inconsistência, fragilidade e incoerência dos serviços públicos, da infra-estrutura em áreas vitais e, o pior, da falta de valorização da vida dos cidadãos.
Diante da justa indignação da população e do sofrimento das famílias das vítimas, todos tentam se eximir de responsabilidade. Entretanto, independentemente da conclusão da apuração das causas, é cristalina a incrível inadequação da organização do nosso serviço aéreo, o que, obviamente, é um facilitador dessas tragédias.
Cabe aqui um parênteses para registrar o incrível profissionalismo e humanismo observado no trabalho dos nossos colegas legistas, para liberar e reconhecer os corpos das vítimas.
Seguramente o apagão aéreo não retrata nossa única fragilidade. É necessário ter clareza dessa realidade para poder enfrentar devidamente as inconsistências do Brasil. Nas áreas sociais, por exemplo, educação, saúde, segurança e habitação, além de outras como a energia, as condições são precárias. Apesar dos esforços de muitos, a situação demora demais para mudar, talvez porque, de alguma forma, nós brasileiros certas vezes nos mantemos anestesiados frente a graves problemas como os acidentes da TAM e da GOL, ou ainda, frente as mais de 700 mortes contabilizadas em nossas estradas no último mês. Aliás, estradas mal cuidadas que expõem a todos a riscos inaceitáveis.
Como nossos atletas do Pan, ou os bombeiros que trabalharam no resgate das vítimas do vôo da TAM, ou ainda os colegas que atuaram incessantemente na identificação dos corpos, e os milhões de brasileiros lutando diariamente para superar toda a sorte de dificuldades, sabemos que é possível mudar, e logo, esse contexto atual. Temos consciência do que fazer para alterar a nossa realidade para algo muito mais ético, competente, humano e solidário.
Nós, médicos, por exemplo, contamos com um espaço privilegiado para ajudar a construir dias melhores. Portanto enfrentemos esse grande desafio nacional, os obstáculos serão muitos, mas como no PAN, o resultado pode valer muito a pena.
Jorge Carlos Machado Curi, presidente da Associação Paulista de Medicina