AFANASIO JAZADJI
Diz o ditado popular que “a mentira tem pernas curtas”. Quase um ano depois da eleição presidencial, eis que se descobre mais uma do ex-governador tucano Geraldo “Pinóquio” Alckmin no campo da segurança pública: seu governo fajutava tanto as estatísticas no tocante à criminalidade no Estado de São Paulo que, nos últimos três anos, mais de 16 mil crimes foram ocultados da sociedade.
Isso não só é grave. É assustador! Lamentável!
Quer dizer que nos últimos três anos, o governo de São Paulo divulgou estatísticas erradas. E isso não passou despercebido pelos deputados da Comissão Permanente de Segurança Pública da Assembléia Legislativa, casualmente por mim presidida.
Foram muitas as suspeitas de “maquiagem” de boletins de ocorrências. E várias também as denúncias e pedidos de providências oficiais, principalmente ao Ministério Público, sempre com a divulgação da imprensa.
Quem não se lembra até mesmo da presença forçada do então secretário da Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, a uma sessão extraordinária de nossa comissão, onde chegou a desafiar alguns deputados para enfrentamento físico e até fez gestos obscenos documentados por fotógrafos de jornais. Depois houve a retratação.
A constatação de agora contra o mentiroso governante e seus assessores não é da oposição ou outros inimigos políticos. Nada disso. É do próprio tucanato de plantão, a partir do coordenador do CAP (Coordenadoria de Análise e Planejamento), órgão da polícia paulista e que já ocupava essa função na época de Alckmin e Saulo, o insuspeito Túlio Kahn.
Somente em crimes contra o patrimônio, como seqüestro, roubo a bancos e também a veículos e a cargas, mais de 16 mil ficaram de fora dos dados oficiais. Essa imprecisão das estatísticas é maior do que a descoberta em abril último, quando a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) alertou que o número de roubos a bancos na Capital paulista era muito superior aos publicados quatro vezes ao ano pela Secretaria da Segurança no Diário Oficial.
A recontagem dos dados oficiais mostrou números imprecisos em outros crimes, como latrocínio (roubo seguido de morte), que caiu de 1,3 mil casos para 1.037, uma redução de 20%. Os homicídios dolosos registraram queda de 3%, 631 ocorrências a menos.
Túlio Kahn tentou justificar culpando policiais civis e militares no preenchimento de suas papeletas e boletins de ocorrência. E ainda envolveu toda a cúpula da Polícia Civil, citando “dificuldades de comunicação entre os departamentos da polícia”, como se ninguém soubesse que os 17 cardeais (diretores) reunem-se todas as quartas-feiras com o delegado-geral, mas parece que jamais trataram desses “problemas”.
A recontagem confirmou que os casos de roubos a bancos foram subestimados nas estatísticas: foram 1.214 casos entre 2004 e o primeiro semestre de 2007 - 89% a mais do que na contagem anterior. A revisão também identificou ocorrências a mais nos crimes de roubo de carga (45%), seqüestro (8%) e roubos de veículos (3%).
Nos casos de roubos a bancos, a desculpa é de que policiais civis de distritos abasteceram o sistema informatizado da Secretaria da Segurança com números inferiores aos boletins de ocorrência efetivamente registrados. Quer dizer o seguinte: se o delegado titular não manipula para menos seus números, acaba perdendo o cargo por incompetência, é transferido, não entra na lista de promoções. Pára na carreira.
Tratando-se ainda de ano político, véspera de eleições, todos da cúpula civil da nossa polícia eram francos concorrentes a substituírem o delegado-geral.
Com números manipulados para menos, não havia eficácia no combate ao crime. Isso sim mereceria uma CPI para enquadramento e punição de todas as “autoridades picaretas”.
Essa era a política do suave e meigo, para alguns, Geraldo Alckmin, em matéria de segurança pública, agora desmascarado pelo companheiro de partido José Serra, que como governador, nessa área, a bem da verdade, pouco ou nada tem feito. Para desencanto de toda a população.
Afanasio Jazadji é ex-deputado estadual e comunicador especialista em segurança e crime organizado e escreve às segundas-feiras