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O mundo para sempre verde de Tom Jobim
Antonio Callado
Folha de São Paulo - Ilustrada
13 de junho de 1992


No salão de música de sua casa, sentado ao piano de cauda Yamaha, Tom Jobim, tocando sua composição mais recente, era o centro de dois círculos: o das moças do coro, que o acompanhavam cantando, e, do lado de fora, das árvores dos altos do Jardim Botânico, que também pareciam acompanhar a música, e mesmo aprová-la com comovidos e afirmativos movimentos de frondes. É que a última invenção do maestro Jobim, "Forever Green", tem tudo a ver com elas, as árvores. É um hino ao verde, em inglês porque foi encomendada por uma televisão inglesa e a Sony, que já o gravaram. Foi executada em público pela primeira vez domingo passado, no Estádio de Remo da Lagoa Rodrigo de Freitas, na noite do Concerto para a Vida, que parece ter conquistado até agora o troféu de maior brilho artístico da Eco-92. Produzido por Dalal Achcar e conduzido por Jeremy Irons, o espetáculo teve a seu serviço as vozes operísticas do Plácido Domingo e Denyos Graves: teve o violino da pequena coreana Sarah Chang; teve o piano de Artur Moreira Lima; tango argentino dançado por Julio Bocca e Eleonora Cassano; teve Gal Costa acompanhada ao piano por Tom, e, como se não bastasse, teve a "premiére" de "Forever Green", cantada em uníssono por todo o mundo.
Eu não estava presente. Não vi nem ouvi nada do que citei acima, fiel ao meu compromisso de não me afastar muito de casa durante a Eco-92. Mas confesso que dessa vez fiquei frustado, arrependido. Que diabo. Plácido fez o povo delirar cantando e bisando "Aquarela do Brasil", me contaram, acrescentando que o concerto de violino número 1 de Paganini tocado pela menina Chang foi um bruxedo que apagou todas as velas de despachos nos morros circunviznhos. Eu bem que podia ter ido ao Concerto. O estádio fica até perto da minha casa. Coerência assim é bobagem, frescura.
Resolvi então telefonar ao Tom Jobim. Eu queria pelo menos ler a letra de "Forever Green" e ouvir histórias sobre a festa, pois Tom é grande contador de casos. O que eu não sabia é que ia ser recebido como se fosse, digamos, o margrave de Brandenburgo, e estivesse ali para escutar com Bach ao cravo, o primeiro dos concertos batizados com meu nome. Porque mal Tom e eu chegamos à sala de música, conversando, foram chegando, para os trabalhos do dia Ana e Tom, as moças do coro, Paula Morelenbaum, Muísca e Maúcha Adnet, Simone Caymmi, com sua flauta, Danilo Caymmi. Eu sei que não merecia, mas sorte é isso. Tom, ao piano, começou a tocar "Forever Green" e as doces vozes se ergueram pedindo flores, pedindo a primavera, na verde floresta sempre-viva:
Let there be flowers
Let there be spring
Let the forest be forever green
Let it be forever evergreen
A insistência no verde é avassaladora, exceto quando Deus se dirige ao planeta azul, pois a Terra, como sabemos desde Gagárin, é azul à distância e para que assim continue devem os homens manter o verde do jardim da casa que Deus lhes fez:
And God will come and ask for planet blue
Where is the paradise I made for you
Where is the green and where is the blues
Where is the house I made for you
Terminado o cântico, a conversa. Há palavras, sobretudo as referentes a pássaros e plantas, que Tom pronuncia como se estivesse provando uma fruta. Com duas jornalistas que o haviam entrevistado sobre a região amazônia, Tom falava nas sumaúmas do Jardim Botânico, com seu tronco colossal, e dizia que no silêncio da noite pode-se escutar, ouvido grudado ao tronco, o rumor surdo da seiva que circula. Deve ser verdade, desde que o ouvido seja de músico e músico com vocação de naturalista. Aliás, Tom pronuncia sumaúma, sumaumeira, rolando as sílabas na língua, como se a palavra fosse um rebuçado. E fala em canela como quem sente o cheiro do tempero. Tom Jobim falando em árvores me fez pensar no major Gomes Archer, que, há precisamente 130 anos, começou a replantar a Floresta da Tijuca. Em 1862, quando o governo imperial contratou os serviços de Gomes Archer, a mata original da Tijuca começava a secar e já afetava o abastecimento de água da cidade. Não era qualquer um que podia fazer o seviço, pois os empresários do tempo só entendiam de cana e café, as duas lavouras que, precisamente, haviam devastado as matas do Rio. Mas Archer, na sua Fazenda Independência, no maciço da Pedra Branca, só cuidava do plantio de peroba, pau-ferro, jacarandá, cedro. Da sua fazendo saíram as mudas que cobriram de novo de verde e parte carioca do planeta azul. Se Aderbal Freire-Filho resolver continuar, agora em escala ciclópica, sua série de peças ambulantes, poderá por em cena, galgando os picos da Floresta da Tijuca, o major Gomes Archer, à testa do seu bando de fiéis escravos, atirando sementes de sumaúma pelas encostas, ao som de "Forever Green". Não é preciso explicitar quem Aderbal convidará para desempenhar o papel de Gomes Archer.
Mas nem só das árvores da floresta falou Tom Jobim. Ao lembrar, na conversa, sua bela irmã Helena, mergulhou no assunto das árvores genealógicas, que também fazem parte do seu repertório. Aliás, quando Tom entra nos laços de parentesco parece estar sempre querendo provar que o sangue dele é do Brasil inteiro. Eis uma parte que retive na lembrança:
"Meu tronco Pereira da Silva, gente judia, é do Nordeste, de Pernambuco. Alguns deles foram para a Bahia, gente da família do Vinícius, e outros, mais da minha ascendência, para o Ceará. Meu bisavô materno, do Aracati, no Ceará, casou com minha bisavó carioca. Agora, pelo ramo Paes Leme, eu me entronco em São Paulo. Os Paes Leme foram muito perseguidos por Getúlio Vargas.
Árvore da família do Tom vai deitando ramo diante da gente, sem parar. Parou, nessa manhã que lá passei, porque chegavam outros músicos, a começar pelo co-autor de "Forever Green" e ramo-mestre da árvore geneológica, Paulo Jobim. Surgiram violoncelo e violino. Iam começar os ensaios do dia. Estava encerrado meu concerto privado, minha preciosa miniatura da Eco-92.
Quando descia de volta à planície, fui considerando que quem realmente assumiu o verde radical antes de Tom foi Federico Garcia Lorca, no "Romance Sonámbulo". Outro grande poeta espanhol, Jorge Guillén, nos deixou um raro testemunho: o de Lorca lendo o poema para um grupo de amigos, que incluía Salvador Dalí. Comovido, Dalí ouviu os versos e comentou, com aquilo que Lorca chamava sua "voz azeitonada": "Parece que tem enredo mas não tem". Na verdade o poema contém vários elementos lorquianos, mas em estado de... sonambolismo. O que perdura, o que ninguém jamais esquece é a força, o ímpeto do verde, "A figueira arranha o vento com a lixa de seus galhos". Um verdíssimo poema, "evergreen". Segundo ainda Jorge Guillén, Frederico Garcia Lorca produzia com sua vitalidade uma espécie de aura e perto dele não fazia frio de inverno ou calor de verão, "hacía Federico". A imagem pode ser diretamente empregada. Mesma voltagem. Nas cercanias de Tom também fez sempre Tom Jobim.


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