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Texto de Carlos Drummond de Andrade
Jornal do Brasil
12 de maio de 1973

Pré-inverno

- E vem um novo inverno todo em vês
ou todo em is? de frio fino e... - Fora!
Este babado de poetar já era.
Agora
a coisa tem que ser assim:
In
ver no par que o ver de
ar pi pila.
- Traduza para mim. - Pois não:
Inverno. Parque. O verde ar pipila.

- Não era o par que pipilava amores no verde parque?
- Como quiser. O jogo é múltiplo.
Seja também assim:
Noverin pardever que lapipi.
- Parece nome de remédio!
- E daí? Os mais lindos sons da língua
são nomes de remédios, e cobram royalties.

Ah, declaro o papo fin-
do, antes que o inverno pegue fogo.
Muito melhor ouvir o Tom Jobim
cantar, pianoviolão,
no Jardim das Rosas, de sonho e medo,
no clarão das águas, no deserto negro,
enquanto, lerê, lará,
o Matita Perê negaceia;
"Eu quero ver, eu quero ver
você me pegar."

Quem pega Tom Jobim, no Rancho das Nuvens,
de Nuvens Douradas? Leva Ana Luísa
no Trem para Cordisburgo. Conta-lhe
a Crônica da Casa Assassinada.
Fala de Milagres e Palhaços,
e se é Tempo de Mar, com Pedrinho de Moraes,
Chora o Coração de Vinícius de Moraes.
Fluem, fluem
as Águas de Março e vai fluindo
em poesia rosiana
o límpido som
de Tom,
na palma da mão, cor do Brasil.

Vejo camisolas de algodão
(modelos decotados) nas vitrinas;
frente única de lã, e barriguinhas
de fora, desfilando na calçada.
É um frio maroto, com saudade
do verão, ou o verão reincidente
a infiltrar-se, maroto, neste inverno?
De pés de lã, brotos de Lan
mimam na praia o rito carioca:
(in) verniverão.

O rito?
O mito?
Esta cidade é um tanto periquito
australiano, de assobio colorido
especialmente alegre todo ano
e faz do pré-inverno pré-estréia
do calor de dezembro a florescer
na rosinha do umbigo das garotas.

Cai um pingo de chuva nesta página?
Salta do solo o Sol e sela a sala
de ouro.
- Não é nada disto (protesta o Poet / Sintétiko).

Negó seguin:



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