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O Tom da Excelência: de JK a FH
Tárik de Souza

"Se uma tradição secular definia o Brasil como fornecedor de matérias-primas, era dever de seus cidadãos enviar esforços para modificar essa situação de inferioridade. Éramos produtores de bens primários, não porém por imodificável vocação hereditária. As contingências que tinham obstado a mais rápida superação deste estágio econômico deviam ser caracterizadas para o êxito de uma política de desenvolvimento".
("A Marcha do Amanhecer", Juscelino Kubitscheck, Editora Bestseller, 1962)

Como se seguisse fielmente o programa do governo Juscelino (1955-1960), Tom Jobim arquitetou um edifício musical de traços arrojados e urbanos como a Brasília saída da prancheta modernista de Oscar Niemeyer. Não por acaso, a dupla esteve reunida já em 1956, assinando músicas (Tom) e cenários (Niemeyer) no musical "Orfeu da Conceição", de Vinícius de Moraes, poeta e diplomata do Itamaraty na época. E, por ter a caligrafia da nova era, o trio estaria de novo reunido nas fanfarras da "Sinfonia da Alvorada", ode de Tom e Vinícius à novacap. Em sinergia com o cinema novo, o Teatro de Arena, o concretismo na poesia e o neoconcreto das artes plásticas, a bossa nova mudava a fachada do País. Dos turbantes exóticos de Carmen Miranda, do vozeirão de Chico Alves e do samba-exaltação estado-novista de Ary Barroso ao pianinho minimalista de Tom e o vocal microfônico de seu melhor interpréte, João Gilberto. Um banquinho e um violão contra a grandiloquência. Enfim, o produto urbano industrialista de Primeiro Mundo exportado pelo antigo país agrícola.
A novidade lançada de início no pioneiro selo independente Festa, de Irineu Garcia, na voz tradicionalista e classuda de Elizeth Cardoso, enfrentava concorrentes de peso contrário populista como o bolerão de Anísio Silva (que no começo dos anos 60 já comemorava na capa de um disco estratosféricos 2 milhões de cópias vendidas). Mas a juventude universitária encampou o movimento, que tomou faculdades e mais tarde o 'cult' enfumaçado Beco das Garrafas, na Copacabana dos 'early sixty'. Uma missão jazzística que esteve no Brasil na época encantou-se coma nova estética musical. Ao condensar impressionismo (Ravel, Debussy), 'american song' (Cole Porter, Gershwin) e 'cool jazz' (Chet Baker, Miles Davis, Gerry Mulligan num samba de muitas notas batido no tempo fraco, a bossa nova falava um idioma universal sem abrir mão da gíria carioca.
Resultado: a gravação instrumental de "Desafinado", pela dupla 'cool' Stan Getz (sax) e Charlie Byrd (guitarra), bateu rápido o milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos e abriu caminho para a ocupação pacífica e (des)ordeira do templo dos eruditos e jazzistas de Nova York, o Carnegie Hall. O concerto da bossa-nova projetaria no cenário americano as promissoras carreiras internacionais de Sérgio Mendes, Oscar Castro Neves, Carlos Lyra e - claro - João Gilberto e Tom Jobim, que logo estariam reunidos em outro disco recordista, o "Getz/Gilberto". O reconhecimento definitivo da universalidade do projeto - e o fim da exportação de matéria-prima para industrialização como reclamava Juscelino - foi assinalado simbolicamente através do convite de Frank Sinatra, o maior cantor do mundo, a Tom para dividir um disco com ele. Um gesto inédito do empedernido The Voice que nunca tinha colocado tanta azeitona na empada de um compositor americano.
O País deu muitas voltas - e a obra de Jobim também abriu outras comportas. Além da fase modinheira/camerística que se seguiu aos primeiros passos no samba-canção. Tom, que vinha de outra ode urbana, a "Sinfonia do Rio de Janeiro", desvelou uma vertente ecológico-nacionalista que já ressoava embrionária em cantos inaugurais como "Caminhos de Pedra" ou "Correnteza". "Águas de Março", "Sabiá", "O Boto", "Matitaperê", "Passarim", "Borzeguim" reelaboram o sertão através de Uma ótica de excelência à prova de provincianismos. Mesmo apartidária, a postura de Tom nunca apolítica. Tanto que incomodou a ditadura e o compositor acabou enquadrado como subversivo por participar de um protesto contra a censura num festival no começo dos anos 70. E, ao resistir aos podres poderes predadores de tantos governos com seu ideal de beleza intato, sua música retine hoje como uma espécie de farol do neodesenvolvimentismo prometido por Fernando Henrique Cardoso. Enfim, tomam posse os ex-universitários ninados pelo doce balanço da bossa jobiniana.


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