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Pelo dedo se conhece o gigante
Júlio Medaglia

Inexiste na face da Terra um país com um repertório tão diversificado de matérias-primas musicais como o Brasil. Campeão da biodiversidade musical, suas ricas fontes de idéias sonoras espontâneas receberam, porém, tratamentos diferentes de acordo com a sua relação com o mercado das comunicações. Foram, às vezes, prestigiadas e nele desenvolvidas, e outras, como nos dias atuais, desprezadas, agredidas ou mesmo devastadas. A cultura popular é frágil como a natureza. Não sabe se proteger dos predadores. No auge da era do rádio nos anos 40/50, por exemplo, a expressão popular tinha encontrado seu espaço nos meios de comunicação. Apesar do início da industrialização cultural e da forte presença de máquinas de comunicação estrangeiras (norte-americanas, sobretudo), a espressão artística brasileira chegava aos nossos lares através do rádio, do disco e da TV. E, por incrível que pareça, num país modesto como o de então, enormes e sofisticadas máquinas se formaram, prestigiando nossa música popular. A Rádio Nacional, entre outras semelhantes, possuía uma orquestra sinfônica com os melhores instrumentistas, arranjadores, maestros do Rio de Janeiro que atuavam diariamente por suas ondas. Sua programação, além de criar uma dinâmica produção dramatúrgica, que operava com o microfone e com o feitiço sonoro com maestria invulgar, tinha por contrato solistas intrumentais com o nível de Pixinguinha, Benedito Lacerda, Abel Ferreira, Dilermando Reis, Chiquinho do Acordeão, Altamiro Carrilho e tantos outros virtuoses que em nada, técnica ou artísticamente, ficavam a devere aos grandes mestres da sala de concertos.
Curiosamente, entretanto, as décadas ímpares deste século se caracterizaram, na música popular, por revelar um certo cansaço de alguns gêneros ou idéias. Quando isso acontece, nossa música cai num ramerrão meódico-sentimental interminável. Veja-se o que ocorre nos dias atuais com essa avalanche de duplas caipiras que infestam nossos meios de comunicaçõa, que de sertanejo nada têm, mais lembrando o bolerão brega que anima as noites dos bordéis do cais do porto. Na década de 70 algo semelhante aconteceu. Com o desgaste do fervilhante caldeirão de idéias que foi o tropicalismo, com a morte de alguns ídolos do 'rock e a dissolução de conjuntos importantes que traziam grande interesse a esse gênero musical, uma verborragia melodolorosa invadiu nossa MPB através dos gemidos das Simones, Rô-Rõs e Joanas… Rita Lee chegou a ficar indignada, questionando em viva voz: "O que é que houve com a música popular brasileira?!" Nos anos 50 não foi diferente. À medida que se aproximava o final da década, o chamado samba-canção dominava inteiramente o repertório musical como uma espécie de bolero nacional, nas vozes de Ângela Maria, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Irmãs Batista, Maysa, Nora Ney e outros. Era o trágico cantado na base do "ninguém me ama, ninguém me quer…".
Uma ano antes de se encerrar a década, porém, uma gigantesca e silenciosa hecatombe assustou a movimentação do mercado e da produção musical do País. A MPB, que não tinha o hábito de envolver-se em plêmicas, "tomadas de posições" ou algo semelhante, como ocorre na área da chamada "cultura superior", via-se às voltas com debates nos meios de comunicação e envolvida em mil questionamentos. Parece que um crime de lesa-samba rondava nossa música popular com o nome de bossa nova. Enfrentando aquele vale de lágrimas, uma discretíssima produção musical, sutil, arejada, otimista, jovem, coloquial, tecnicamente nova e evoluída se tornava conhecida sob a liderança de um pianista da noite carioca, o boa-pinta Antônio Carlos Jobim. Se ela possuía vínculos com a boa qualidade de nossa música instrumental, com o espírito da crônica sutil e bem-humorada de Noel, com a coloquialidade interpretativa de um Mário Reis, com a desenvoltura harmônica e melódica de um Garoto ou Custódio Mesquita, via-se circundada pelo oceano sentimentalóide que preenchia todos os poros dos meios de comunicação. Por essa razão é que a molecadinha que praticava essa fina música de câmara popular teve de se reunir em barzinhos da Zona Sul do Rio e em seguida em auditórios de universidades. São Paulo, no entanto, surpreendeu. Enquanto nas origens da bossa nova se discutia sua "validade", a TV Tupi trazia João Gilberto semanalmente a São Paulo, oferecemdo a ele um programa regular no horário nobre (às terças); em contrapartida a TV Paulista, hoje Globo, criou "O Bom Tom", onde Jobim se apresentava com seus convidados que cantavam pérolas musicais (às quartas). "Com a grana que ganhei nesse programa, comprei minha primeira casinha no Rio…", contou-me Jobim certa vez. No rádio, um dos programas mais ouvidos do Brasil, o "Picape do Pica-Pau", na Bandeirantes, com o popular Walter Silva, fazia verdadeira campanha em prol da BN, por meio de uma estratégia variada que incluía colocar a voz de Jobim "no ar" por telefone, constantemente, em contundentes entrevistas.
Essa forma de expressão musical de extremo bom gosto, sutil, de elevado padrão artesanal, descontraída e otimista como o próprio Brasil da época, o da era Juscelino, iria não apenas mudar radicalmente o curso de nossa música popular, como também provar que sua qualidade artística possuía nível internacional. Em 1961, através de um concerto realizado no Carnegie Hall de Nova York, ela tornou-se popular de imediato - e internacionalmente. Muito ao contrário das outras manifestações sonoras latino-americanas que eram muito populares, nos EUA, animando festinhas de aniversários, formaturas ou subsidiando os sonhos do 'latin lover' com seus boleros, mambos e mariaches, a BN entrou no mercado americano através da adesão da fina-flor dos músicos de 'jazz'. Mais que isso, segurando Tom Jobim por lá, deixaram-se influenciar por ela. E esse fato foi tão significativo que a revista "Down Beat", a bíblia do jazz, chegou a declarar que nenhuma outra expressão musical externa nos últimos 40 anos havia influenciado o jazz como a bossa nova. Depois de circular pela elite musical americana, a BN começou a popularizar-se e aí veio outra surpresa: o maior cantor do século daquele país, Frank Sinatra, gravaria um disco inteiro com músicas de Tom e, humildemente, colocaria o seu estradivarios vocal ao lado daquela não-voz, numa inequívoca homenagem e prova de amor ao gênio daquele carioca.
Mas é preciso que se entenda o motivo dessa influência maior em 40 anos, um país de 10 milhões de músicos sindicalizados. A música norte-americana é instrumental por natureza e sobram preciosos virtuoses tocando na mais modestas casas noturnas. Mas se, como diz o velho ditado, "pelo dedo se conhece o gigante", foi por aí mesmo que Jobim revelou seu talento. Na terra da mais frenética pirotecnia intrumental, esse 'one finger man', como era chamado, obrigou todos a prestarem atenção no som cristalino de seu piano, tocado com um dedo só, e em suas composições, às vezes também compostas com uma nota só. Essa capacidade de reduzir os componentes musicais ao mínimo, num despojamento tão extremado que a música parece flutuar numa esfera onde reside apenas a mais pura sensibilidade, é rara na história da música e, talvez só comparável a um Satie com suas "Cymnopedies" ou aos divertimentos para corda de Mozart.
Certa vez Tom me pediu que lhe passasse algumas informações sobre técnica de regência sinfônica. Concordei e iniciamos a escolha do local e hora ideais para o trabalho. Ele foi categórico: "Hoje mesmo, às 5 da tarde, no Veloso" (Bar Veloso, hoje Garota de Ipanema, era seu ponto de prosa e criação desde os tempos da famosa canção). Com dois chopinhos na frente e a partitura da primeira sinfonia de Beethoven, iniciamos a mais original e inusitada "aula de regência sinfônica", gesticulando e cantarolando as notas da partitura. Depois de muito pouco tempo, concluí algo e lhe disse: "Tom, você não precisa elevar os braços aos céus para fazer sua música. Continue baixando suas mãos sobre o piano e com um dedo só, como até aqui, aponte algumas poucas notas no teclado que o mundo vai silenciar para ouvi-las:. Lamentei perder o aluno mais talentoso que alguém poderia ter tido na face da Terra, mas a declaração de Stan Getz que se ouviu pouco depois me consolou: "Jobim é o maior compositor de melodias da segunda metade do século em todo o mundo".

Júlio Medaglia, maestro e compositor, é também o autor do livro "Música Impopular"



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