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Tribuna da Imprensa
28 de novembro de 1957

Abandonou a arquitetura pela música

Aumenta, dia a dia, a projeção, entre os nossos compositores populares, de Antônio Carlos Jobim. Das noitadas em "boites", tocando em velhos pianos, chegou até o Municipal, compondo a música para o "Orfeu da Conceição", de Vinícius de Moraes. É o autor da maioria dos últimos sucessos, no gênero melódico, de nossa música ("Se rodos fossem iguais a você", "Foi a noite") e, recentemente, terminou a partitura (já gravada), para o "Pequeno Príncipe", de Saint-Exupery.

O primeiro piano
- "Quando minha irmã ganhou um piano - conta Jobim - eu era garoto de praia. Abandonei tudo por ele. Meus pais providenciaram um professor, e entre outros estudei com Lúcia Branco e Tomas Teran. Mas em pouco tempo verifiquei que o meu caminho não era o de concertista".

Arquitetura
- "Foi nessa época que comecei a estudar arquitetura. Entrei para a Faculdade e cheguei a cursar o primeiro ano. Porém a música era para mim um apelo irresistível, e descobri que os meus "castelos" jamais seriam construídos com cimento e tijolos".

Nas "boites"
- "Em 1950 eu já me interessava vivamente pela composição e pela música popular e é dessa época um dos meus primeiros sambas - "Brigas".
"Comumente tocava em "boite", no princípio. Mas depois de casado passei a fazê-lo profissionalmente".

Primeira oportunidade
- "Foi Radamês Gnatelli quem me deu a primeira grande oportunidade, indicando-me em 1953 para Assessor Artístico da fabrica de discos "Continental", onde trabalhei com Sávio Silveira.
"Nessa epoca toquei na televisão e no rádio, no programa "Quando os maestros se encontram", dirigindo a orquestra da Nacional, com Radamés ao piano, numa composição minha".

Na Odeon
- "Depois da "Continental" - prosegue Antônio Jobim - fui para a "Odeon". Entretanto, apesar das excelentes vantagens materiais e dos ótimos companheiros de trabalho, não tinha tempo para dedicar-me ao que sempre me interessou fudamentalmente - a composição ".
"Nessa epoca, com Billy Blanco, compus alguns sambas: "Teresa da praia", "Solidão" e a "Sinfonia do Rio".

Vinicius
"Foi Lúcio Rangel quem me levou até Vinicius. Aliás de uma forma curiosa", relembra Tom. "Acontece que falava muito pouco com Lúcio, pois este defendia, com relação à música, uma série de pontos de vistas diferentes dos meus. Eu tinha medo que surgisse alguma controvérsia ou discussão entre nós, e por isso evitava falar com ele".
"Grande foi a minha surpresa, quando soube que ele me havia recomendado ao Vinicius, para fazer a música do "Orfeu da Conceição". Aceitei, imediatamente, pois já era um antigo admirador do poeta, e seria para mim uma oportunidade magnifica a realização desta tarefa".

Orfeu da Conceição
"Orfeu foi um passo decisivo na minha carreira. Consegui concretizar uma série de tentativas que vinha estudando, e ao escrever uma peça para orquestra com amplos recursos, pude fazer o que não era permitido na orquestração de sambas comerciais.
O sucesso foi enorme, e tive o meu nome citado, inclusive, pelo "Time".

"O pequeno príncipe" e as últimas realizações
"Se todos fossem iguais a você", já com vinte gravações. "Leonora", "Praia Branca", "Serenata do adeus" e o novíssimo "Aula de matemática", são as minhas últimas composições, e brevemente, deverá ser lançado um "Long-Play", com 8 canções de parceria com Vinicius de Moraes".
Considero o meu trabalho de maior importância, este ano, a música para "O pequeno príncipe" (já gravada), de Saint Exupéry.

Os grandes cartazes e o novos
"Não posso deixar de dizer que sou fã de Léo Peracchi e de Radamés, pois, além de grandes músicos, são excelentes companheiros".
"Entre os novos, Tito Madi (Chove lá fora) e Johnny Alf são duas grandes revelações".
Ficamos ouvindo alguns de seus sambas, e , finalmente, o Tom, ex-concertista, ex-estudante de arquitetura, ex-pianista de "boite", - hoje o compositor de maior cartaz de nossa música popular.

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