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Entrevista a Carlos Lacerda
revista Manchete
1970


A vida numerosa e tensa de Antônio Carlos Jobim

Carlos Lacerda fitava as mãos de Antônio Carlos Jobim tocando o Quebra Pedra. "Você queria ter sido governador da Guanabara e me deixar ser o autor dessa música?" Rindo, enquanto batia nervosamente os dedos sobre o teclado, Tom preferia responder falando em Pixinguinha, Ari Barroso, Wave, Retrato em Branco e Preto e nos trabalhos inéditos para seu mais recente disco americano. Uma entrevista combinada para durar duas horas e que acabou se prolongando por vários encontros criou duas admirações novas: a de Lacerda pelo gênio reconhecido do compositor e a de Tom pelo encontro com Cecília Meireles, amplamente apresentada pelo reporter que o entrevistou. Depois da primeira conversa, que durou seis horas, Carlos Lacerda não pediu muito tempo: "Quero apenas um dia para escrever esta entrevista. Estou entusiasmado com Antônio Carlos Jobim."
Mendonça Neto

Hesito ante o compromisso de escrever sobre Tom Jobim. Ainda mais porque, cheio de temor e desconfiança, ele deu um jeito de pedir para ler os originais antes de publicada a nossa conversa. Mas, hesito principalmete porque talvez não chegue a dar a medida da sua angústia nem o sentido da sua inquietação. Ele não quer parecer um ressentido, e não é. Não quer que o descrevam como um homem sem medo do sucesso, e não é. Nem temeroso de ser superado. Bem, também não é.

Mas, que é então esse homem tenso, crispado, cujo riso é vociferação, cuja mão espalmada parece cortar, como num golpe de caratê, tijolos invisíveis?

Fui à sua casa, tudo acabou em música. Veio à nossa casa, tudo acabou em música. Mas, por baixo da música, por cima da música, cercada de música de todos os lados, aquela angústia metafísica, aquelas perguntas sobre a vida, o sentido da vida, que fazem de Antônio Carlos Jobim, primo espiritual de Antônio Carlos Vilaça, o grande inquieto que acaba de escrever O Nariz do Morto

Tom é vitorioso. De seus dias de menino, de neto do poeta gaúcho Jorge Jobim e filho da educadora que fundou o Colégio Brasileiro de Almeida, em Ipanema, dos melhores do Brasil, do menino que correu colégios, afundou no 1° ano de arquitetura por causa de uma briga com Teresa Hermanny, depois professorinha do colégio que teve em Tom seu primeiro namorado, com ele se casou, dele tem dois filhos, com ele permanece casada há vinte dos 43 anos que ele tem de vida...

Paro aí. Quarenta e três anos. Eis um primeiro dado. Releio, da minha coleção (incompleta) de Manchete, a entrevista que Tom deu a Arnaldo Niskier há onze anos:

"A música brasileira é tristíssima e a letra, em geral, negativa, diz o maior compositor brasileiro da atualidade segundo Ari Barroso". É a certeza, o desafio, a tranqüila afirmação de um jovem compositor numerosíssimo. No Dicionário Biográfico de Música Popular, de Sílvio Túlio Cardoso, mais músicas do que Tom Jobim compôs - acima de 200 - nem Ari Barroso.

Mas, são 43 anos agora. E uma vaia. A vaia do Festival da Canção, no Maracanãzinho, quando o júri lhe deu o 1° prêmio pela sua canção Sabiá e o 2° a Geraldo Vandré, Para não dizer que não falei de flores. Esta é uma canção de protesto disfarçada, o que lhe aumenta a intensidade; uma espécie de Guantanamera encabulada. Uma bela peça do gênero, fácil de cantar em côro, própria para Festival. Noutra situação; o público preferiria amor. Ali, a freqüência era óbvia. Sabiá não é canção de levantar multidões, é canção de levantar corações. É apenas uma obra-prima. A lírica, especialmente luso-brasileira, toma o rumo do céu, nessa canção.

Hoje, Tom afeta desprêzo pela vaia, mas não me engana. Relembra, no piano, a belíssima Sabiá.

"Vila-Lôbos dizia que era o autor mais vaiado do Brasil. Eu ainda não tive essa glória"., diz Tom como quem se compensa. É o mesmo tom em que se definiu como "um marginal bem sucedido".

Mas basta olhar os registros do tempo para saber o efeito que a vaia teve sobre ele. Na ocasião, ficou atônito. O que houve? O que está havendo? Não conseguia entender. Era a vaia, a bruta vaia espocando, guinchando, silvando, a multidão enlouquecida, irresponsável, punindo no compositor sua frustação de órfã da liberdade. Por pouco Tom não ficou rotulado de reacionário.

Aliás, ficou. Num faccioso livrinho sobre "a farsa da música brasileira no exterior" se aponta a sua música como "entreguista" pelo sucesso que fez nos Estados Unidos. Não é samba, logo não é popular, não é popular, logo não é brasileira. Estamos longe da lição magistral de Vasco Mariz em seu estudo sobre A canção brasileira. Só vale o que é folclórico. Ser entendido por outros povos é crime ideológico. O regime é de taratachimbum. A isto se reduz o nacional-fascismo musical.

Entretanto Tom Jobim conseguiu o prodígio de ser compositor popular sem ser popular. Sua música é requintada. Sobre o piano, quando cheguei à sua casa na Gávea, estava uma partitura de Brahms e L'après-midi d'un faune, aquela desconcertante peça de Debussy que Nijinsky imortalizou num bailado. Pouco depois Tom tocou Brahms. Não se pode dizer que tocou mal; ainda nos ecos de Nélson Freire, que por lá andou. Tiveram a mesma professora, Lúcia Branco. E Tom teve ainda Tomás Terán, Kollreuter, Radamés Gnatalli, Leo Peracchi, Alceu Bocchino (Será que lhe perdoam o fato de saber música?). Foi uma execução hesitante, algo lenta, a que se seguiram uns ensaios de flauta - pois Tom sai de flauta, também. Toma um ar garoto para assoprar a flauta.

Aos poucos entramos numa conversa que não adianta reproduzir porque não faria sentido. O rumo é que importa. Ele conduz ao centro de suas preocupações: o mundo, para onde anda, a vida, o que é, para que serve, que sentido tem?

Foram-se os dias porventura leves, senão levianos, da bossa nova, nascida em abril de 1958 no long-playing da Canção do amor demais, gravado pela Elisete Cardoso (Festa LDV 6.002), no qual só o violão de João Gilberto nos acompanhamentos de Chega de Saudade e Outra Vez dá a batida, recém-nascida, da bossa (Ari Vasconcelos I, 27/28). A 22 de setembro do ano seguinte, no Teatro de Arena, três mil pessoas saudavam a bossa. Nos Estados Unidos, em crise de criação musical, os que vieram para o Festival do Jazz revelam-na Stan Getz. O Itamarati manda uma expedição a Nova Iorque, para tocar a bossa, a 21 de novembro de 62, no Carnegie Hall. Há quem diga que Tom esqueceu a letra em inglês de uma das peças. Tom afirma que o grosso do público era brasileiro, a brasilidade de Nova Iorque compareceu patrioticamente, na batida da saudade. Conheço o gênero, é provável que ele tenha razão.

A música popular brasileira ainda se ressentia do que o citado Ari Vasconcelos chama "o esforço". No teatro, na serenata, na gravação mecânica, "Os cantores tinham necessidade de gritar". Era música aos gritos. A bossa nova, em vez, é em surdina. É a música do microfone abafado. A música em tom confidencial, um pouco no gênero "meu neguinho", doçuras de cafuné mas igualmente ironias suaves, um tanto ou quanto gordurosas, toucinho do céu. A sua batida conquista o mundo. E Tom? Que fará Tom agora, com o Tropicalismo, o samba afro-brasileiro, a música do terceiro mundo?

Liberta-se, pois Tom é antes de tudo uma alma livre. Não o enfeudaram em rótulos, não lhe aprisionaram a consciência nem a inteligência. Mas, o preço dessa liberdade é a angústia. Tenso, terso, ali está ele. E agora? Como vou escrever sem revelá-lo tal qual me parece, o moço que vai deixando de o ser, e teme a maturidade? Fala da filha como de uma namorada, e ela é linda; do filho não precisa falar, pois esse jovem deus o adora, estuda arquitetura como o pai que a abandonou, estuda piano como o pai que procurou largar o piano para casar e só proseguiu porque o padastro, Celso Trota Pessoa - sevidor público exemplar, elogiado e estimado pelo nosso secretário de Finanças Mário Lorenzo Fernandez, e ser elogiado pelo Mário é uma condecoração, bem merecida; pois bem, o Celso alugou piano, comprou piano, empurrou o enteado Tom Jobim para o piano, deixou casar e morar em sua casa a Teresa e o Tom com a condição, implícita, de não largar o piano como largou a arquitetura, pela referita senhorita, a professorinha do Colégio Brasileiro de Almeida. E aí o temos, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, vitorioso e torturado. Onde as tardes do chope no Veloso, na Rua Montenegro, quando Ipanema ainda não era o que é hoje, mas já deixava de ser o Bar 20 e os trilhos do bonde de mão única no areial da Rua Visconde de Pirajá?

Tom Jobim cantou com Frank Sinatra, Sinatra gravou músicas de Tom Jobim, no entanto nem uma vez falamos de Sinatra. Foi o melhor do nosso encontro. Nem uma vez perguntei se Sinatra é mesmo da Máfia. Não imagino Francis Albert Sinatra cochichando no ouvido de Antônio Carlos Jobim: "Olha, ô cara, aqui entre nós que ninguém nos ouça, eu sou mesmo é mafioso." Bem sei que é errado, devíamos ter falado, ao menos para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores, que é, como se sabe, insaciável. Mas, para quê? Para Tom Jobim se defender, como tem feito, do êxito de que, por assim dizer, o acusam? Um humorista seu amigo disse certa vez: "O Brasil é um país tão miserável que as pessoas que ganham dinheiro ficam com complexo de culpa." Deveria Tom sentir-se culpado de ter feito sucesso no mundo inteiro? Precisaria renegar a Garota de Ipanema? Não acho. A Garota de Ipanema fez o que Jaime Ovalê disse: o pobre ajudando o rico.

Mas, não é só isto. Que é, então?

Quando Arlete Sales lhe perguntou qual a pergunta que ele gostaria de responder e que nunca ninguém lhe fez, Tom Jobim deu esta terrível resposta:

"Acho que já me fizeram todas as perguntas. Todas."

Com esta, vou me retirar e deixá-lo caminhar sozinho para a análise. Como lhe fizeram todas as perguntas...

Não, há respostas que ainda não deu. Estas vêm sem que ninguém lhe pergunte. São respostas a si mesmo, à sua inquietação, que Tom assim e sem querer retrata:

"Como diz Carlos Drummond, seu xará, o poeta é um ressentido e o mais são nuvens."

O poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade, há mais tempo, o poeta português Fernando Pessoa, há menos tempo, o poeta carioca Raul de Leoni - o dos sonetos da Luz Mediterrânea, há muito mais tempo, são admirações que Tom Jobim traz de cor, e lê, e relê, e vibra com elas. Quando terá a coragem de botar em música esses poemas, como fez com os de outro poeta carioca de sua particular estima, Vinícius de Moraes, seu Parceiro?

- Cortaram as árvores, mataram os pássaros e nós, em que ficamos? "O que sou hoje; é que venderam a casa", disse Fernando Pessoa, o mesmo que disse: "Hoje estou lúcido como se estivesse para morrer."

Temos, agora, preocupações ecológicas. Era o que me faltava! Tom recebeu-me com apreensiva prevenção. Cordial, não há dúvida. Mas, que saíra dessa conversa? Que espécie de pessoa será essa da qual ouviu falar algum bem e tanto mal! Ou não será essa origem daquela preparação intelectual excessiva, aquele pé-atrás amistoso?

- Não cheguei a ler ainda a entrevista com Roberto Carlos. Queria dizer uma coisa que me chama muito a atnção. Roberto Carlos é uma pessoa de quem todos gostam. É um homem que não fala mal de ninguém. Nota-se que ele sofre de melancolia, aqueles olhos tristes...

- E você com esses óculos de Benjamin Franklin, é vista cansada e que mais?

"Só. Isto é, vejo também aquelas bolinhas de luz, moscas volantes."

Entramos no capítulo das recordações. O que ele deve a Ari Barroso. Os "inferninhos" de Copacabana em que tocou para ganhar o dinheiro do aluguel do apartamento.

"Tinha verdadeira obsessão com o aluguel do apartamento."

Agora tem casa. Própria. Com escada e jardim, e um sótão no qual trabalha. Mas, no tempo do apartamento alugado, numa noite em que o frêgues, no escuro do bar, lhe pediu para tocar O terceiro homem, com grande espanto do distinto, Tom Jobim falou:

"Não sei essa música."

Era a terceira vez que não ia tocar O terceiro homem naquela noite.

"Aquilo, como profissão, é terrível. Chegava todo dia de manhã em casa. Eu sou de 27. Peguei muito aquela Copacabana das horas do crime, antes mesmo do beco."

Sua frase é inusitada, sua expressão insólita. Eis um homem que raramente comete um lugar comum. Seu rosto, no qual ainda esplende a mocidade, nas primeiras deformações e molezas de pele do homem que amadurece, parece-se estranhamente com outro ser fora de série, meu amigo Luís Carlos Mesquita, o que me dá uma grande saudade, a ponto de esquecer o que devo perguntar - e uns parenteses de silêncio se fazem na conversa enquanto eu dou ouvidos à saudade do Carlão, que subitamente me visita.

"Viver no Rio é negócio de centauro. A gente é meio gente, meio Volkswagen. Em 62 consegui comprar o primeiro, quando o Itamarati, a contragosto meu, me mandou para os Estados Unidos tocar música. Eu estava naquela pindorama, pijama listrado, cadeira de viome. Que negócio é esse! Os gringos estão por fora! O rei na barriga, 35 anos, sem saber de nada... Isto é, sabendo de muita coisa aqui, do nosso mundinho."

Chamo-lhe romântico.

- Sua atitude diante da mecanização do mundo e da ruína da natureza é romântica. Jean Jacques Rousseau, ia me lembrando...

"Não creio que seja romântico, interrompe. Pelo seguinte, eu acho que os homens querem destruir o mundo e que eles vão... No dia que chover enxôfre vai virar Bíblia, não é? Pode ser que a nossa civilização seja muita avançada. Mas, faz muita fumaça. É uma fumaceira subindo... No ABC paulista, no Rio, em Nova Iorque, Los Angeles... Então, é a lenha, botar o mar pra baixo, matar os pássaros e depois, quando não houver mais árvores, é botar fogo no capim - se pegar fogo. E a erosão é aquela coisa. O mundo cai, mas eles varrem. Cai tudo dentro do sumidouro."

Tom vai adquirindo uma certeza e se agarra a ela:

"Não acho isso uma atitude romântica porque, por exemplo, vi aquele sujeito que atravessou o Pacífico e agora atravessou o Atlântico e afinal deu certo."

- Thor Heyerdahl, interrompo com ares bem informados.

"Ele disse que não tinha coragem de cair nágua no Atlântico não. Tudo sujo."

Sua certeza se faz cada vez mais dura:

"Quando afundou aquele submarino nuclear, os americanos mandaram procurar manchas de óleo no mar. Então saíram de Nova Iorque e Miami, foram aos Açores, à Inglaterra, a Lisboa, procurar manchas de óleo... E disseram a quem mandou: "Vocês estão brincando?" Quase não tem mais mar. É tudo mancha de óleo. Pelo mar há umas batatas podres boiando. Um dia desses veio um oceanógrafo e disse: "Vocês pensam que o mar é infinito, que os peixes do alto-mar não têm nada que ver com a nossa poluiçãozinha aqui?" Não é nada disso. Os peixes se criam todos nas lagoas, nos rios ou na plataforma continental. Aquele comandante francês deu uma entrevista dizendo que não sei quantas mil espécies já desapareceram e tudo mais. E, no futuro, nós vamos nos servir do mar...

Tom fala e eu vou armando um contraste que é, como todo contraste, uma aproximação. "Roseira que dá rosa mas não cheira." Uma das primeiras entrevistas que fiz na vida foi com Heitor Vila-Lôbos, o música, na sua casa de avenida na Rua do Senado. Com seu charuto apenas menor do que seu ego, Vila-Lôbos só falou de sua música e fazia grandes gestos para explicar como era o processo de ensinar canto coral que dizia ter inventado: Manosolfa. Um dia, no Leme, Cândido Portinari me recebeu dizendo: "Acabou de sair o Vila-Lôbos. Mas ele fala só a minha música, a minha música e eu só gosto de falar da minha pintura, a minha pintura..."

Tom Jobim, novo Vila-Lôbos, fala de tudo melhor do que de si mesmo. No entanto, em tudo o que fala, assuntos e acentos, está marca de sua preocupação pessoal, oculta por elipse. O que ele vê, no fundo de tudo o que diz, é Tom Jobim, o seu vulto, como a sombra das coisas que o preocupam.

"Eu creio que realmente coisa que o americano está preocupado é com o que se chama ecologia, quer dizer, a relação do sujeito, dos animais, com o meio. As gaivotas estão cheias de DDT, o homem cheio de DDT, os rios são esgotos e, os venenos e inseticidas que os homens jogam nas plantas... Aqueles bichos que comem brocas já não querem mais comer: as brocas estão com um gôsto horrível. Uma civilização que conseguiu deturpar o ovo da galinha é uma civilizaçào perigosa."

E ri, um riso maninho, sem descendência, riso que pára logo como se a boca se arrependesse ou recebesse, de repente, ordem para estancá-lo.

"Sabe de uma coisa? Tenho um amigo que me perguntou: Mas você acha mesmo que não dá tempo nem de uma revoluçãozinha? Do jeito que eles estão cortando o mato, acho que não. É petróleo, árvore queimada, tudo é combustão, suja o ar, estraga tudo. Não vejo nisso nada de pensamento romântico. Ainda agora, na fazendinha em S. José do Rio Preto, junto com uma porção de livros - Raul de Leoni e outros da época - li uma conferência do Dr. Godofredo de Campos, denunciando o desflorestamento, já em 1940."

À medida que essa conversa, aparentemente absurda, em todo caso tão inesperada, se desenvolvia, lembrava-me de algo que li em Karl Jaspers (como é mesmo que ele escreveu?) Agora, copio:

"Há mais de um século a situação do nosso tempo constitui objeto de uma interrogação cada vez mais premente (...) e o que foi, durante muito tempo, preocupação de pequeno número de homens, sensíveis à ameaça sobre o nosso universo espiritual, tornou-se, depois da guerra, um problema que fere cada indivíduo"...

"... Nós queremos penetrar até o fundo da realidade em que nos encontramos."

"A atitude religiosa, enquanrto aniquilamento diante da transcendência, não podia ser abalada pelo espetáculo da mudança: num mundo dado por Deus ela ia sózinha, e não era expressamente sentida como oposição a uma outra possibilidade. Ao passo que o orgulho do homem contemporâneo - que pretende atingir uma compreensão universal do mundo e tornar-se senhor desse mundo organizando-o segundo sua própria vontade, seguindo um ideal que julga o melhor e o mais verdadeiro - se transforma, ao contato de todas as limitações que encontra, num sentimento de impotência, esmagador. Uma das questões fundamentais que a situação atual apresenta é a de saber como o homem pode nela se encontrar e como poderá dela sair."

Mas não tem cabimento citar Karl Jaspers numa conversa. Tom Jobim continua falando:

"E antes disso já tinha, puxa! O vovô se dava com o Marechal Rondon e aquela gente toda, e o pessoal já falava nisso e já marcava fronteira."

Tom Jobim tem o jeito peculiar de falar de coisas transcendentes em tom coloquial e de coisas banais em tom transcendente. Suas expressões se juntam umas as outras de modo inaudito, suas imagens acoplam-se como maripôsas para o esplendor de um momento de luz intensa. Não se iludam se na foto ele parece moreno e de cabelos escuros.

"Sou castanho, mediterrâneo. Minha irmã, meu filho têm olhos azuis. Esse mulato branco que nasce no Brasil, cabelo duro, olhos claros. Quando quis ser compositor todo mundo disse que ia morrer pobre, tuberculoso, bebado etc. Depois o sujeito vem me perguntar quantos dólares eu tenho."

- E o seu medo de avião?

"Já pousei no Galeão a 370 km por hora. Perigo, mesmo é na Avenida Brasil."

- Você pilotou?

"Não, fui ao lado daquele gauchão que já foi sequestrado para Cuba."

É assim que aliviamos a conversa, senão a tensão fica insuportável.

"Sou brasileiro, faço música brasileira, não por questão de nacionalismo mas porque não sei fazer outra. Se eu for fazer jazz sou idiota, porque qualquer crioulo-da-Lapa deles toca melhor do que eu."

- E a influência da música francesa?

Tom olha de lado, não gosta muito, mas sorri e desguia:

"Quando eu era pianista de boate o sujeito chegava e pedia: canções francesas. Sou desse tempo."

- Fale um pouco sobre a Sinfonia de Brasília. Você toma a sério?

"Considero muito importante para mim. Naquela época, no tempo de Juscelino, muita gente acreditou que o Brasil iria pra diante. Aquele negócio de sertão mexeu comigo. Tanto é que na sinfonia tem pio de jaó, de perdiz. Creio que essa obra traz o ranço, o maneirismo de uma época. Não interessa se Fernando Pessoa traz um maneirismo, Drummond traz outro, Vila-Lôbos... O que interessa é o caldo."

Depois ouvimos a tal sinfonia na qual Vinicius de Moraes, num recitativo, se permite falar na convocação "das forças vivas da nação". No entano Vinicius é um poeta e tanto. Eu sou mais a Sinfonia do Rio de Janeiro, que Tom fez com Billy Blanco. Mas a música de Tom Jobim ainda está por ser feita. Bem sei que já fez muito. Mas tem muito que fazer. E sabe disso, embora desconfie.

- E sua pinimba com o desenho industrial moderno?

- Industrial design? Aquele negócio que faz cadeiras que a gente não pode sentar? Coisa de otário.

- E a vaia, repito.

- A do Maracanã? É muito mais fácil agradar no tapete do Jackson Flores em Nova Iorque. Rico ri à toa. O público que paga para se divertir quanto mais paga mais bate palmas, não sai de casa pra vaiar.

- Essa vaia te marcou mais do que você gostaria de dizer.

- Lamento dizer que não sou um sujeito do tamanho de Vila-Lôbos, que se orgulha de ser o mais vaiado do mundo.

E Tom Jobim vai buscar noutro livro de Vasco Mariz sobre Vila-Lôbos, num trecho do crítico mais feroz e temido da época, o falado Oscar Guanabarino, do Jornal do Comércio, horrores sobre o maior compositor brasileiro de todos os tempos.

Tom Jobim toma outro livro e vai ler algum trecho. É o Temas e episódios, de Igor Stravinsky, que o entusiasma. Durante muito tempo, em nosso primeiro encontro, falou folheando o livro. Dois dias depois, foi jantar lá em casa. Entrou, de camisa vermelha triunfal, com Teresa na mão e o livro de Stravinsky na outra. Novamente falou no livro, folheou-o várias vêzes, ofereceu para me emprestar o volume. Afinal, não leu nada, nem de uma nem de outra vez. Quando for ler, não dará pé. "Agora não, Tom. É tarde", direi. "Fica pra outra vez." Que teria dito Stravinsky? A culpa foi minha, interrompi para dizer que só faltou matarem o maestro quando o fizeram subir toda a escada da Igreja da Candelária, onde regeu sua missa, para receber, na sala da Irmandade, lá em cima, junto comigo, um diploma de irmão da opa.

- Sua música é popular mas não é popularesca, você diria que é erudita?

Tom não se dá por achado. Procuro-o:

- Na Alemanha, as canções de Schuman e Schubert foram cantadas nas cozinhas. Você está criando lieder brasileiros?

"Quando você diz essas coisas fico amedrontado de assumi-las."

- Sua música, metendo violino, flauta, vai ter outra dimensão. Quero saber o que você pensa a respeito.

"Eu não penso responder porque detesto cabotinismo. Ha muitos anos eu não falava, era entrevistado e não falava. Agora, todo mundo fala, até pintor está falando, é realmente a época da falastrice. A minha tristeza é que cortaram a mata e mataram os pássaros."

Dois dias depois, noutro tom, ele dirá lá em casa:

"Eles querem destruir o que não conseguem criar."

- "Eles"? pergunto.

"Você parece um sujeito americano a quem comeceia falar nessa de "eles" - lá é they, explica o Tom. E mais pragmático do que nunca, o americano me perguntou: - Quem são "eles"? (Who are "they"?). Eles não existem. Além disso, estão errados."

- E você disse?

"No Brasil agora deram na mania de falar de Tom Jobim. Já estava tardando, já não era sem tempo."

Dois dias depois, ele acentua:

"Não vá você pensar que tenho mania de perseguição."

Na noite de sua casa, acrescenta:

"Mas eu sou aquariano. Está previsto o movimento "deles". O pobre não tem acesso ao disco e o rico compra Frank Sinatra ou Brahms.

Perguntei à minha assessora de astrologia (todo mundo não tem assessor de tudo? Ninguém deve entender de coisa alguma, o assessor entende e escreve o nosso discurso):

O aquariano - ensina-me ela - é um tipo humano, proporciona aos seus nativos um tipo físico atraente e bem conformado. A tez é clara, os cabelos castanhos. Signo aéreo, determina uma natureza quente e úmida (ora essa!) dá um temperamento original, bizarro, independente e revolucionário. Audacioso e não convencional. Dificilmente o aquariano se submete à vontade alheia e em seus atos e pensamentos transparece a ânsia de liberdade que os domina. Possuído de uma ética toda particular, uma filosofia toda própria, não pode ser medido pelo padrão comum. Distingue-se pela originalidade de suas idéias e profunda justiça de suas atitudes, geralmente mal compreendida por aqueles que só sabem se conduzir por códigos já mastigados e digeridos pelo uso. Embora pareça tranquilo e cordato é de uma obstinação incrível, rebelando-se contra os que procuram lhe impor sua vontade. Quase sempre inclinado à meditação e aos estudos, que lhe asseguram sucesso nos assuntos transcendentes. Dotado de poderosa intuição. Brilhante, plástica e poderosa inteligência é o seu dote mais valioso. Boa dose de timidez esconde suas virtudes. Curiosa dualidade íntima que provém da sua sensibilidade. Grande habilidade e inclinação para as artes, nas quais consegue renome e fama. É universalista, transcendentalista e metafísico. Uma vida simples, sem luxo. Aqui termina a descrição astrológica do aquariano Tom Jobim.

Fui aos meus amigos do "Rei da Voz" de Copacabana:

- Discos de Tom Jobim?

Tinham um, o último, gravado nos Estados Unidos: Waver, aliás uma beleza. No mais, tinham outro, com apenas duas ou três músicas de Tom. O resto ficou de fora.

Volta à leitura da crítica de Guanabarino a Vila-Lôbos:

"Esse artista que não pode ser compreendido pelos músicos pela simples razão de que ele próprio não se compreende, no delírio de sua febre de produção sem meditar o que escreve, sem obedecer a qualquer princípio arbitrário, as suas composições se apresentam cheias de incoerências, cacofonia musical, verdadeiras aglomerações de notas sempre com o mesmo resultado que é dar a sensação de que sua orquestra está afinando os instrumentos (...). Muito moço ainda, tem Vila-Lôbos produzido mais do que qualquer verdadeiro artista no fim da vida. O que ele quer é encher papel de música sem saber talvez qual seja o número exato de suas produções que deve ser calculado pelo peso do papel consumido às toneladas sem uma única página destinada a sair do turbilhão da vulgaridade. Sua divisa não é "pouco e bom" mas "muito ainda que nada preste (...). Em regra sua composições não tem pés nem cabeça, são amontoados de notas que chacoalham canalhamente como se todos os músicos da orquestra estivessem atacados de loucura, tocassem pela primeira vez aqueles instrumentos que transformam, por mãos doidas, em guizos, berros e latidos."

"Imagine o sujeito ser Vila-Lôbos naquela época", comenta seu filho musical, Tom Jobim. "Depois de morto, fazem uma estátua de bronze, etc..."

- ... Que acaba roubada. O busto de Mário de Andrade já sumiu três vezes no Jardim da Glória. Façamos uma campanha - "um guarda para cada busto".

Pausa, nem eu nem Tom temos vontade de falar. Depois ele recomeça:

"Imagine que - falando em campanha - o Rubinho, da farmácia lá de Rio Preto, 5° Distrito de Petrópolis ("votem nele!") me obrigou a fazer um discurso lá que terminou, com aquela energia fraca, em cachaça e Brahma morna. O Rubinho é um santo, vive curando todo mundo... Há 26 anos que vou a Rio Preto. Eu tinha um amigo que se chamava José Portugual, das faces coradas. E ele dizia esta poesia, de Alceu Wamosy:

"Sei que amaste e que tens o coração partido
e que choras o amor que se foi de repente
eu sei do coração quando ele está ferido
só pela luz do olhar, só pela mão tremente.

A gente pensa que se esconde
na alma o grito de um gemido
mas não sabe, nem sequer pressente
que um gesto apenas trai o coração partido.

O sol, o ardente sol de tua alacridade
ainda que sob o céu de tua mocidade
há muito que num caos de sonho se apagou.

Eu sei que nada hoje o teu sofrer estanca,
teu coração é uma camélia branca
que alguém tocou de leve e sem querer manchou."

"É poesia bárbara, não é? Eu, brigado com a Teresa, já viu? A gente tem que sair do asfalto um pouco... Tem outro poema aqui para nós. Não é para os pra-frentistas. Porque o pra-frentismo não sabe que o pra-frentex não é pra-frente. No dia que todo o mundo usar camisa vermelha vai ser uma monotonia total."

- Essa teoria de que o pra-frente está pra-trás é muito boa.

"Você pode digerir e por em bom português. Não quero parecer um velho, mas as pessoas estão fazendo as mesmas bobagens de sempre, porém muito mais armadas. Então fazem bobagens muito piores."

"Todo o mundo aprendendo a dizer não sem saber quando dizer não e quando dizer sim, entende? No outro dia ouvi uma música tão genial, é um negócio assim: "Não me apareça porque eu agora não estou com os meus óculos escuros... uai... uai..." Você já ouviu essa música? É uma coisa bárbara, negócio de revolução mas querendo a casinha da mamãe, entende? É uma coisa de revolucionário agarrado à saia da mãe. Questão de pudor nos sentimentos."

- Vão dizer de você, com essa tomada de posição, que está bem instalado na vida, feliz e contente, e não tem mais problemas, por isso... Mas eu sou de opinião que o sujeito que tem opinião tem o direito de dizer o que está pensando e isto é que é pra-frente. Você me dá a impressão de um sujeito de 80 anos com uma alma de 20. Há quanto tempo lê Drummond e Fernando Pessoa?

"Leio Fernando Pessoa há uns 10 anos, Drummond há muito mais tempo.

-"Você já morou na Tijuca?

"Nasci e morei na Tijuca mas com um ano já estava em Ipanema."

- A Tijuca é o último lugar do Rio onde se ouve piano ainda.

"O piano é do tempo em que a gente escrevia fantasma com ph e o phantasma assustava."

- Apesar de tudo que li a seu respeito, estou surpreendido com seu grau de maturidade, que em termos brasileiros não combina com o seu temperamento. Você tem uma inteligência madura diferente da sua sensibilidade. Tem uma sensibilidade jovem e uma inteligencia madura, como é isso? Os seus gostos e os seus conceitos você os veste de pitoresco e fabuloso, mas no fundo diz umas coisas moralistas. O que se deu com você para fazê-lo tão maduro assim, do ponto de vista intelectual?

"O Cataclismo, a calamidade..."

- Estou falando sério, e você sai pra escanteio. Quero saber o que o tornou assim, o que o fêz tão amadurecido? Geralmente o músico é inocente. E você não é inocente.

"Sempre achei o músico comum inocente mas genial."

- E daí? Não tem nada mais inocente do que o gênio.

"É possível."

- Você mencionou sua passagem por inferninhos, a corrida contra o aluguel, etc. Você se preocupa com os aspectos materiais da vida. Não tem medo de dizer algo diferente do que está na onda. Fura a onda...

"Como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno"(Drummond).
Não acho que a pessoa deva seguir todas as modas, vogas, etc. em tudo. Você disse um troço sério e eu já estou habituado a me defender. Digo honestamente, estou desiludido de tudo. As ondas contra Tom Jobim... Antônio Maria dizia: Tom está competindo com ele mesmo, dez sucessos na praça, a música dele é contra a própria música dele, Tom está produzindo demais, está se exaurindo. Mas acontece que eu tinha 500 músicas na gaveta no tempo em que fazia música e não mostrava a ninguém por timidez."

Aos 43 anos, o moço Tom Jobim não é tão moço que não sabia de quantas decepções está feita a aceitação da vida: "Influências sempre houve e só não as recebe quem está morto." Mas, suas preocupações, não me parece que sejam com a crítica às músicas. As músicas, continuam, e cada vez melhores. As críticas continuam, e cada vez piores. Acusam-no de se americanizar? Bobagem. Os americanos acham que ele tem influência francesa. Os franceses sabem, desde as músicas do Orfeu Negro, que ele é bem brasileiro. O mais brasileiro que pode haver, desde Heitor Vila-Lôbos. O que ele não conseguiu esconder é a sua educação musical. O que ele sabe de harmonia me confunde e, de certo modo, me oprime.
???????, quando ouço assim de perto alguém fazer o ?????? como um cego que precisa de alguém para me descrever a beleza do céu e do mar - e no entanto sente que o mar e o céu são ainda mais belos do que as palavras podem dizer.

O diálogo com Tom Jobim não pode prosseguir porque não cabe aqui. Espero continuá-lo pela vida afora. Pois esse criador é uma esplendida criatura. Uma flor de inteligência e sensibilidade tocada pelo granizo, ferida, maltratada, mas que perfuma as mãos de quem a fere. Tom Jobim sofre com a injustiça ou antes, duas, uma real e outra, imaginária.

Feliz, acredito que seja, daquela certeza íntima que guarda no seu ser como num cofre, cujo segredo só ele possui (e talvez Teresa). Mas, inquieto, inquieto com a devassa que a vida impõe na sua vida, inquieto com o rumo que a vida vai tomando, a sua e a do mundo em geral (Raimundo é uma rima, não uma solução, ensina seu mestre Carlos Drummond).

Seu desassossêgo se projeta sobre o mundo numa angústia - ecológica. Por isto é tenso e crispado. Não admira que o mundo não lhe perdoe a admiração que, de certo modo, por obrigação lhe dedica. Poucas pessoas tenho conhecido a quem a admiração faça tanto bem e precisem tanto dela. Mas poucas tão capazes de abrir mão dela. Ele tem o gênio musical mas, infelizmente para a sua paz de espírito, é inteligente demais para ser apenas artista. E a inteligência, não a corrupção, é um crime para o qual não existe anistia. O ódio é contra a inteligência, que não é virtude nenhuma mas não chega a ser um vício. Em todo o caso, na maior parte dos casos é incurável. Há casos de burrice progressiva e intencional. Mas, raros, sempre acabam se traindo; e tem recaídas fatais. Em todo caso, o mundo dificilmente perdoa quem não só lhe revela alguma coisa - no caso, harmonia do som - e ainda por cima a impõe; e não o deixa apodrecer em paz, com suas submissões, suas ambições mesquinhas, suas espertezas miúdas, sua canalhice a varejo.

Sei que Tom não quer parecer um magoado, um ressentido. Nem tem razão para o ser, esse criador, esse vitorioso. Não é questão de mágoa, é de angústia.. não é ressentimento, é apenas sentimento do mundo nessa alma delicada, nesse coração aflito. Queira ou não, isto ninguém evita, simplesmente assume porque tem, como tem boca, dois olhos e um nariz. Olhos curiosos, que me interrogam. Angústia de ser, de viver, que resolve seu transe, seu trauma e se liberta - em música.

Agora, na sala, ele senta no banco do piano, tira os óculos de meia lente, à Benjamim Franklin, espalma as mãos que ficam estranhamente parecidas com garras, dir-se-ia um gavião ao piano. E sincopado, vitorioso, mas como uma vitória áspera, surge o som, torturado no ritmo até que alça vôo, pura e luminosa, a simples, tocante, embaladora melodia. E Tom, libertado, transfigurado, ri. Franze o rosto, crispado, tenso, imerso no mundo, banhado de música, profundamente.

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