Ouça Tom JobimContatoCréditos/Copyright

| volta |
Jornal do brasil
Maria Lucia Rangel
24 de agosto de 1974


- Qual o sentido de uma música? E sobretudo de uma música espiritual que te levaria a Deus, à felicidade, às coisas básicas do ser humano? Dentro de pouco tempo, as pessoas só vão escutar músicas no radinho do carro. E na maioria das vezes será musak (música enlatada). Por diversas vezes encontrei compositores que me dizem: "Puxa Tom, você está o rei do elevador." "E você do avião", respondo. A musak está em toda parte. Transforma Beethoven, Villa-Lobos, Carlos Lira, Dori Caymmi, Chico Buarque, Tom Jobim, tudo na mesma coisa. Tudo soa igual. Estou denunciando isto porque é uma realidade. Porque todas as vezes que se fala em problemas objetivos a análise diz que o céu azul é muito bonito. Mas não existe mais céu azul não. E as lágrimas que correm dos olhos não são de sentimento nem do coração. São as lágrimas da poluição.

- Segundo Stravinski, o barulho do vento, do mar, o canto das aves, ainda não são propriamente música como nós chamamos. O que aliás é uma mera questão de nomenclatura. Quanto à música eletrônica, de ruídos, considero-a perfeitamente dispensável e inútil quando reproduz o mundo exterior. Você vive na barulheira e volta prá casa e ouve aquilo outra vez. Porque você não vai querer a poluição sonora mais uma vez dentro de sua própria casa.

| volta |