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O Globo
25 de janeiro de 1987


- Quando eu era menino, tocava piano até tarde. Era "barulhento". Hoje, sou um vizinho ultra-silencioso. Eu e meu piano... puxa, em todas as Escolas de música da América Latina não devem existir 150 pianos. E os que existem são velhos, estragados. Porque o Brasil é um País úmido e hereditário. As coisas se estragam com a umidade e passam como estão para a geração seguinte, aí se estragam mais.

- Eu sou um aquariano muito tenaz, o que, segundo os entendidos, não é comum. Por isso, fico no meu piano, que é o mirroir, o mirror, o espelho onde miro meus erros, e tento corrigi-los. No piano está tudo aparente, tudo à sua frente. Daí esta coisa de espelho, que me agrada e, de vez em quando, me faz cara feia.

- Uma corda de violino, quando vibra, dá os sons harmônicos. Mas eu não sou contra as outras correntes, que utilizam intervalos diferentes, não sou contra o dodecafonismo (que considera as 12 notas do piano, as brancas e as pretas, como tendo o mesmo valor). Não quero limitar nada. Porque não posso limitar o canto de um pássaro ou o barulho provocado pela turbina de um avião. Apenas isso foi experimentado - eu também experimentei - como visão de liberdade maior. E não se foi muito longe. E estes caminhos... de repente você cai na pasteurização do som, as máquinas: a afinação fica uma coisa sem pontas, sem arestas, sem o brilho que você tem no vibrar da corda do violino. É claro, o homem aperfeiçoa os métodos. Um DX7 reproduz quase perfeitamente o som de qualquer instrumento. Mas não será jamais o instrumento. Daí que a música que toca no rádio é chata, toca na TV é chata, aqui ou em qualquer parte do mundo: é pasteurizada, repetitiva, sempre igual, sem imaginação. Chata. Hoje, no Brasil, para ser músico, a primeira coisa que você tem de fazer é arranjar um contrabandista que lhe traga estes teclados todos. Isto é revolucionário? Não acho. Beethoven ainda é mais revolucionário do que todas estas novidades. Para mim, a música reflete os movimentos da alma: aquele achado feliz, o sair de uma tonalidade e encontrar um caminho novo para chegar a outra... enquanto se raciocina em termos de decibelagem.

- O nosso universo é tonal. Inventar o atonalismo é negar o povo. A própria palavra "atonal" vem de tom. Para fazer atonalismo, você precisa negar a existência do tom o tempo todo. A música, como entendo, é composta dos 35 sons básicos expostos nas teclas do piano: as sete notas bemóis, os sete dobrados sustenidos e os sete dobrados bemóis. O piano é temperado, uma expressão que muita gente usa sem saber o que quer dizer; ou seja, é desafinado cientificamente para conter em 12 teclas, que se repetem nas oitavas, de forma a conter estes sons fundamentais, universais. São os chamados sons harmônicos, a escala harmônica. Se morrermos todos, aqui, neste momento, por causa de um holocausto nuclear, o vento que soprar numa folha vai provocar um som harmônico, um som contido na concepção tonal, que já existia antes do homem e sobreviverá a ele. A escala tonal não é uma arbitrariedade do homem: antes, é a percepção do homem manifestada na capacidade de buscar os sons da natureza.

- Vivo no meio musical como um marginal. Um homem legal, um marginal bem-sucedido, mas não estou rico. Se estivesse, não iria fazer shows no Japão, nem comprar bilhetes da loteria. Marginal porque as companhias querem vendas instantâneas e eu escrevo para o porvir. Minhas músicas são cartas que escrevo para a posteridade sem esperar resposta, como disse Villa-Lôbos. Meu tempo é outro. Não tenho pressa em sair de algo ruim para alguma coisa pior.

MULHERES: "As mulheres estão cada vez mais lindas e eu, cada vez mais velho. É uma triste constatação! O homem não pode querer sempre uma Miss Brasil, ninguém tem obrigação de ser perfeito. E o desejo não tem generosidade, só quer aquilo que ele quer, daquele jeito. O amor perdoa o mau-humor, a falação, a barriguinha, é mais generoso. É preciso muito carinho. É tão bom um carinho!"

AMOR: "Uma civilização sem coração prejudica o amor. As pessoas vão ficando muito sós, só pensando em interesses. É tão bom quando a gente se apaixona, ama, tem filhos, coisa e tal. As mulheres gostam de ter um lar, filhos, é natural. Quando ela fica grávida, muda o olho, o corpo, o pensamento, muda tudo. Mas hoje o machão só vive a vida dele e a feminista só quer saber da vida dela. Aí dá uma parada, como já deu. Às vezes eu vejo aqui na Plataforma mesas só de homens e outras só de mulheres, não é uma coisa equilibrada. A mulher fica bem na companhia de um homem, que fica melhor com uma mulher. Você já reparou que coisa perfeita é a diferença entre o homem e a mulher, que se completam? Muito homem junto é ignorância: um quer ser mais forte, brilhar mais que o outro, fica um clima de competição."

ESPERANÇA: "As pessoas vão se apaixonar novamente, o romance nunca há de morrer, a não ser que joguem uma bomba atômica e acabem com tudo! Tenho que acreditar na vida e no romantismo. Há muito eu já disse sim ao eterno, já subi na cumeeira. Um dos problemas hoje da humanidade é não ter esperança em nada. A fina flor dos jovens, da inocência, do desejo, compra moto, bota uma camisa vermelha, se enche de drogas e se espatifa por aí. Se eu tivesse 20 anos agora..."

EMBAIXADOR DE TURISMO: "Sou um embaixador nato. Meu pai era do Itamaraty e fui parceiro durante 20 anos de um diplomata. Não vou para o exterior mandar as pessoas virem para cá para serem assassinadas em Ipanema. Eu vou dizer o que a um turista? 'Vamos subir a Rocinha, o Dona Marta?' De maneira nenhuma."

RIO DE JANEIRO: "O Rio de Janeiro é uma cidade bonita. O serviço que Deus fez é perfeito, o que nós fizemos é que é uma porcaria. Antigamente, você podia ir ao centro da cidade, que é um lugar maravilhoso, estacionar o carro, andar no Arpoador à noite, dormir na grama da Praça Nosse Senhora da Paz e acordar vivo. Não sou saudosista, mas que piorou, piorou! Tem muita gente no Rio, é um problema da cidade grande. Se o mundo se tornar um elevador, vai ser uma tristeza. O homem gosta de estender o olhar sobre o horizonte, o mar, a montanha."

IPANEMA: "Os anos dourados de Ipanema? A Lagoa tinha camarões, peixes, a gente nadava lá, o mar era limpo. Agora o interceptor estourou e está tudo poluído. Nõ vou mais à Ipanema, não gosto de chuva, nem gosto de sol. Só em último caso, para experimentar uma roupa, resolver um troço, porque não tenho onde estacionar e tem um cara querendo me assaltar."

BRASIL: "Estão destruindo as florestas, o Brasil não é mais bucólico, mas também não temos as comodidades do Primeiro Mundo, em que tudo funciona e está à beira da sua cama. Só há poluição, engarrafamento de trânsito. E quando você acha alguma coisa, pode ir preso: o maior crime neste País é a opinião."

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