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Entrevista à Cleusa Maria
Jornal do Brasil
1º de março de 1992


Cleusa Maria - Antes mesmo de ser o grande homenageado do carnaval carioca você já era uma unanimidade nas ruas do Rio. Como se sente o homem Tom Jobim diante de tanto afago?
Tom Jobim - Tenho me sentido muito sensibilizado com a homenagem e com as manifestações do povo na rua. Toda hora alguém me pára e vem falar comigo. As pessoas não me incomodam. Me tratam com gentileza e carinho. Até o sujeito com cara de machão mal-encarado me dá um sorriso, me cede a vez no trânsito, me oferece sua vaga no estacionamento. Outro passa por mim e fala ao meu ouvido: "Jesus, te ama." Estou me sentido em casa, entre pessoas que falam minha língua. Sempre fui uma figura de B.G. (background). Vivia escondido pelos bastidores, fazendo arranjos para os cantores, como Dalva de Oliveira, Lúcio Alves, Silvinha Telles, Dick Farney. Aliás, era uma posição que buscava para mim. Há alguns anos, toda vez que queriam fazer um disco meu, eu corria da raia. Fui um rapaz bonito, me chamaram para fazer filmes na Itália e também não aceitei.

Cleusa Maria - Você disse algumas vezes que o Brasil não gosta do sucesso. O país não gosta de homenagear seus artistas?
Tom Jobim - É muito difícil, para todos os brasileiros, receber homenagens. Fomos educados para ser humildes, para achar que o dinheiro é uma coisa venal. Hoje em dia, essa posição não dá mais pé. Mas ainda há uma lei no Brasil que proíbe dar o nome de pessoas vivas a logradouros públicos. Eu já disse uma vez e repito agora, não podemos amar o Pelé, só o Garrincha, que foi redimido pela morte. Agora, parece que está diferente. De repente, recebo esta homenagem. Aos 30 anos de idade, eu nem estaria em condições de receber uma homenagem, assim tão frontal. Não posso generalizar, mas sinto que há certa animosidade contra mim. As colunas sociais, que chamo de anti-sociais, não falam mal de bandido, porque bandido mata. Preferem atacar os homens de bem. Mas essa homenagem do povo, da Mangueira, é a coisa mais linda do mundo.

Cleusa Maria - Você não está exagerando, quando diz que a imprensa não gosta de Tom Jobim? Afinal, tem muita gente que fala bem de você, há muito tempo.
Tom Jobim - De fato, há uma tendência do artista em colecionar as más críticas. O Stravinsky só guardava as críticas que eram contra ele. Mas devo reconhecer também que se fala bem de Tom Jobim. Muitas vezes existe uma tendência de apresentar o artista como um ser venal. E parece que ninguém lê quando se dá boas notícias das pessoas. O que vende jornal e revista são as "bad news". Isso é assim aqui e em qualquer lugar do mundo.

Cleusa Maria - Você não gostou nem um pouco das críticas feitas à sua participação no comercial da Brahma, em que seu parceiro Vinicius de Moraes aparece bebendo chope...
Tom Jobim - Disseram que o Vinicius não bebia chope. Ele bebia muito chope, tenho fotos dele aqui, segurando um copo de chope. Ele só parou por causa do diabete. Mas o Vinicius bebeu tudo o que conheço. Depois ninguém é obrigado a usar apenas o produto que anuncia. Isso é maluquice da imprensa. Imagine exigir de Orson Welles que ele bebesse aquele vinho que anunciava. Ele queria ganhar um dinheirinho. Quando licenciei a Coca-Cola para utilizar a música "Aguás de março" em comerciais, todo mundo foi contra. Dizia-se que a Coca-Cola era americana. Mas a Brahma é brasileria. No Brasil, tem-se muito medo que os outros se dêem bem. O Brasil é negativo com o sucesso. Nem falo de inveja, porque não entendo esse sentimento. Como é que alguém pode querer ser outro? Se sou Tom Jobim não vou querer ser Xuxa, nem Pelé. Até porque seria impraticável.

Cleusa Maria - É a lama, é a lama, maestro?
Tom Jobim - Ao escrever esse verso eu estava falando da lama do chão mesmo. Mas, no Brasil, todo mundo rouba todo mundo e depois vai para a imprensa falar de Tom Jobim. Neste país, o sim gera o não. As coisas boas são vilipendiadas. Isso aqui está virando um covil. É a degradação de tudo. Não podia ser diferente. Foram muitos anos de mentira. Essa mentirada toda da democracia de esquerda... E como podemos ser capitalistas, se odiamos o dinheiro? Uma vez, o Roberto Campos me disse que há países paupérrimos com vocação para a riqueza, como o Japão e há países riquíssimos com vocação para a miséira, como o Brasil.

Cleusa Maria - E Tom Jobim concorda?
Tom Jobim - Eu não consigo entender como o Brasil funciona. Mas o que se vê hoje é a desmoralização total. Pagamos todos os impostos e, em troca, ganhamos a insegurança e a morte. O dinheiro dos impostos paulistas vai para onde? Para Brasília sustentar aqueles parasitas? Imagine um país onde o psiquiatra é louco, o delegado é o chefe da quadrilha e o advogado ladrão, e os homens de bem são perseguidos?

Cleusa Maria - Este é o país de cabeça pra baixo de que você tanto fala?
Tom Jobim - Fico perplexo vendo tudo isso. O Rio, por exemplo, essa dádiva de Deus, poderia ser uma cidade riquíssima, explorando seu turismo. E, no entanto, aqui se matam turistas para roubar as câmeras fotográficas. Eu teria pavor de ser presidente do Brasil, de assumir esse sitema de erros, esse negócio ingovernável. Deve ser terrível.

Cleusa Maria - Como você está vendo hoje a cidade a qual dedicou músicas como "Corcovado", "Garota de Ipanema" ou "Sinfonia do Rio"?
Tom Jobim - Esta cidade é um lugar paradisíaco, com essas montanhas, essas matas, esse céu azul lavado, esse sol, essas garotas e até essas águas de março, que já começam a chegar. Mas meu amigo Oscar Niemeyer estava com a razão quando me disse que uma cidade só é cidade até 800 mil habitantes. Quarta-feira fui ao principinho do Leblon. Para chegar até lá, dei mais de 10 esmolas no sinal. Eu sempre dou esmolas, mas estou sempre em dívida, porque aparecem outros na esquina seguinte. Quando eu estava tentando estacionar o carro, veio um menino atrás de mim, pedindo para tomar conta. Aí veio um homem correndo atrás do menino e o enxotando dali, para ficar com o ponto. "Doutor pode deixar comigo". Mas atrás do homem veio um guarda, dizendo que ia lhe dar um soco no pé do ouvido. Era o garoto correndo atrás de mim, o homem correndo atrás do garoto, a polícia correndo atrás do homem. E eu fui tomar meu chope, porque ninguém estava interessado em mim e sim no ponto e no dinheiro. E eu só corro de ladrão e da polícia.

Cleusa Maria - Você se sente seguro quando adormece em sua casa, sabendo que as balas perdidas cruzam o céu da cidade?
Tom Jobim - E o que vai se fazer? Se começam a atirar, eu vou tentar me abaixar, se estiver acordado. O que aconteceu com o Older Cazarré, um cara excelente com quem eu conversava muito na Padaria do Jardim Botânico, foi uma coisa muito triste. É terrível alguém ser baleado em seu quarto, enquanto dorme ao lado da mulher. Hoje todo mundo anda armado, todo mundo atira em todo mundo. Isso é obra do homem. Como se pode viver em uma cidade, onde as balas estão crivando as paredes das casas e matando crianças no colégio? Está se matando no Rio, sem ao menos saber a quem se mata. Os assassinos estão matando quem não conhecem. Podiam, ao menos, treinar melhor a pontaria.

Cleusa Maria - É o que acha do projeto da Rio-Orla?
Tom Jobim - Tem gente que gosta, tem gente que não. O que vejo é que estamos cercando o oceano. Agora, para se chegar ao mar, é preciso subir na passarela, descer no subterrâneo... Este projeto humano é mesmo incrível. Outro dia, tentei ir à praia. Fui parar no Recreio dos Bandeirantes, sem conseguir atravessar as obras das pista. Estamos cercando nossas praças, nossas praias e nós mesmos vivemos cercados, nos engarrafamentos. Não se vai a lugar algum na cidade sem enfrentar um engarrafamento diário.

Cleusa Maria - Mas ainda existe saída, que não seja o Galeão?
Tom Jobim - Não conheço saída para explosão populacional. Aquilo que o ex-presidente Geisel disse é horrendo, mas é verdade. O Brasil vai muito bem, o que vai mal é o brasileiro. É desumano uma pessoa trabalhar o dia inteiro, pagar seus impostos e enfrentar todo tipo de sacrifício, engarrafamento, assalto, para voltar para casa e cuidar da família. O Brasil não resolverá seus problemas sem um controle de natalidade. Não se pode educar milhões e milhões de crianças. Elas estão soltas pelas ruas e não agridem apenas os outros, mas se agridem entre elas mesmas. Vejo cenas terríveis na cidade: crianças se atacando com cacos de vidro. É muito selvagem, muito bárbaro.

Cleusa Maria - O controle de natalidade é possível no Brasil?
Tom Jobim - É burrice reagir contra isso. Acho que quem puder criar 10 filhos que os tenha. Mas ter 15 crianças para largar no sinal vermelho é um atraso total. Não é bom para ninguém viver em um país lotado de gente. Imagine um deserto de árvores e bichos, superpovoado de homens. É como viver em um elevador, onde se está sempre de cara com o outro. Qual a vantagem disso? Como dizem os franceses: "La vie est dure, la femme est chère et les enfants très facile de faire".

Cleusa Maria - Então, o que resta no Rio, que ainda possa ser chamado de coisa mais linda, mais cheia de graça?
Tom Jobim - Esse maravilhoso litoral brasileiro e as mulheres que andam por ele. As garotas de Ipanema, hoje, estão mais lindas do que nunca. Elas têm um perfil meio semita, meio tuaregue, um perfil egípcio, um pouco árabe.
É uma gente muito bonita. Esta mistura está criando uma bela raça brasileira, naturalmente entre os que podem comer. As moças de hoje são mais bonitas, estão mais despidas, fazem mais ginásticas. No meu tempo, a gente conhecia pelo nome as que eram mais bonitas. Hoje, elas existem em profusão. O formato do corpo das cariocas está se aperfeiçoando. Na minha época era "dái-me gordura e eu te darei formosura". Agora todas têm corpos de atletas.

Cleusa Maria - É as mentes acompanham a beleza dos físicos?
Tom Jobim - A loucura aumentou. Hoje temos drogas e motocicletas. Sempre peço à mocidade que não se mate. Peço isso aos meus filhos e aos filhos de meus amigos. A juventude é o pico da existência. A idade da tesão, do apetite, da força do homem e da mulher. Depois, a madureza tem suas compensações, mas, sobretudo, é preciso não morrer antes de chegar lá. É preciso sobreviver para atingir a idade da realização, para ser feliz. Não vale sair antes do jogo terminar.

Cleusa Maria - Há alguma promessa de vida em seu coração?
Tom Jobim - Sem dúvida que há. Minha empregada, a Tilde, é crente e, outro dia, me disse que, apesar de tudo, vamos para o céu viver na glória de Deus. As amigas dela, que são Testemunhas de Jeová, acham que, depois da destruição de tudo, vão crescer os jardins. E nesses jardins, todos viveremos felizes com os animais, as crianças brincando com as cobras. E não haverá mais mal sobre a Terra. No prefácio que fiz para o livro "A Floresta da Tijuca", eu disse que Deus, evidentemente, tem muitos planetas novos, cobertos de floretas e com animais mais interessantes que na Terra. Para Ele, nosso planeta não é indispensável. A destruição apenas provará nossa incompetência. Se for necessário, mudaremos para outro planeta, onde haja mais árvores para cortar, levando toda nossa experiência. Não podemos continuar marchando para o Oeste, porque já chegamos ao Pacífico. Temos que salvar a Terra. Já estou falando sobre isso há 42 anos.

Cleusa Maria - A Rio-92 vai tornar as pessoas mais conscientes e evitar tanta destruição?
Tom Jobim - Enquanto estivermos levando esse papo, vão aproveitar para derrubar e queimar mais árvores. E o Primeiro Mundo tem muita culpa nisso. Ele mandou cortar nossa madeira de lei, buscar o ouro, as pedras, a prata, e levar para os países onde, hoje, se plantam árvores. Agora que já se cortou tudo, querem que a Amazônia seja o pulmão do mundo. Sou muito cético em relação à Rio-92. Vejo o desmatamanto cada vez mais rápido. Não vou dizer que tenho grandes esperanças. É um esforço, sem dúvida, mas ando cansado dessa falação toda e, no fim, só vejo a devastação. Será a contemplação inútil do deserto.

Cleusa Maria - Então, maestro, é pau, é pedra, é o fim do caminho?
Tom Jobim - Eu escrevi isso em 1972, em um período em que estava muito na fossa. Parecia que tudo havia se acabado para mim, que eu não tinha mais nada a fazer. Eu bebia muito. Depois vieram outras musas, me casei novamente, tive filhos, netos e outros motivos para viver. Mudei de vida. Comecei a fazer outros trabalhos, a compor novos poemas.

Cleusa Maria - Nos anos 60, você foi indicado para receber o Grammy que Milton Nascimento e Dori Caymmi acabam de receber. O Grammy é mesmo importante?
Tom Jobim - Acho que foi um alivio, para essa gente que não gosta de ver ninguém ganhar prêmios no exterior, os brasileiros não terem entrado na premiação. Os jornais já vinham desprestigiando o Grammy, que, ao que eu saiba, é o mais importante prêmio da música no mundo. Agora que os artistas brasileiros perderam, os jornais começaram a prestigiar. Eu rezei, mandei minhas bênçãos e torci muito pelo Dori Caymmi e pelo Milton Nascimento. Eu amo meus companheiros de música. É uma felicidade que no meio de tanta coisa ruim, o país produza gente de talento como eles dois.

Cleusa Maria - E como vai a música brasileira na crise?
Tom Jobim - Não gosto muito de falar da música. Não é assunto para ser falado. O cara compõe, justamente, porque não quer falar. E quem fala sobre música, no Brasil, geralmente não conhece o que está falando. Mas a verdade é que a coisa se complicou. As máquinas e os teclados estão tomando conta do mercado, ocupando o lugar dos músicos, que estão todos se mudando para Bangu. Os músicos não têm mais um ponto de encontro. Na minha carterinha da Ordem dos Músicos há uma lista enorme de proibições e impedimentos. A música, tal como existia, não existe mais. Que assombro ver uma país musical como o nosso, mas onde os músicos não podem viver! É isso o Brasil.

Cleusa Maria - O grande homenageado do carnaval carioca está pensando em fazer as malas outra vez?
Tom Jobim - Uma coisa boa que fiz foi ter ido embora para os Estados Unidos nos tempos do obscurantismo. Mas hoje eu não iria de novo. Só vou sair do país no dia em que não puder criar meus filhos e viver com minha mulher aqui. E não sei nada mais. Estou achando tudo muito esquisito. Há muito tempo.

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