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Tom Jobim - O contrato com a "Garota de Ipanema" rende menos de um centavo de dólar por gravação da música. Quando nós assinamos o contrato, recebi de adiantamento 800 dólares. No contrato tem a cláusula de que depois de 28 anos a música volta para os autores. Como vários compositores americanos morreram muito mal, na sarjeta mesmo, porque venderam todos os direitos aos editores e depois ficaram sem nada, eles inventaram uma cláusula, que depois de 28 anos a música volta para o autor. Esse prazo se esgotou recentemente e eu seria o feliz possuidor de "Garota de Ipanema", mas eles botaram uma outra cláusula no contrato que diz o seguinte: "Dentro de 28 anos, a música volta para os autores. Nós temos a opção por mais 28 anos". Então, são 28 mais 28. Se você não falar nada, é renovada automaticamente. Se falar, não adianta, porque eles têm a prioridade. Podem ficar com "Garota de Ipanema" 28 mais 28 anos, o que daria 56 anos. Como o Vinicius morreu, a parte dele reverteu para os herdeiros, que ficaram com a outra metade da "Garota de Ipanema". A MCA porpôs uma renovação mediante modesta quantia e os herdeiros toparam.
Nessa renovação, fiquei sabendo que eu não tinha direito à música de volta. Tanto é que eles não tiveram que me pagar nem um tostão. Continuo esse contrato, que foi discutido por estrangeiros. Quando o primeiro contrato foi feito, nosso inglês não dava para isso, para ler contrato. Essas músicas todas de parceria com o Vinicius, que se tornaram importantes, eu dividia com ele e com todos os letristas que entraram. Tem 50% da editora. O restante dos 50% para dividir entre os autores. Rachado, dá 25% para cada um, 25% nessa coisa ínfima que é o direito autoral, mas já é alguma coisa. Acontece que entra o Norman Gimbell. Minha parte era dividida com ele, o versionista. Se entraram 10 letristas, nós dividiríamos com 10 pessoas. No caso da "Garota", entrou o Norman Gimbell. Então, esses 50% estão divididos por três, Norman, Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Depois que você passa por tudo isso, vê que não pode ser comparado com os Beatles. Eles têm outros contratos, fizeram sua própria editora.

Tom Jobim - Stan Getz foi legal comigo, mandou me dar uns royalties, que eram rachados. Eram uns royalties de 12%, uns royalties bons porque eles eram famosos, 6% para cada um. Stan Getz se bateu para que o Creed Taylor botasse lá no contrato 0,5% dos royalties dos 6% do Stan Getz para mim. O João também daria, mas o João chiou. Disse que eu já era arranjador, já tinha pose e ganhava direito autoral. Mas deu. Eu fiquei com 1% desse disco, o "Getz-Gilberto", que vendeu mais de 1 milhão de cópias de saída, por causa da "Garota de Ipanema". Esses números, naquele tempo, eram fantásticos.
A Corcovado Music fui eu que fiz, aliás a Thereza que me obrigou a fazer uma editora. Thereza está no meu testamento, tem a Aninha, tudo igual, não admito reclamações. O testamento foi feito inclusive não só aqui como em Nova Iorque. Você morre e vem a briga entre países pela grana. Eu fiz a editora em 63. Me lembro da Thereza andando comigo pela rua, naquele frio, naquela neve de dezembro ou janeiro de 63, porque o show tinha sido em 62. Ela tinha alergia ao frio e começava a coçar, ela botava meia e coçava. Ela disse: "Você vai lá, porque eu não posso ir". Tomou um táxi e foi se esconder no apartamento que nós tínhamos alugado, na rua 90, e eu fui fazer a Corcovado Music. Quando fiz a Corcovado, em 63, todas essas músicas já estavam editadas. Eu não tinha nem mais coragem de refazer uma vida toda, porque já estava com 36 anos e me considerava um velho, naturalmente. Aquela vida na esbórnia, no álcool, no cigarro. A Corcovado foi pegando essa coisas que não têm tanta importância. Mas a Corcovado tem "Águas de março", tem "Wave". "Wave", eu me lembro que trabalhei como um louco para fazer a letra em inglês. Deu mais trabalho do que a de "Águas de março". "Wave" tem aquele saxofonista que ficava na esquina tocando e recebendo cinco centavos. Quando eu passava, pegava o dinheiro e dizia: "Fui eu que fiz a música". (risos)

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